O sacramento da confissão hoje em dia

“A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame se sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior”.

Flavio Aguiar

Quando eu estudava no Colégio Anchieta de Porto Alegre, escola jesuíta de calado profundo (e naquele tempo os jesuítas gaúchos eram profundamente reacionários, na maioria), eu era católico ferrenho, ainda que não carola. Praticava religiosamente os sacramentos cabíveis. As exceções eram o batismo, só de entrada neste vale de lágrimas, a extrema-unção – vôte cobra tutufum treis veiz – o casamento – tutufum seis veiz – a crisma, que a gente faz uma vez só também – e a ordenação sacerdotal, com aqueles votos de caridade, obediência (argh!) e castidade (AAARRGH!). Ou seja, eu praticava a confissão e a posterior comunhão.

A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame de sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior. De manhã, tomar só água, pra evitar desmaios vergonhosos, no nosso caso de machinhos que consideravam essas coisas dignas de mulher, apenas. Nem pasta de dente a gente podia engolir: vai que o hálito perfumado, que só Colgate ou Kolynos lhe davam, espantasse o Senhor! Depois, lá na missa, ajoelhados na frente do altar, o sacerdote, com o coroinha colocando uma bandeja no nosso queixo (vá que a gente babasse o Senhor!), o padre colocava a hóstia – um pãozinho branquela e ázimo, sem fermento, o Senhor não podia inchar nem no forno,  e sem gosto – na boca, e a gente não podia tocar Aquilo com os dentes. O diabo é que às vezes o raio da hóstia grudava no céu da boca e dava uma coceira danada, mas a gente não podia nem sonhar em tirá-la com a unha, ai deus e o diabo não na terra do sol, mas na tua boca! Tinha que fazer contorcionismo de circo, digno de dança do ventre, com a língua mesmo, até que Aquilo descolasse e seguisse o rumo natural das entranhas agora abençoadas.

Fui algumas vezes tomado por dúvidas teológicas cruciais. Por exemplo, a gente expeliria os restos da hóstia junto com as outras coisas que a gente engole, pelas vias naturais? Oh, dúvida cruel! Só me acalmei ao considerar que o espírito que estava dentro da hóstia se transmitia para outras partes de nosso corpo, como o pulmão e o coração, ou o cérebro, e o que ia para o intestino era apenas o resto mortal e ázimo da hóstia. Embora não houvesse nela, o fermento se fazia presente em fomentar dentro de nós a presença da fé. Ai caramba, quantas noites tais questões me atormentaram!

Antes, havia a confissão. A gente se achegava ao confessionário, se ajoelhava, com a treliça de madeirinha escondendo nosso rostos (o meu e o do confessor) e dizia:

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.
– Deus te abençoe, meu filho, que buscas o perdão de teus pecados.

Daí a gente enfileirava os pecados. Fiz isto, fiz aquilo, deixei de fazer aqulioutro, etc. Momento mais complicado era sempre o dos pecados contra a castidade. Vinham as perguntas:

– Meu filho, foi em obra ou pensamento?

Ambas as respostas eram bronca. Mas o mais difícil era quando a gente respondia “obra”.

– Foi sozinho ou com alguém mais?

Barbaridade, aí doía. O “sozinho” era chato, mas revelava apenas o que hoje chamo de seguidor de Onan, este seguidor apequenado de Ouranos, o deus grego que fecundava Gaia sem parar, e que jaz em todos nós. Agora, o “alguém mais” implicava a confissão da natureza do ato. E era inevitável que a gente, além de falar das vergonhosas vergonhas, fosse pela frente, por trás ou por todos os lados, se sentisse uma espécie de dedo-duro perante Deus, pois mesmo que nomes não fossem pronunciados, Ele, como está em toda a parte, adivinharia de quem se tratava. Só me acalmei diante desta excruciante questão quando considerei, Supra Sumo Teológico, que, se Deus estava em toda parte, Ele tinha visto o próprio pecado no ato, e assim já sabia do que e de quem se tratava.

Depois da completar a lista de pecados, vinham os conselhos do confessor, a promessa (que ambos sabíamos ser mentirosa, mais um pecado para a próxima confissão) de que nos esforçaríamos para não fazer mais aquilo, nem aquiloutro, nem aquiloloutro, etc. E a confissão terminava com a penitência – xis ave-marias, ipsilones padres-nossos, pois naquele tempo não havia o pós-moderno pai-nosso, e zês salve-rainhas).

– Ego te absolvo in nomine Domini. (Ou algo assim, meu latim nunca foi muito bom). Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado!

E a gente saía com a alma mais alva e zerada que lençol lavado com Rinso e pronta para acolher mais pecados.

Fico pensando na confissão hoje em dia, tão avacalhada! o confessor e o pecador se assentam frente a frente, olho no olho, como se fosse consultório de psicanalista laico. Mas e se a gente pegasse algum daqueles padres reacionários como os de então?

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.

– Confessa, meu filho, e pede perdão pelos teus pecados.

– Aí a gente desfilaria os pecados.

– Depois viria a pergunta.

– Meu filho, foi sozinho ou com o Lula?

– Sozinho. Ou com outras pessoas.

– Então, seu pecador miserável, tua confissão não vale nada, vais arder pela eternidade nas profundas de Curitiba!

– Não, não, padre, perdoai-me, foi com o Lula. E no triplex dele no Guarujá. Ou no sítio em Atibaia.

– Ah bom. Então reza aí meia Ave-Maria, assina o Globo, assiste o Jornal Nacional, e fim de papo. Estás perdoado.

– Obrigado, padre.

– Ah sim, e assina o manifesto em favor da Lava Jato e da Opus Dei.

– Mas padre, aquele procurador famoso, o do power-point, ele não é da Opus Dei. Ele é evangélico.

– Meu filho, o condomínio do Senhor tem várias filiais, como uma franchise, entendeu? Louvado seja o Nosso Sacrossanto Juiz, que há de julgar os mortos e o Lula, porque os vivos e os vivarachos serão perdoados.

– Para sempre seja louvado!

E a gente sai com a alma pronta. Para o quê? Bom, isto é outro assunto.

Mas felizmente agora está aí o Papa Francisco I para assegurar que isto não passa de ficção científica. Pelo menos em relação à Igreja Católica.

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2 ideias sobre “O sacramento da confissão hoje em dia

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