Obra da artista Cibele Vieira é censurada e retirada de exposição pelo próprio curador

 Cibele Vieira (*)

No dia 16 de outubro, o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), em Porto Alegre, abriu a exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea com curadoria de Fábio André Rheinheimer. A exposição apresenta obras de artistas convidados e obras do acervo do próprio museu. O material impresso de divulgação da exposição traz o nome de 27 artistas mas, na parede, só se encontram 26 obras. Isso porque a obra Pietà da artista Cibele Vieira, que pertence à coleção do museu desde 2012 foi removida da exposição.

Essa obra já foi exibida na exposição O Triunfo do Contemporâneo no Santander Cultural em 2012. A mesma instituição que censurou a Queermuseu recentemente, um dos casos mais graves de censura no Brasil na área de artes visuais, exposição esta da qual a artista Cibele Vieira também participou.

Em resposta ao incidente, a diretora do MAC-RS, Ana Aita, em entrevista para o jornal Zero Hora (23.10.17), declarou: “Estávamos naquela semana do fechamento da Queermuseu com os ânimos muito exaltados. Quando vi a obra Pietá (de Cibele Vieira) no meio de uma área cercada por imagens de pênis, achei que poderia dar problema.” O curador da mostra declarou não ter sido obrigado a remover a obra, mas o fez para preservar a integridade da exposição, dos artistas e da instituição, mas decidiu manter o espaço visual em que a obra iria ser exposta demarcado com uma fita adesiva. Segundo ele trata-se de um “protesto silencioso”.

Só tomei conhecimento do fato no dia 20 de outubro. Para mim esse processo de censura demonstra a arbitrariedade e os caminhos obscurantistas que o Brasil está tomando. Quando o curador responsável pela exposição e a própria direção mostram que não têm respeito pela próprio acervo da instituição, nos encontramos em um momento de extrema gravidade. Com medo da falsa narrativa criada por ultraconservadores com o intuito de criminalizar a produção artística e pautar as próximas eleições em torno do moralismo persecutório, tais indivíduos mostram que perderam o senso de responsabilidade pública, fazendo uso da obra dos artistas em seu próprio benefício.

(*) Cibele Vieira é artista visual. Vive a trabalha em Nova Iorque.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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