‘Acho que precisamos de umas coisas mais drásticas’: a greve geral no centro de Porto Alegre

Paradas de ônibus amanheceram vazias no Centro de Porto Alegre em decorrência da Greve Geral. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

O centro de Porto Alegre amanheceu com um cenário diferente nesta sexta-feira. A adesão dos trabalhadores de serviços de transportes à greve geral nacional contra a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista fez com que suas ruas principais ficassem praticamente desertas. Por volta das 8h30min, a Esquina Democrática e a rua da Praia indicavam que a greve tinha sido bem sucedida. No Largo Glenio Peres, a principal população era a das pombas que vivem naquela área. Alguns policiais militares, funcionários de bancas do Mercado Público que decidiram abrir e algumas dezenas de pessoas eram testemunhas de que a cidade viveria um dia diferente. Ao longo da Voluntários da Pátria, havia muitas lojas fechadas e outras com as grades semiabertas, esperando o desenrolar dos acontecimentos. Mas o início da manhã transcorreu sem incidentes no centro da Capital.

Proprietário da banca de jornais e revistas localizada no Largo Glênio Peres, José Fernando Araújo dos Santos trabalha no centro de Porto Alegre há cerca de 25 anos. Ele definiu o início da manhã no centro como “tranquilo, mas bem parado mesmo”. “Está normal, só falta o movimento das pessoas, pois não tem trem nem ônibus”. Em relação ao sentido da greve geral, ele defendeu a necessidade de outras formas de mobilização:

José Fernando Araújo dos Santos: “Tem que tirar a paz desses deputados e senadores que estão lá em Brasília”. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

“Acho que precisamos de umas coisas mais drásticas. Tem que tirar a paz desses deputados e senadores que estão lá em Brasília. Eles não podem mais ter tranquilidade já que a gente não tem tranquilidade, não tem segurança, nem assistência médica. E ainda querem tirar a aposentadoria e fazer um monte de coisas contra quem trabalha. É preciso tirar o sossego deles para que eles vejam como é que a gente vive também. Não dar mais espaço para eles e os familiares deles irem para a rua, para um restaurante. Sem violência. Só boicotar e vaiar, para eles se sentirem constrangidos.”

Adir Rocha, feirante há 33 anos no centro da cidade, ao lado do Mercado Público, previu que o movimento da sexta-feira seria menor que o de um feriado. “No feriado a gente ainda vende alguma coisa. Hoje, as pessoas nem têm como vir para o centro”. Questionado sobre os motivos da greve, ele disse achar que “não vai dar em nada”. “Tinha que ver outro meio para mudar a situação do Brasil. Nesta greve, as pessoas só deixam de trabalhar um dia”. Adir Rocha disse que está acompanhando o debate sobre as reformas da Previdência e Trabalhista. “Na verdade, tinha que fazer a mudança lá em cima com os grandão. Eles é que tinham que mudar e trabalhar honestamente para que o país pudesse ir pra frente. Se cada deputado e senador trabalhasse direito e não pensasse só no umbigo deles, o Brasil iria avançar. Do jeito que está, o país vai quebrar”.

O feirante questionou os argumentos utilizados pelo governo federal para defender a Reforma da Previdência. “Todo dia tem gente se aposentando, gente morrendo e gente nascendo também. O governo está dizendo que vai faltar dinheiro. Mas como é que, até agora estava dando. Alguma coisa está errada. Olha quantos bilhões estão sendo desviados. Esse dinheiro era para estar todo nos cofres públicos. A pessoa que trabalha 30 anos não pode se aposentar, enquanto eles lá trabalham oito anos e já se aposentam. Além disso, tem gente lá que tem três, quatro aposentadorias. Esse é um erro gravíssimo. Por que eles têm esse privilégio? É um serviço igual ao meu”, protestou.

Ao lado da rodoviária, um grupo de manifestantes fez bloqueios parciais na rua da Conceição, acompanhados de perto por um pelotão do Batalhão de Choque da Brigada Militar. Uma servidora pública estadual que preferiu não se identificar reclamou que não estava conseguindo ir para Montenegro, onde trabalha, porque o ônibus ainda não tinha chegado. Giovani Luigi, diretor de operações da Rodoviária de Porto Alegre, acompanhou a movimentação conversando com integrantes do Choque da Brigada.

A principal mobilização de manifestantes no centro, pela manhã, ocorreu em frente à Prefeitura, onde os municipários se concentraram. Maria Tereza Zatti, funcionária da Secretaria Municipal da Cultura, destacou que o sentido principal da greve geral é lutar contra a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista que vão tirar direitos dos trabalhadores. Ela classificou como muito boa a adesão da população à greve geral: “Não tem ônibus, não tem trem e muitas categorias organizadas estão paradas”. A servidora criticou a ação da Guarda Municipal contra os municipários, que ocorreu na metade da manhã, ao lado do prédio da Prefeitura. “Houve uma grande repressão do governo Marchezan, que não admite o direito de greve e de mobilização. A Guarda Municipal bateu e jogou spray de pimenta contra os servidores”, relatou.

Após a ação da Guarda Municipal, os servidores seguiram em frente à Prefeitura aguardando a chegada de mais colegas e de trabalhadores de outras categorias que começavam a se dirigir para o centro. Até o final da manhã, os transportes seguiam paralisados e as ruas com um movimento bastante reduzido.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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