Ausência de abordagem social noturna dificulta ida de população de rua para albergues

Valdemar de Lima vive na rua há seis anos e deixou de ir para os albergues para não se separar de seus cães: Pérola, Pantera, Thor, Diana, Dingo e Meg. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Na semana em que o Rio Grande do Sul vive as menores temperaturas do ano, a falta do serviço de abordagem social noturna, por parte da prefeitura de Porto Alegre, está dificultando o contato e o deslocamento da população em situação de rua para os albergues municipais. O alerta foi feito nesta terça-feira (18), por Veridiana Farias Machado, educadora social do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), que chamou a atenção para o impacto da precarização dos serviços de assistência social do município no atendimento das pessoas que estão enfrentando na rua as gélidas noites dos últimos dias.

Segundo estudo divulgado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em dezembro de 2016, Porto Alegre teria hoje mais de 2.100 pessoas vivendo em situação de rua. Veridiana Machado avalia que esse número é bem maior, chegando hoje a aproximadamente cinco mil pessoas.

“Estamos com uma situação muito complicada nos serviços da Fasc (Fundação de Assistência Social e Cidadania), com uma precarização imensa. A abordagem social não está funcionando de noite. O único albergue municipal que faz abordagens noturnas sociais está com o aluguel atrasado, sem transporte e sem telefone. Esses são recursos básicos para que uma equipe de abordagem social funcione. Os elevadores desse albergue estão estragados e o proprietário do prédio disse que não vai arrumá-los enquanto a prefeitura não pagar o aluguel que está atrasado”, diz Veridiana Machado, que também é representante dos servidores da Fasc junto ao Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa).

O abrigo onde trabalha, na vila Bom Jesus, tem vagas para 50 pessoas, mas está abrigando só 28 pessoas, porque a abordagem social noturna não está funcionando por falta de transporte. “A Prefeitura cortou os serviços de transporte da Fasc e disse que vai começar a usar táxi. Como é que se vai fazer o serviço de abordagem social de táxi?” – questiona Veridiana.

“Um White Walker no centro da cidade”

A educadora lamenta que, enquanto os espaços e serviços de assistência social apresentam tal precarização, o prefeito faça piada sobre o frio nas redes sociais. A referência é a um post publicado pelo prefeito Nelson Marchezan Junior em sua página no Facebook, dizendo que estava fazendo tanto frio, que a prefeitura “recebeu denúncias de um White Walker no centro da cidade”. Na ilustração do post, um zumbi, personagem da série Game of Thrones, caminha ao lado do viaduto Otávio Rocha, local que reúne hoje uma das principais concentrações de população em situação de rua no centro da capital.

No início da tarde desta terça, dezenas de pessoas dormiam sob o viaduto. “É mais seguro dormir de dia do que noite”, observa Veridiana. Ex-moradora do Cristal, Michele Aparecida Marques dos Santos diz que está vivendo há cerca de duas semanas na Borges de Medeiros, junto com uma amiga. Ela estima que uma população que varia entre 60 e 70 pessoas está passando a noite sob o viaduto Otávio Rocha. Essa população, relata, vem recebendo apoio de pessoas que chegam de carro trazendo comida quente, roupa e cobertores. Segundo ela, a Prefeitura não tem aparecido no local para prestar assistência, nem de dia nem de noite. A maior carência, diz Michele, é de cobertores, casacos, roupa quentes e colchões. “A maioria das pessoas está dormindo na pedra. Alguns deste lado (do viaduto) até tem um colchãozinho, mas do outro lado estão dormindo no papelão mesmo”.

“Esses são meus filhos e minha família”

Mesmo com frio extremo, há pessoas que deixam de ir para albergues para não abandonar seus cães. É o caso de Valdemar de Lima, natural de Tenente Portela que está vivendo há cerca de seis anos nas ruas de Porto Alegre. Hoje, ele passa a maior parte dos dias nas calçadas da agência central do Banco do Brasil, quase ao lado da Prefeitura, acompanhado de sua família, como faz questão de dizer. Pérola (a mais velha), Pantera, Thor, Diana, Dingo e Meg. “Esses são meus filhos e a minha família”. Pior do que o frio rigoroso das noites de inverno é a maldade humana, diz ele, ao contar que teve um de seus filhotes roubados enquanto dormia. “Me roubaram o Pipoca. Era o mais bonito de todos. Roubaram enquanto eu estava dormindo. Acho isso uma falta de respeito muito grande com o morador de rua”.

Segundo ele, o que mais falta nestes dias gelados é uma lona e roupas quentes. Valdemar não cogita a possibilidade de abandonar seus cães para ir a um albergue. “Quando eu não tinha cachorro, eu ficava nos albergues. Agora não vou mais”. Além da sua família, ele conta que tem resgatado cães abandonados e encaminhando os mesmos para adoção. “Em 2016, eu resgatei mais de vinte cachorros que acabaram sendo doados. Para mim é um trabalho que me dá uma força muito grande e me ajuda também a me regenerar, depois que saí da cadeia”. Valdemar pretende sair da rua e tem planos para construir uma casa em Alvorada.

A Operação Inverno da Fasc

O Sul21 entrou em contato com a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) para conhecer a posição do órgão sobre o funcionamento dos serviços de abordagem social noturna e de transporte da população em situação de rua para os albergues municipais. Até o final da tarde desta terça, a Fasc não havia respondido tais questionamentos.

Uma nota publicada no site da fundação, diz que a Operação Inverno ampliou as vagas de albergagem, “minimizando os efeitos nocivos do frio da população em situação de rua”. Segundo a Fasc, com as 355 vagas disponibilizadas durante o ano, há 445 para o período. O Albergue Municipal, que possui 120 vagas, teve um aumento de 30 vagas, e o Albergue Felipe Diehl, que conta com 145 vagas, ganhou mais 60. Os albergues municipais tem um serviço de acolhimento noturno que se estende das 19h às 7h. Confira os endereços dos albergues:

Endereços:

Albergue Municipal – Rua Comendador Azevedo, 270 – Bairro Floresta

Albergue Felipe Diehl – Praça Navegantes, 41 Tel: 3342 2882 – Bairro Navegantes

Albergue Dias da Cruz –  Av. Azenha, 366   Tel: 3223-1938 – Bairro Azenha

Abordagem social – 3289 4994

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Uma ideia sobre “Ausência de abordagem social noturna dificulta ida de população de rua para albergues

  1. Pedro Xavier de Araujo

    Olá, sobre a dificuldade com os cães, há mais de 1 ano o Albergue Municipal conta com canis e os usuários podem levar os seus cães. Eles recebem (ou recebiam) atendimento veterinário. O serviço foi criado porque a queixa era frequente entre os (potenciais) usuários.

    Resposta

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