Passaporte para o Inferno (I)

“O Zé do Passaporte ficava aberto a noite inteira, e era clássico, naqueles tempos em que a gente vestia paletó e gravata para ir a reuniões dançantes particulares ou aos bailes na Reitoria da Universidade, encerrar lá a madrugada”.

Flávio Aguiar
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ (…) E [o Tempo], afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança faz de mor espanto:/Que não se muda já como soía”.

Luiz Vaz de Camões

Instado pelo Marco Aurélio e pela Katarina, passo a escrever uma série de crônicas rememorando tempos antigos de Porto Alegre. Não se trata de “sessão nostalgia”. Trata-se de evocar a vertiginosa passagem do tempo, coisa necessária hoje para se contrapor a estes arautos do “eterno retorno” às agruras do conservadorismo empedernido que faz questão de manter nosso país, nossa gente, mergulhados na injustiça e na condição subalterna no mundo e a suas vontades.

Chamei estas crônicas, presuntivamente, de “Passaporte para o Inferno”, evocação de cachorro-quente vendido na imortal banca do “Zé do Passaporte”, sita num trailer na esquina da José Bonifácio com a Osvaldo Aranha, perto de onde ficava a entrada do “Parque Shangai”, um parque de diversões com montanha russa, roda gigante e o escambau. Também por ali havia um campo de futebol amador, onde, ainda nos anos sessenta tardios, vi um combinado (!) de veteranos do Internacional e do Grêmio (!!!!) dar um baile num time de recrutas do CPOR, com Elton e Milton Kuelle (do Grêmio) jogando no meio-campo e Larry/Bodinho (do Inter) no ataque, acabando com a defesa adversária.

O Zé do Passaporte vendia todo tipo de cachorro-quente. Usava de tudo: purê de batata, ervilha, maionese, mostarda, ketchup, etc., e tinha um molho de pimenta feroz que deu nome ao predileto do cardápio: “Passaporte para o Inferno”. Ficava aberto a noite inteira, e era clássico, naqueles tempos em que a gente vestia paletó e gravata para ir a reuniões dançantes particulares ou aos bailes na Reitoria da Universidade, encerrar lá a madrugada. Naquela Porto Alegre de então, afora as boates, alguns puteiros e os inferninhos, havia quatro recantos que nunca fechavam, inverno e verão: além do Zé, havia o restaurante Mateus, no centro, uma farmácia na Borges de Medeiros, no térreo do edifício onde ficava o recém-aberto Cinema Continente (onde vi pela primeira vez – das cinquenta que se seguiram – “O Leopardo”, de Visconti/Lampedusa, com Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon e grande elenco de apoio), e, em frente ao Zé, na esquina da Felipe Camarão com a Osvaldo Aranha, o Bar do Fedor.

O Bar do Fedor, na esquina da Felipe Camarão com a Osvaldo Aranha, nunca fechava – simplesmente porque não tinha portas.

O Fedor nunca fechava – simplesmente porque não tinha portas. Servia de tudo: churrasco, sanduíches, cerveja, cachaça, Melhoral (naquele tempo ainda não havia Engov) pra quem precisasse. E ali, em frente ao Fedor, se passou um dos grandes dramas daquela Porto Alegre dos anos 50, ainda antes do Passaporte abrir as janelas do seu trailer.

Como narrativa em primeira pessoa, minha vida começa em 1954,  no dia 24 de agosto. Bateram na campainha de nossa casa, na rua Demétrio Ribeiro, ex-rua da Varzinha. Como era costume, fui abrir. A vizinha, Dona Wanda, nem me cumprimentou. Embarafustou casa adentro, aos gritos: “Dona Elsa” (minha mãe), “acenda o rádio. O doutor Getulio se matou!”

Corremos para o rádio, eu, minha mãe, minha avó Henriqueta, a empregada, Audes Maria, e a vizinha. Rogério, meu irmão mais velho e Nilo, meu pai, estavam fora de casa. Deviam ser umas nove horas da manhã. Emocionado, o locutor do Repórter Esso (seria o Heron Domingues?) lia a Carta Testamento: no fim, “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. Como um repentino flash, me veio à mente cena do ano anterior: eu sobre os ombros de meu pai, na praça da Matriz, no meio de uma multidão incalculável, foguetes espoucando por todo lado, e na rua em frente a nós, passando em carro aberto e acenando, de terno branco, o doutor Getulio, incólume e eterno. No banco de trás, um negro enorme: Gregório.

Reação popular ao suicídio de Getúlio Vargas, no centro de Porto Alegre. (Foto: Revista do Globo)

Seguimos colados ao rádio. Havia multidões derramadas pelas ruas de Porto Alegre, e também chegavam notícias iguais do Rio de Janeiro. No centro da cidade, a multidão enfurecida invadia as sedes dos partidos anti-getulistas e quebravam o que encontrassem pela frente. Uma parte subia pelos prédios, e jogava pelas janelas tudo: mesas, cadeiras, armários, arquivos. Embaixo, na rua, outra parte tocava fogo naquilo tudo. A multidão passou a atacar também os jornais e rádios da oposição, sobretudo dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, o Chatô, antigo aliado de Getulio, que se voltara violentamente contra o benfeitor. (Seria porque Getulio tivesse favorecido a concorrente Última Hora, de Samuel Wayner?).

Ouvimos, no rádio, ao vivo, o locutor da Rádio Farroupilha, dos Diários, narrando a invasão e o incêndio do prédio, que ficava nos altos do Viaduto da Borges de Medeiros, esquina com a rua Duque de Caxias. No segundo piso do prédio ficava a rádio Difusora, também do grupo. Alguém ficou preso por lá, e pulou pela janela, quebrando a espinha, o que, naquele tempo, equivalia a ficar paralítico (a palavra “paraplégico” foi entronizada depois) pelo resto da vida.

Neste meio tempo, eu vestira o guarda-pó para ir à escola, no Colégio Paula Soares, na rua General Auto. Mas logo ficou claro que eu não iria: as escolas fecharam, pura e simplesmente, mandando crianças e professoras ou professores para casa. Outra vizinha bateu na porta e também embarafustou, aos prantos, casa adentro. O marido pusera um revólver na cintura e saíra para a rua.

Logo chegaram outras notícias. O quebra-quebra se espalhara pela cidade. Nos altos do Fedor ficava a sede de um partido da oposição (não lembro qual, seria o PRP?). A multidão se concentrara perto, para invadir o prédio. Do outro lado da rua ficava o Hospital do Pronto-Socorro. Talvez por isto havia ali um contingente da Brigada Militar, a PM sulina. Não se sabe muito bem como, o tiroteio começou. Na fuzilaria, dois civis morreram na hora. Um outro ficou ferido gravemente. Que me lembre, morreu algumas semanas depois.

O dia também morreu, e na manhã seguinte os jornais sobreviventes estampavam as fotos do quebra-quebra, mais as do Rio de Janeiro, com a multidão virando e incendiando caminhonetes de O Globo.

Depois, muito depois, criou-se a versão de que as multidões que saíam à rua para “comemorar” a queda de Getulio viraram a casaca ao ouvir a Carta Testamento lida no rádio. Uma ova. Não havia multidões comemorando a queda do presidente mais popular que o Brasil já teve, depois de D. Pedro II e antes de Lula. O Povo, assim com maiúscula, assistia, impotente, a queda do seu presidente. A notícia do suicídio e a leitura da Carta galvanizaram o descontentamento e a fúria. Que então, de fato, saiu às ruas. O Povo, assim,  com maiúscula, para desespero dos Lacerdas, os Temers de então.

Muitos anos depois li a biografia de Osvaldo Aranha, e de como ele disse a Getulio, naquela fatídica madrugada: “Manda todo mundo embora, fiquemos só nós dois aqui no Palácio do Catete, e resistiremos à bala”. Getulio lhe bateu no ombro, e disse: “Vai pra casa dormir, Osvaldo. Eu já pensei em tudo”.

O Velho (como também era chamado) ficou só e resistiu à bala. Uma única. E entrou pra História, tornando-se um mito.

Recentemente passei por aquele recanto da Osvaldo Aranha. De tudo, só resta o Pronto Socorro. Nem o Fedor, nem o Zé do Passaporte, nem o Parque Shangai, nem o campo de futebol estão lá (acho que no lugar de algum deles está o Auditório Araújo Viana).

O Fedor queimou. O Zé, o Parque e o campo viraram fumaça. Tudo o que é sólido desmancha no ar, dizia Marx.

Mas há certas coisas que não são sólidas, nem líquidas, nem mesmo gasosas. Estas não se desmancham nunca.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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4 respostas para Passaporte para o Inferno (I)

  1. Maria Lucia Sampaio disse:

    Belo escrito, Flávio!
    Naquele dia fatídico (pra entrar no clima), fui com meu pai ver o incêndio na Rádio Farroupilha e, depois, no Largo dos Medeiros para ver os protestos.
    Inesquecível.
    Beijo da Dindinha.

  2. Luiz Müller disse:

    Republicou isso em Luíz Müller Blog.

  3. Flavio Aguiar disse:

    Obrigado pelos comentário e reprodução. Bjs., F.

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