Passaporte para o inferno (IV) – O folclore da Legalidade

Flavio Aguiar

O repórter acordou com a barulheira na rua, defronte a janela de seu quarto no hotel. Já era tarde. Um fim de tarde. Ele passara a noite anterior – considerada fim de festa – bebendo até de manhã. Os dez dias anteriores tinham sido terríveis: uma guerra civil pairava no ar. Houvera até uma ameaça de bombardeio aéreo sobre a cidade onde ele se encontrava. Bem à brasileira, tudo se conciliara no final: adotou-se uma emenda parlamentarista, o vice-presidente pode seguir para Brasília a fim de tomar posse no cargo que a renúncia do presidente lhe abrira. E o repórter então fora comemorar com os demais colegas do exterior e do próprio Brasil aquele fim pacífico de um conflito que poderia ter degenerado num confronto armado de grandes proporções. Ele bebera até sentir-se exausto. Fora para o hotel no centro da cidade, caíra na cama, e dormira pesadamente, ate ser acordado pela gritaria que passava em frente à  janela de seu quarto.

Ele saiu (caiu?) da cama, e abriu a janela. Embaixo, na rua, passava uma multidão embandeirada. As flâmulas vermelhas se agitavam ao vento. A multidão era evidentemente popular. Não maltrapilha, porque se tratava de um fim de inverno. Mas era evidente que aquelas roupas não vinham dos bairros nobres. Cantavam algo incompreensível para o repórter, que só falava inglês, pois era norte-americano ou britânico. Ele pensou: “é a Revolução!”  Inconformada com a aprovação da emenda parlamentarista em Brasília, a multidão tomara o freio nos dentes e se desatara pelas ruas da capital gaúcha, embandeirada e tudo, pronta para o assalto ao Palácio de Inverno, se ele existisse na cidadela dos pampas em que Porto Alegre se vira transformada.

O repórter vestiu-se e disparou como um raio do hotel para a redação do Correio do Povo, na rua Caldas Júnior, onde ele dispunha de acesso ao telex e a telefones para se comunicar com sua base central em Nova Iorque ou Londres. Entrou esbaforido, aos berros: “preciso de um telefone, a Revolução está nas ruas”. “Como assim?”, lhe perguntou um plácido escriba sentado em sua escrivaninha, que dedilhava calmamente alguma matéria que o anglo-repórter deve ter considerado anódina diante do que vira. Explicou: “bandeiras vermelhas, desfile, cantos que deviam ser marciais, o povo na rua, contestando o novo regime parlamentarista, emanado do acordo que pusera fim ao golpe a à resistência”… “Nada disso”, retrucou o calmo escriba. “É o seguinte: por causa da tentativa de golpe, da resistência, do movimento da Legalidade liderado pelo governador Brizola, o Gre-Nal de 27 de agosto foi adiado. Com o fim do impasse, ele foi jogado hoje, 10 de setembro, e o Internacional, das camisas vermelhas, ganhou por 2 x 1, golos (na época se falava e se escrevia assim) de Paulo Lumumba para o Grêmio e de Gilberto Andrade e Alfeu para o Colorado… A multidão comemora a vitória do Clube do Povo”.

Aliviado, mas desiludido com a perda do furo, o anglo-repórter voltou ao hotel para retomar o sono. Quem me contou isto foi o calmo escriba, o depois famoso ator Fernando Peixoto que, na época, era redator do Correio do Povo e da Folha da Tarde.

A Campanha da Legalidade foi um dos momentos de glória nacional e internacional de Porto Alegre. A Revolução de 1930 foi talvez o primeiro. E a criação e realização de quatro dos cinco primeiros Fóruns Sociais Mundiais foi o último, graças às administrações populares que deslumbraram o mundo e a ONU com o Orçamento Participativo e outras realizações. Hoje Porto Alegre é a taciturna capital de Sartori e Marchezan, à sombra de Doria, Temer et caterva…Mas naqueles idos de 1961 muita agitação correu debaixo do olhar dos porto-alegrenses.

Algumas histórias são muito conhecidas. Outras nem tanto. É conhecida a história do Josué Guimarães, o escritor, dormindo dentro do Palácio Piratini, centro da resistência anti-golpe. Pela rua, passa um ruído de ferros rangendo. Alguém o acorda: “Josué, são os tanques do quartel da Serraria quem vem nos atacar”. “Que horas são”?, ele pergunta. “Duas horas da madrugada”. “Então, quando passar o tanque das quatro me acorda de novo”. É que pela rua Duque, em frente ao palácio, circulavam os únicos bondes da madrugada porto-alegrense: um passava às duas, outro às quatro… Eram chamados de “Bondes-fantasma”. Depois, só a partir das seis.

Mas esta, que conto a seguir, é menos conhecida. A multidão permanecia reunida em frente ao Palácio Piratini, disposta a resistir e a morrer, mais morrer do que matar, talvez correr… De repente, para os lados do Viaduto da Borges de Medeiros, soou um estrépito de patas de cavalo e ferraduras tinindo sobre os trilhos do bonde… Despontou um piquete de cavalarianos, bandeira tricolor tremulando à frente, bombachas, chapelões, lenços vermelhos, ponchos e demais pilchos… Um frêmito tomou conta de todos na Praça da Matriz: era a Legenda Farroupilha que vinha ao encontro da Resistência! O piquete foi chegando, e logo um sargento da Brigada, metralhadora a tiracolo, se dirigiu ao patrão do grupo: “Vieram participar da luta?, precisamos de gente na ala do Teatro São Pedro”… Ao que o interpelado, do alto do pingo e da história, respondeu: “Nós não semos de briga, semos de dança! Semos do CTG Rincão da Lealdade e só viemos aqui pra divertir o povo”…

Vai ter mais. Aguarde.

Leia também:

Passaporte para o inferno (I)

Passaporte para o inferno (II): As longas sessões de cinema

Passaporte para o inferno (III): O Dia D

Anúncios

Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
Esse post foi publicado em História, Política e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s