A luta de Palmas contra a mineração: ‘Para nós, sair daqui é um atestado de morte’

Alto da Casa de Pedra, em Palmas. Área que sofrerá os impactos do projeto de mineração da Votorantim é a mais preservada do bioma Pampa. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Seu Alberto ainda lembra dos efeitos do vazamento de mercúrio nas instalações da antiga Companhia Riograndense do Cobre, nas Minas do Camaquã, que ocorreu em 1981, deixando sequelas até a cidade de Cristal. “A lama que escapou matou uma quantidade de peixe e foi até a cidade de Camaquã. O dourado desapareceu do rio. Agora está voltando aos pouquinhos. Não sei se vai ter mais adiante com o negócio dessa mina que está pra sair. Tomara que não saia. Isso é uma barbaridade”. A preocupação de Alberto Gonçalves Rodrigues, que nasceu e sempre viveu em Palmas, distrito de Bagé, é compartilhada pela maioria dos moradores da região que estão lutando contra o projeto Caçapava do Sul, da Votorantim Metais, que pretende minerar chumbo, zinco, cobre, prata e talvez ouro em uma área localizada às margens do rio Camaquã.

Ele não acredita nas promessas da empresa que garante não haver nenhum risco de contaminação resultante da operação de lavra de minério metálico a céu aberto. “Da outra vez foi a mesma coisa. Disseram que não ia ter problema e aconteceu. A nossa carne é a mais sadia aqui do Rio Grande do Sul. Como é que ela vai ficar depois dessa mina de chumbo e zinco. Isso é um crime que vão cometer contra a gente”. Uma das regiões mais preservadas do Rio Grande do Sul e a mais preservada do bioma Pampa, a região onde a Votorantim pretende minerar é habitada por comunidades tradicionais que tem um modelo de desenvolvimento baseado na pecuária familiar, na agricultura familiar, no artesanato de lã e na produção de doces coloniais, entre outras atividades.

Alberto Gonçalves Rodrigues: “Da outra vez foi a mesma coisa. Disseram que não ia ter problema e aconteceu”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O território possui dois sítios considerados de alta relevância em termos de patrimônio geológico, que figuram na lista “Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil” e fazem parte do patrimônio geológico brasileiro. Essa mesma área faz parte do polígono Palmas/Bagé-Rincão do Inferno-Santana da Boa Vista, considerada de relevância extremamente alta para o Ministério do Meio Ambiente, que já possui indicação de criação de unidades de conservação. A beleza cênica dessa região já serviu de cenário para vários filmes como “Valsa para Bruno Stein”, “Anahy das Missões”, “Neto perde sua alma” e várias cenas da série “O Tempo e o Vento”

Memória de perdas: “O peixe não desaparece do nada”

Desde que tomaram conhecimento das intenções da empresa, há cerca de um ano, essas comunidades iniciaram uma rápida e intensa mobilização para tentar barrar o projeto da empresa. Vera Colares, que nasceu e se criou na região, é uma das lideranças da União pela Preservação do Camaquã (UPP) que vem procurando articular várias comunidades nesta luta. A memória do que já viveu na região serve de alerta para tudo o que está em risco com o projeto da mineração e tudo que o acompanhada. Às margens do Camaquã, ela olha para as águas do rio e lembra que eles já tiveram muito mais vida. “Nós costumávamos acampar aqui. Nestas correntezas tinha muito peixe que pescávamos para o nosso próprio consumo. Hoje, se a gente vem pescar nesta mesma área pega um ou dois peixinhos. A gente até solta porque são muito pequenos. Alguma coisa aconteceu. O peixe não desaparece do nada”.

Vera Colares: “Alguma coisa aconteceu. O peixe não desaparece do nada”. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Assim como o seu Alberto, Vera acredita que os vazamentos da mina de cobre, de Minas do Camaquã, que ocorreram na década de 80, são responsáveis pela diminuição da população de peixes no rio. “O dourado chegou a desaparecer totalmente do Camaquã. O grumatã e a piava também. Agora, a gente já vê alguns de novo”.

Irmão de Vera, Luis Mário Colares acredita que, além da mineração, os agrotóxicos utilizados em lavouras de arroz e soja próximas ao Camaquã também contribuíram para o desaparecimento dos peixes. “Apareceu muito peixe morto no Camaquã. Hoje, nem de linha tu tira mais peixe. Tem um arroio aqui perto onde a gente matava traíra de facão. Hoje, tu não vê nem lambari mais. O pessoal andou levando alguns desses peixes mortos pra fazer exame, mas até hoje não sabemos o resultado. As plantações de eucalipto, onde colocaram caminhões de veneno para combater as formigas, também mataram muito bicho. Se achou muito tamanduá morto. Eles comem formiga e comeram formigas envenenadas”.

Luis Mário Colares: Além da mineração, os agrotóxicos mataram muitos peixes no Camaquã. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Uma história de mais de 200 anos

A memória dos moradores do distrito de Palmas está enraizada em uma história de mais de 200 anos. “Nossos antepassados chegaram aqui com as primeiras sesmarias doados para o Assis Brasil. As nossas famílias estão aqui muito antes da criação da maior parte dos municípios do Rio Grande do Sul. Bagé foi formada por muitos habitantes de Palmas. As pessoas daqui são muito apegadas ao lugar. Para nós, sair daqui é praticamente um atestado de morte. Muitas vezes, os filhos querem levar os pais para a cidade por uma questão de saúde e não conseguem. Para muitos, sair daqui significa a morte. Isso aqui é a nossa vida”, diz Vera, sem conter a emoção.

As famílias de Palmas trabalham em um regime de agricultura e pecuária familiar com laços comunitários muito fortes. A ajuda mútua e a troca de serviços são práticas constantes, relata. “Existe um regime cooperativo de trabalho. Se a gente tem um milho pra colher, o vizinho vai lá e ajuda a gente a colher. Quando este vizinho tem algum trabalho a fazer, a gente vai lá pra ajudar. Também trocamos serviços. Eu ajudo meu vizinho a carregar uma areia e ele me ajuda numa colheita. Raríssimas são as pessoas que têm funcionários de fora. São pequenas propriedades rurais e a nossa plantação é de subsistência. A gente vende só o gado”.

Vera Colares recebeu em sua residência, por dois dias, a reportagem do Sul21 e uma equipe da Faculdade de Antropologia da Universidade Federal de Pelotas, formada pela professora Flavia Maria Silva Rieth e pelos pesquisadores Vagner Barreto e Daniel Vaz Lima, que estão realizando um inventário de referências culturais das lides do campo. Instrumento criado pelo IPHAN em 2000, o inventário é um instrumento que busca reconhecer saberes, lugares, formas de expressão e celebrações como patrimônio cultural imaterial. Como costuma acontecer, essa riqueza imaterial é ignorada em projetos como o da Votorantim que promete um tipo de progresso que a população da região afetada rejeita, não só por promessas que deixam de ser cumpridas, como também por que ameaça a sua própria sobrevivência.

O impacto ambiental do projeto

O Estudo de Impacto Ambiental do projeto Caçapava do Sul aponta, entre outros, os seguintes impactos nas fases de implantação e operação do empreendimento:

supressão de vegetação nativa, diminuição da área de ocorrência de espécies nativas, destruição de habitats e micro habitats, redução da biodiversidade, supressão de Área de Preservação Permanente (APP), atropelamento e afuguentamento de fauna, alteração da biodiversidade aquática, supressão de nascentes e olhos d’água, contaminação de recursos hídricos superficiais e subterrâneos por óleos e graxas, diminuição da qualidade da água em corpos hídricos pela supressão vegetal, assoreamento dos corpos hídricos, alteração da qualidade do ar pela emissão de material particulado, risco à saúde pela alteração da qualidade do ar, alteração do regime fluvial do rio Camaquã devido a captação de água bruta e alterações ambientais devido ao transporte de cargas perigosas.

O EIA-Rima apresentado pela Votorantim foi considerado insuficiente e a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) pediu que a empresa apresentasse novos estudos até fevereiro de 2018. Na avaliação da bióloga Jaqueline Durigon, professora da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), o estudo apresentado pela empresa é de “baixíssima qualidade técnica”. Segundo Durigon, o estudo não leva em conta todas as áreas que serão impactadas pela mineração, tem insuficiência de amostras e deixa de registrar a presença de várias espécies ameaçadas de extinção. Além disso, acrescenta, não apresenta uma análise detalhada do impacto hidrológico que será causado no rio Camaquã pela supressão de 24 nascentes e 25 olhos d’água, entre outros problemas.

Para Vera Colares, o projeto, caso implantado, causará impactos de todos os tipos. “Como ele vai suprimir nascentes do Camaquã, a quantidade de água vai diminuir. A mineração, diariamente, vai retirar água do rio. Olhando agora, o Camaquã parece um grande rio, mas no verão a água bate no tornozelo. Ele fica praticamente uma sanga. O Camaquã para nós é tudo, fonte de lazer e de sustento. Além disso, a poeira contaminada que sairá da mina será carregada pelo vento para a nossa comunidade, atingindo nosso pasto, nossos animais e a gente. Então, por qualquer lado que se possa olhar ele é uma ameaça gravíssima para nós. Não vamos sobreviver à mineração. Por isso, estamos totalmente engajados nesta luta”, enfatiza.

“Aqui, se tu não tem cachorro, tu não trabalha”

A relação dos moradores de Palmas com os animais é um capítulo especial na vida da comunidade. Cabritos, ovelhas e vacas vivem soltos nos campos entremeados de matas e de pedras da Serra do Sudeste. O manejo desses animais é feito com a ajuda de cavalos e cães, que desempenham um papel fundamental. “ Aqui, se tu não tem cachorro, tu não trabalha. No campo sujo tu não trabalha sem cachorro”, diz Regis Luis Marques Colares, veterinário, produtor rural e agente de saúde que vive em Palmas “desde sempre”. Esse trabalho exige um cuidado especial, destaca Regis:

“Tem quem sabe trabalhar com cachorro e quem não sabe. No trabalho com a ovelha, tu não pode atiçar ele da mesma maneira que com o gado. O grito tem que ser diferente. Tem que maneirar no grito. O comando é diferente e isso tem que ser feito desde que ele é pequeninho. Esse aqui (diz, apontando para um de seus cães) começou a trabalhar com cabrita com três meses. Ele já nasce junto com os cabritinhos e vai aprendendo que não pode morder. Esse é um trabalho contínuo. Eles trazem o animal em direção a gente, colocam e tiram eles da mangueira”.

Régis Luis Marques Colares: “Aqui, se tu não tem cachorro tu não trabalha”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Além da campereada, os cães também ajudam a encontrar animais perdidos ou doentes. A maioria dos cães é ovelheiro gaúcho. De uma década para cá, aumentou a presença dos border collie, mas eles têm um problema para esse tipo de trabalho, conta Régis. “É um cachorro inteligentíssimo, mas eu tenho uma certa controvérsia com cachorro que não acoa. O border collie não acoa e para nós no mato fica meio difícil. Tem uns border collie bueníssimos aqui, mas o pessoal tava brabo com eles, pois eles até conseguem achar o bicho mas não acoam nada”.

O veterinário define o projeto da mineração como uma “bomba”. Todo o trabalho que vem se desenvolvendo nos últimos anos com o apoio de universidades da região, da Embrapa, Emater, Sebrae e outros entidades, para o melhoramento dos rebanhos de forma orgânica, será perdido. “O que nós valorizamos aqui é qualidade de vida. A gente não quer enriquecer. Isso é um estilo de vida diferenciado. Imagina a poluição que uma mina de chumbo a céu aberto vai causar. Quem é que vai querer o que é produzido aqui? É terrível. Essa mina não pode sair”.

A Associação para o Desenvolvimento Sustentável do Alto Camaquã (ADAC), que abrange oito municípios da parte superior da bacia do Rio Camaquã (Lavras do Sul,   Encruzilhada do Sul, Canguçu, Bagé, Caçapava do Sul, Pinheiro Machado, Piratini e Santana da Boa Vista), tem promovido a organização social dos pecuaristas familiares da região em torno da Rede Alto Camaquã Essa rede é formada por 24 associações e opera em defesa de uma estratégia de desenvolvimento que tem na valorização dos recursos locais (naturais e culturais) e na promoção de produtos com as marcas da sustentabilidade e da exclusividade a sua principal estratégia. Na avaliação das entidades que estão mobilizadas pela defesa do Camaquã, os prejuízos que poderão ser causados pela, extrapolam a esfera da destruição ambiental, comprometendo também esse modelo de desenvolvimento diferenciado.

Protagonismo feminino

Uma das características do modo de vida da população de Palmas é o protagonismo das mulheres. Isso aparece tanto na mobilização contra a mineradora quanto no trabalho cotidiano da comunidade, seja na lida com os animais, na agricultura, no artesanato de lã ou na produção de doces. Com o apoio do marido e dos filhos A artesã Rosangele Soares Scholante desenvolveu uma linha de produtos em lã que mudou sua vida. Ela conta com  orgulho a sua história:

“Eu comecei do nada. Não tinha curso nenhum. Fui aprendendo a tecelagem em lã, fui inventando e cada vez queria aprender mais. Depois fiz um curso de tecelagem, que era meu sonho, e hoje estou aí participando das feiras, junto com meu filho. Estamos sempre tentando criar coisas novas. Eu me sinto realizada com o meu artesanato. Com ele consegui muita coisa para a minha casa. Eu sou uma dona de casa, mas também sou uma artesã. O marido me dá uma baita ajuda. Muitas vezes, ele desce do cavalo e vem me ajudar. A nossa vida é essa aí”.

Além de “pegar junto” no trabalho, homens e mulheres de Palmas tem outra grande parceria no momento: a luta contra o projeto de mineração que ameaça o seu modo de vida. Uma frase se repete em muitas bocas: “Não queremos ser ricos, queremos ser felicidades”. E a felicidade, para os moradores dessa comunicada encravada no Pampa gaúcho, significa neste momento lutar pela integridade da terra, da água e do ar que compõem o território onde vivem. “Nós vivemos dentro do rio Camaquã, amamos nossos animais, nosso modo de vida e queremos seguir vivendo assim”, resume Vera Colares.

(*) Publicado originalmente no Su21.

Sobre maweissheimer

Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalho com Comunicação Digital desde 2001, quando foi criada a Agência Carta Maior, durante a primeira edição do Fórum Social Mundial. Atualmente, repórter no site Sul21 e colunista do jornal Extra Classe.
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