Estado fora da lei

Governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, e secretário da Segurança Pública, Cezar Schirmer. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Quando o Estado não respeita a lei, que sinal ele está emitindo para a sociedade? As imagens de presos amontoados em carceragens de delegacias de polícia, ou pior, amontoados em camburões da Brigada Militar, ou pior ainda, algemados em grades ou corrimões nos pátios de delegacias, viraram uma rotina no Rio Grande do Sul. A esmagadora maioria da chamada “opinião pública”, de modo geral, não quer saber se o Estado está ou não cumprindo a lei que impede que alguém fique mais de 24 horas nestas condições. Que apodreçam nestas condições é um dos comentários mais singelos e generosos que proliferam pelas redes sociais quando as imagens desses presos são mostradas, reproduzindo o que milhares de “comunicadores” repetem pelo país afora todos os dias.

Com o tempo, escreveu Joseph Pulitzer, um jornalista que emprestou seu nome a um dos principais prêmios da profissão, uma imprensa cínica, mercenária e demagógica vai formar leitores tão baixos quanto ela própria. Essa é, talvez, a frase mais conhecida de Pulitzer. Mas ele tem outras que valem a pena ser conhecidas e que apontam para aquilo que o jornalismo pode ser e, eventualmente, é: “Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma de um jornal residem em seu senso moral, sua coragem, sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem estar público, sua disposição em servir à sociedade.”

Coração, humanidade, integridade, senso moral. As imagens registradas por um policial no pátio de uma delegacia de Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre, mostrando presos amontoados dentro de camburões, algemados em grades, urrando de desespero, não despertam grande coisa na sociedade. Indiferença talvez, ou pior, uma ideia de que isso equivale a algo que pode ser chamado de justiça. É difícil definir o que é maior em quem pensa assim: a indigência moral ou intelectual. Mas o exemplo vem de cima. Vem do secretário de Segurança que, em seu discurso de posse, admitiu que não tinha conhecimento da área, mas que iria se “encharcar” de informações nos dias seguintes. Aparentemente, ainda está se encharcando. Vem de um governador que faz do obscurantismo uma profissão de fé e não hesita em destruir as fundações que reúnem a inteligência do Estado.

O mesmo Estado que acha aceitável tratar seus presos dessa maneira, desmonta todas as políticas destinadas a dar algum acolhimento e proteção às mulheres vítimas de violência. Não são fatos isolados ou pontos fora da curva. Eles são expressões de uma mesma lógica, se é que pode se chamar de lógica tal padrão de procedimento. Desprezo pela vida, pela inteligência, pela humanidade são as marcas da elite que manda hoje no Rio Grande do Sul. Uma elite fora da lei, que apóia um governo fora da lei e sustenta um Estado fora da lei. Uma elite que tem um de seus alicerces fincados em uma mídia cínica, mercenária e demagógica. Os gritos desesperados dos presos de Gravataí são uma das expressões do que estamos vivendo hoje. Há quem ache que não tem nada a ver com isso, que esses presos mereceram estar nesta situação. Cedo ou tarde, serão tocados pela máxima que Shakespeare expressou em Hamlet: se todos recebessem o que merecessem, ninguém escaparia do chicote.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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