Matança de jovens na periferia: ‘A cada dois dias, explode uma boate Kiss no Brasil’

Frente de Enfrentamento à Mortalidade Juvenil foi lançada nesta quinta, em ato realizado na Escola da Ajuris. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O Brasil é hoje um dos países que mais mata jovens no mundo. A maior parte deles são do sexo masculino, negros e pobres, moradores nas periferias das grandes cidades. Segundo o relatório Mapa da Violência 2016, foram mortos mais de 25 mil jovens entre 15 e 29 anos por armas de fogo no Brasil, em 2014, o que representa um aumento de quase 700% em relação a 1980, quando o número de mortes nessa faixa etária foi pouco mais de 3 mil. “O incêndio da boate Kiss chocou todo o Brasil. Não gosto de fazer esse tipo de comparação, pois cada morte envolve a sua própria tragédia e gravidade, mas quando olhamos os números sobre a matança de jovens no Brasil é como se, a cada dois dias, explodisse uma boate Kiss repleta de jovens no país”, afirmou o professor Giovane Scherer, coordenador do Grupo de Estudos em Juventudes e Políticas Públicas (Gejup), da PUC-RS, no ato de lançamento da Frente de Enfrentamento à Mortalidade Juvenil em Porto Alegre, na tarde desta quinta-feira (25), na Escola da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris).

Segundo Mauricio Perondi, pesquisador do Observatório Juventudes, da PUC-RS, a ideia de criação da Frente de Enfrentamento à Mortalidade Juvenil em Porto Alegre nasceu na metade do ano passado, por iniciativa de várias entidades que trabalham com crianças e adolescentes, tanto na formulação de políticas públicas e na academia, como na ponta, no trabalho de assistência social, que tem presenciado o crescimento da mortalidade juvenil. “Hoje, o segmento populacional onde mais morre gente no Brasil, é o da juventude. A mortalidade juvenil superou a infantil que, até o final dos anos 80, apresentava os maiores índices. Graças a várias políticas implantadas nas últimas décadas, conseguimos reduzir a mortalidade infantil. Porém, a mortalidade juvenil explodiu em números estratosféricos”.

A realidade de Porto Alegre não é diferente. Segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, da Secretaria Municipal da Saúde, de um total de 800 homicídios registrados em 2016, 463 atingiram jovens entre 15 e 29 anos, o que representa 58% do total. Do total de 463 mortes, 430 eram do sexo masculino (93%) e 33 do sexo feminino (7%). Segundo a mesma fonte, 226 desses homicídios ocorreram em vias públicas. As regiões da cidade que concentraram o maior número dessas mortes foram Zona Leste, Restinga e a área que engloba a Glória, a Cruzeiro e o Cristal.

Mortes comemoradas na mídia

“Essas são justamente as regiões da cidade com maior vulnerabilidade social e com maior precarização de políticas públicas”, destacou Giovane Scherer que responsabilizou o desmonte de políticas em nível municipal, estadual e federal como um dos principais fatores responsáveis por essas mortes. “Quem está matando esses jovens é a gestão municipal, estadual e federal com o desmonte de políticas, a precarização dos Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), dos Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e das políticas de saúde e de educação”, criticou. O pior, acrescentou o professor da PUC-RS, é que muitas dessas mortes são comemoradas na mídia, em programas sensacionalistas que só apresentam em jovens como protagonistas de violência e não como vítimas delas.

Um dos objetivos da Frente lançada oficialmente nesta quinta-feira, será construir estratégias de enfrentamento a essa situação. “Queremos dar visibilidade aos números de Porto Alegre, pois, muitas vezes, não temos acesso a esses dados. A frente foi organizada em quatro grupos de trabalho (Protagonismo Juvenil, Pesquisa Produção de Conhecimento, Políticas Públicas e Comunicação). Queremos saber quem são os jovens de Porto Alegre que morrem, que território habitam e quais são as causas dessas mortes. Também queremos saber se eles tiveram acesso a alguma política pública. Hoje, temos apenas dados dispersos sobre isso. Queremos organizar esses dados e dar visibilidade social a eles. Grande parte da sociedade não sabe o que está acontecendo cotidianamente em nossa cidade”, explicou Mauricio Perondi.

“Esse mundo é fechado a sete chaves pra nós”

Representante da Ajuris na Frente, o juiz Charles Maciel Bittencourt, do 3° Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre, relatou que em seu contato com adolescentes cumprindo medidas socioeducativas por terem infringido a lei, constatou que eles enfrentam sérias dificuldades para regressarem a uma vida normal e serem ressocializados. Segundo o magistrado, essa realidade era diferente há alguns anos. “Não havia um grande número de jovens e adolescentes que tinham dificuldade de cumprir as suas medidas quando tinham a progressão do meio fechado para o meio aberto. Tive contato com diversos adolescentes nesta situação e comecei a compartilhar essas dificuldades que eles estavam enfrentando para transitar em seus territórios”.

O auditório da Escola da Ajuris ficou lotado para o lançamento da Frente. Quase metade do público era composto por jovens de diferentes regiões de Porto Alegre que já estão participando de alguma iniciativa para enfrentar o problema da mortalidade juvenil. Lucas Reus Vidal, de 17 anos, morador do Parque dos Maias, disse que ele era uma prova viva de que todo mundo pode mudar. “Esse evento serve para mostrar que todo jovem pode mudar, como aconteceu comigo. Esse mundo é fechado a sete chaves para nós. Muita gente se revolta com isso e escolhe ir pelo caminho mais fácil para ter mais respeito. Já perdi muitos amigos na violência. Foi aí que me dei conta de que era hora de parar. Tive uma situação difícil na minha vida e consegui mudar, graças às gurias do Creas e a uma guria que entrou na minha vida e mudou meus pensamentos”, contou.

Quatro horas de ônibus para ensinar dança

Lucas Name, 29 anos, morador da Restinga, integrante do grupo de Hip-Hop Restinga Crew  e professor de dança na Escola Municipal João Antônio Satte, no Parque dos Maias, passa cerca de quatro horas de seu dia dentro de ônibus para se deslocar de sua casa, no extremo sul de Porto Alegre, até o trabalho na escola, localizada na zona norte da cidade. Um dos resultados de seu trabalho foi a criação do grupo T King Satte Crew, forma por alunos da escola, que se apresentou no ato de lançamento da frente, arrancando muitos aplausos do público.

“Minha mãe morreu quando eu tinha 12 anos, conheci meu pai só aos 15 e fui morar sozinho aos 16 anos. Hoje tenho 29, dou aula de dança, faço tatuagens e camisetas. O que procurou mostrar a eles que é possível fazer de outra maneira. A realidade que essa juventude vive é muito dura. Hoje, qualquer criança de periferia pode morrer com uma bala perdida. As crianças estão saindo da escola ao meio-dia e estão sendo assaltadas, perdendo celular, mochilas e tênis”, relatou.

João Victor Gonçalves dos Santos, de 12 anos, estudante na Escola Municipal João Satte, relatou um destes casos. “Eu e meus colegas tínhamos saído da escola e a gente estava indo pra casa de um deles. Aí parou um carro e deu um monte de tiros que atingiu meus amigos. Um deles ainda está no hospital. Graças a Deus não aconteceu nada comigo ainda”.

A Frente de Enfrentamento à Mortalidade Juvenil em Porto Alegre pretende dar maior visibilidade a essa realidade e está aberta a participação de quem quiser se somar a essa luta, não sendo necessário pertencer a alguma organização ou entidade. A próxima reunião do movimento ocorrerá no dia 22 de junho, às 14h, no auditório do prédio 15 da PUC.

(*) Publicado originalmente no Sul21

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