Passaporte para o inferno (V) – Ainda a Legalidade. Tanques, aviões da FAB, canhões e metralhadoras anti-aéreas

“Podíamos ver, da mesma janela, os fundos do Piratini, onde vicejavam algumas metralhadoras também anti-aéreas”. (Foto: Reprodução)

Flavio Aguiar

Já escrevi vários artigos sobre aqueles dias emocionantes, conturbados e inesquecíveis de agosto e setembro de 1961. Hoje alguns deles encontram-se dispersos pela internet, além de dormirem nas folhas de papel em que foram impressos.

São evocações do discurso de despedida de Brizola; da memória de Paulo Schilling, assessor do governador na ocasião; das lembranças de Malena Monteiro, a quem entrevistei em Brasília sobre seu pai, o então Tenente-Coronel Aviador Alfeu Alcântara Monteiro, depois Coronel, que assumiu o Comando da Base Aérea de Canoas na sequência dos oficiais legalistas e sargentos terem impedido o criminoso bombardeio do Palácio Piratini e da cidade. E muito mais.

O que registro aqui é um complemento pessoal destes artigos. Lembro-me, por exemplo, que diante do discurso ao mesmo tempo empolgante e patético de Brizola na Rádio da Legalidade, despedindo-se do povo brasileiro e riograndense ao tomar conhecimento de que tanques do Exército rumavam para o centro da cidade a partir do quartel da Serraria e da ordem de ataque aéreo contra o Palácio, minha mãe pediu-me que subisse às janelas do sobrado em que morávamos, para fechá-las. Morávamos a três quarteirões do Palácio e era muito possível que no caso de um ataque pelo ar e por terra alguma bomba, tiro ou estilhaço sobrassem para nós. Minha mãe e meu pai decidiram que bateríamos em retirada para a casa de uma amiga dela, na rua Avaí, mais afastada do epicentro daqueles acontecimentos dramáticos.

Cumpri a ordem. Ao chegar às janelas, que davam para a rua, deparei com um quadro digno de algumas cenas civis da Segunda Guerra Mundial. Levas e levas de pessoas abandonavam as casas da vizinhança, levando alguns pertences em malas e até carrinhos de mão. Mas algo me chamou a atenção: vi alguns carros oficiais, daqueles de cor e placa pretas, dobrarem a esquina da rua General Auto e seguirem em direção à Bento Martins, correndo em alta velocidade pela rua Demétrio Ribeiro, que era a nossa. Num deles reconheci a roupa (uma fatiota azul-marinho) que o governador Leonel Brizola costumava usar.

Pensei que ali “tinha coisa”, o que se confirmou mais tarde. Instado por outros generais, como Peri Bevilacqua e Oromar Osório, o hesitante General Machado Lopes aderiria à causa da Legalidade. Ele, Brizola, e assessores de ambos, militares e civis, seguiam para o Comando do Terceiro Exército, então o mais poderoso e bem armado do país (devido à sempiterna ameaça da guerra com a Argentina), a fim de acertarem e concertarem detalhes da resistência.

Capa da Última Hora destaca ação dos sargentos da base aérea de Canoas. (Foto: Reprodução)

Ainda assim, executamos a ordem de bater em retirada, dada por minha mãe, e fomos todos – mãe, pai, irmão mais velho, avó, empregada e eu – dormir na casa da amiga. No dia seguinte (29 de agosto), quando estourou a notícia de que o Comando das Forças Armadas, em Brasília, confirmara a ordem de bombardear o Palácio com os jatos Gloster Meteor, com a mensagem “Tudo azul em Cumbica. Boa viagem”, assisti a uma das cenas mais patéticas de todo o episódio. A amiga e colega de profissão (professora do ensino médio) de minha mãe tinha algum grau de parentesco com o então Comandante da 5a. Zona Aérea, de Canoas, o Brigadeiro Aureliano Passos. Sabendo que a ordem não seria cumprida, ela ligou para a casa do Brigadeiro para cumprimentá-lo pessoalmente pela decisão. Ali ficou sabendo que ele fora favorável a cumprir a estúpida ordem, e que, diante da impossibilidade de fazê-lo, foi dos que fugiram para S. Paulo ou Rio (as versões são diferentes) em alguns dos jatos da Base Aérea.

O resultado deste ataque seria certamente devastador. Mutatis mutandis, o episódio lembrava dois da vizinha Argentina. Em 28.09.1951 houve uma primeira tentativa de golpe para derrubar Perón. Também houvera uma ordem para bombardear a Casa Rosada. Diante da falta de apoio terrestre e da multidão reunida em frente a ela, o Comandante encarregado de executá-la não o fez, exilando-se em Montevidéu. Já em 16.05.1955, antecedendo o golpe bem sucedido de setembro do mesmo ano, o ataque foi desfechado pela Aviación Naval, incluindo o bombardeio da sede da CGT. Saldo: pelo menos 308 mortos e mais de 700 feridos. Em Porto Alegre não seria diferente. Conferir, por exemplo, na internet, o depoimento do escritor mineiro Oswaldo França Júnior (que cheguei a conhecer pessoalmente), então piloto em Canoas e depois cassado pelo golpe de 64: diz ele que o ataque arrasaria o Palácio. Este não tinha condição de defesa eficaz, dispondo apenas de armamentos leves. O problema colateral, além do crime contra Brizola e os demais defensores do Piratini, é que ele certamente arrasaria muito mais. O Palácio se situava em área já então densamente povoada, inclusive com edifícios de porte nas vizinhanças.

De um destes edifícios veio uma mensagem que definiu a atitude da família. A ameaça imediata dos ataques aéreos ou terrestres fora neutralizada. A situação na Base Aérea estava sob controle dos oficiais e sargentos legalistas. Os tanques da Serraria, como eram chamados, não atacaram o Palácio, como se temia. Ao contrário, ocuparam o Cais do Porto, onde estava atracado pelo menos um destroyer da Marinha que poderia bombardeá-lo. Assim, voltamos para nossa casa.

Um ou dois dias depois, ao abrir a janela dos fundos do sobrado, meu pai deu de cara, no alto do novo edifício que ficava na esquina na General Auto e da rua Duque, com um canhão anti-aéreo de porte. Além disto, podíamos ver, da mesma janela, os fundos do Piratini, onde vicejavam algumas metralhadoras também anti-aéreas. Foi demais.

Voltamos a bater em retirada, mas desta vez para mais longe: para a nossa casa de praia, na Alegria, do outro lado do Rio Guaíba, de onde acompanhamos o desenrolar da crise pelo rádio, ao som do Hino da Legalidade: “Avante, brasileiros, de pé/Unidos pela liberdade/Marchemos todos juntos co’a bandeira/Que prega a lealdade//Protesta contra o tirano/Que prega a traição/Que um povo só será grande/Se for livre sua nação!”. (Letra de Lara de Lemos e música de Paulo Cesar Pereio, inspirando-se na Marselha…).

Algumas observações complementares.

Coronel Alfeu de Alcântara Monteiro foi assassinado na base aérea de Canoas. (Foto: Reprodução)

A solução parlamentarista, que muitos direitistas querem reeditar hoje, provou-se ao fim e ao cabo inócua. Não agradava aos trabalhistas nem às demais forças à esquerda; mas também não satisfazia os golpistas, que passaram imediatamente a rearticular o golpe em outras bases, ampliando tanto a frente militar quanto a civil. Caiu no plebiscito de 1963. Não houve a tradicional conciliação. Houve, isto sim, uma contemporização de parte a parte. Com efeitos trágicos.

A decisão de João Goulart, aceitando a emenda parlamentarista e refugando a disposição geral de “marchar para Brasília”, causou uma enorme repulsa. No dia mesmo de sua chegada ao Palácio Piratini uma enorme multidão se concentrava na Praça da Matriz, em frente, na expectativa de uma disposição de luta. Com o “arreglo” aceito, o descontentamento se expressou de modo imediato: recebeu-a um gigantesco coro de palavrões dirigidos a ele, impublicáveis mesmo sob o ardor desta rememoração emocionada. O coro foi tamanho que João Goulart deixou o Palácio pela porta dos fundos – ou pelo túnel que proverbialmente o liga ou ligava às vizinhanças do Teatro São Pedro.

A solução encontrada para os episódios da Base Aérea me parece, vista de hoje, muito curiosa e bem “à brasileira”. Os oficiais golpistas tinham recebido a ordem de decolarem em aviões, atacarem o Palácio, e rumarem para o norte, pousando em Cumbica. Pois bem, eles cumpriram o ordem. Só não bombardearam o Palácio porque não tinham bombas nem munição para suas metralhadoras. Assim, nada se podia objetar quanto à sua conduta. Como o Comandante da Base se foi com eles, para que ela não ficasse acéfala, o oficial mais graduado assumiu seu comando, no caso, o Tenente-Coronel Aviador Alfeu Alcântara Monteiro, cujas primeiras declarações, na ocasião, foram no sentido de tranquilizar os ânimos.

Houve uma conciliação? Também não. Houve igualmente uma trágica contemporização: o já Coronel Alcântara Monteiro seria assassinado na mesma Base Aérea, em 4 de abril de 1964, por resistir ao golpe então desfechado com sucesso.

Mas isto fica para depois.

Leia também:

Passaporte para o inferno (I)

Passaporte para o inferno (II): As longas sessões de cinema

Passaporte para o inferno (III): O Dia D

Passaporte para o inferno (IV): O folclore da Legalidade

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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