Bullshit fields forever: as pérolas do primeiro semestre de 2017

“É o Brasil temerário, inigualável no incentivo à promoção da bobagem nacional. É o governo do sorvete na testa”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Ayrton Centeno

O negócio empolga de tal maneira que não dá mais para fazer aquele apanhado de “frases do ano”. Tem que ser por semana ou mês ou, nosso caso, que não somos de ferro, por semestre, o primeiro do ano da desgraça de 2017. A todo momento, brota uma pepita, reluz uma pérola, cintila um diamante de 18 quilates. É o Brasil temerário, inigualável no incentivo à promoção da bobagem nacional. É o governo do sorvete na testa. Se besteira tivesse mercado, poderíamos abandonar os campos de soja, parar de queimar floresta para criar gado, deixar de poluir as cidades com a fumaça de velhas fábricas. Iríamos todos sentar na soleira, na varanda, na sacada e, no embalo suave da cadeira de balanço, tomando mate, pinga, café, pitando ou chupando cana, admirar a florada de nossos imensos campos de bobagem. Bullshit fields forever, entoariam Lennon&McCartney.

E, assim ficaríamos, antevendo o momento da colheita em que encheríamos os bolsos com os dólares da nossa mais fértil commodity, fazendo os números da pauta de exportações vibrarem e darem pulinhos de alegria. Contudo, enquanto não descobrimos uma maneira de viabilizar tamanha jogada e faturar uma grana preta, vamos em frente para exibir garbosamente a pujança da produção nacional:

   “Acredito que isso decorre muito mais do coração generoso de Moro, que a absolveu por ser esposa de um criminoso, ligado a corrupção”.

(Procurador do MPF, Carlos Fernando dos Santos Lima, comentando a absolvição, pelo bondoso juiz Sergio Moro, de Cláudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha, operadora de conta em paraíso fiscal e acusada de lavagem de dinheiro)

“Os nordestinos sabem muito bem se unir para roubar”.

(Vereadora Eleonora Broilo, do PMDB, de Farroupilha/RS, em sessão da câmara local)

“Seria lindo ver aquela gente nojenta e escurinha da Bahia explodindo”

(Internauta Nelma Baldassi, de Curitiba, lastimando no Facebook que o atentado de Manchester, que matou 22 pessoas, não tenha vitimado baianos)

“Ele é pessoa de muito boa índole”

(Michel Temer sobre seu ex-assessor Rodrigo da Rocha Loures, flagrado com mala contendo 500 mil reais de propina)

“Quando [Joesley Batista] tentou muitas vezes falar comigo, achei que fosse por questão da [Operação] Carne Fraca”

(MT, novamente, agora na Folha de S. Paulo, dizendo que o empresário-delator da JBS queria falar com ele sobre a operação da PF contra os frigoríficos. Mas a operação, sigilosa, só aconteceria dez dias depois…)

“Mas esse tipo de agressão — à lei, à privacidade, à liberdade de imprensa — não é digno de um Estado democrático de direito. É coisa própria de Estados policiais”

(Editorial de Veja atacando os métodos da Lava-Jato depois de ter publicado as conversas do grampo ilegal e vibrado com a violação da privacidade de Lula, Marisa e Dilma)

“Não tem jeito. Qualquer outro caminho é enganoso ou doloroso”.

(Colunista Dora Kramer, da revista Veja, erguendo o cartaz das Indiretas Já)

“A eleição direta não existe, ponto”.

(Alberto Goldman, vice-presidente nacional do PSDB em entrevista para a BBC Brasil)

“O que posso te garantir com toda a sinceridade é que não apaguei foto alguma recentemente em função dos acontecimentos da semana passada”

(Apresentador Luciano Huck negando estar apagando suas fotos com o amigo Aécio nas redes sociais depois da delação da JBS)

“O ministro é um bosta de um caralho”

(Aécio Neves em conversa gravada com Joesley Batista, escrachando o então ministro da Justiça, Osmar Serraglio)

“Eu não faço nada de errado, eu só trafico droga”

(Senador Zezé Perrela, PMDB/MG, usando, presume-se, de ironia, em conversa com seu amigo Aécio grampeada pela Polícia Federal)

“A Esplanada dos Ministérios foi atacada pelos que desprezam a democracia”

(Temer, na Folha, em 28/05/17. Não, ele não se refere ao assalto ao poder de 2016…)

“Estão preocupados que o Michel pode ficar… com a bunda na janela”

(Deputado Beto Mansur (PRB/SP), em grampo da PF, citando o medo de assessores de Temer que seu chefe ficasse muito exposto com aprovação de portaria dando vantagens aos empresários dos portos já muito favorecidos pelo Planalto. A norma acabou aprovada e aplaudida pela mídia)

“O Brasil está se tornando uma grande Organização Tabajara”

(Ministro Gilmar Mendes, do TSE e do STF, ridicularizando o Palácio do Planalto)

“As Organizações Tabajara protestam contra comparações chulas e fantasiosas. Nossos advogados serão acionados”

(Humorista Hélio de la Peña, ex-Casseta & Planeta, no twitter, pegando carona no deboche de Mendes)

“Me desculpem as Organizações Tabajara. Não queria ofender”

(Gilmar Mendes em resposta no twitter e fazendo troça novamente)

“O Brasil está uma zona e de putaria eu entendo”

(Empresário Oscar Maroni, dono de bordel, explicando por que quer ser candidato a presidente da república)

 

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