Podridão, a carne como metáfora

A mídia e Michel Temer estão inapelavelmente juntos perante a história dos últimos e terríveis anos. (Beto Barata/PR)

Ayrton Centeno (*)

A carne brasileira está podre. Diz a Polícia Federal e promete provas. Mais gente, à esquerda e à direita, diz que não, que a PF dinamitou um segmento crucial da economia, seja para atender ao cabo de guerra pelo mando na instituição, seja por uma mistura de burrice, prepotência e sedução pelos holofotes. Verdade ou mentira? Não importa. O que importa é que o estrago está feito e as penas do travesseiro estão voando mundo afora. Mas o que me interessa mesmo, aqui e agora, é o poder da metáfora: o Brasil caindo de podre. Não pela carne, que se desconfia mas não tem certeza, mas pela força da alegoria que infecta, enoja e se espalha pelas instituições que, em tese, deveriam proteger a boa saúde do organismo democrático.

O Brasil começou a apodrecer ainda em 2014 quando o candidato vencido nas eleições não aceitou a rejeição das urnas. E, com aliados no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal, na plutocracia e, obviamente, contando com as divisões Panzer do baronato midiático, iniciou sua marcha da insensatez. Contra aquela que o derrotou e contra o país. Não era possível aguardar até 2018. Urgia destruir o governo reeleito nem que, para tanto, fosse necessário antes destroçar o Brasil. E assim foi feito: no segundo mandato, Dilma esteve todo o tempo nas cordas, fustigada por fatos ou factoides. Hostilizada por manchetes e denúncias, estas oriundas de vazamentos produzidos para gerar aquelas. Ambas turbinadas para fabricar consensos e ódios.

O abcesso veio a furo naquele baile de monstros do dia 17 de abril de 2016. Quando a nação perplexa viu-se face a face com o horror: uma pantomima mambembe de causar assombro até no universo do cancioneiro brega. O parlamento enquanto picadeiro. A tomada do circo pelos palhaços convertendo o país em chacota do planeta. Corruptos contra a corrupção. As vestais da hora, entre elas seu guru Eduardo Cunha. Corrupção, do latim corruptio, carrega o sentido de deterioração. Um exame microbiológico já detectaria no recinto o crescimento exponencial da taxa de coliformes fecais. Podridão.

Volátil, a patogenia alastrou-se ao vizinho Planalto. Consumada a patuscada trágica, encarapitou-se no poder, sem voto nem vergonha, a mais deplorável chusma que as entranhas políticas do Brasil excretaram nas últimas décadas. Era a “ponte para o futuro”, que um dos comparsas de golpe, Fernando Henrique Cardoso, encarregou-se de escrachar, rebaixando-a à condição de “pinguela”. Hoje, nem isso. Somente uma tropa disposta a executar, a mando do mercado, uma encomenda de pistolagem, emboscando e assassinando os direitos da maioria em troca da salvação do próprio couro.

Infectado, o STF rendeu-se. Enquanto a nação ardia e a besta se arrastava para nascer, limitou-se a tricotar os rendilhados do protocolo, os arabescos da liturgia, os fricotes do formalismo, as piruetas jurídicas, até o grand finale do balé das capas esvoaçantes. Conforme a freguesia, decisões poderiam ser tomadas em vapt-vupt ou serem proteladas por ano e meio. A quem reclamava da tarantela, limitava-se a agitar seu leque como uma frágil e lânguida Dama das Camélias. Antes, porém, o bodum já se esparramara pelos escalões inferiores. Através do chorume dos grampos e das delações premiadas, escoado regular e seletivamente do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, apascentando jornalões, rádios e TVs.

Enquanto poderes e corporações adoeciam, engalfinhando-se em contendas insalubres internas ou externas, a pestilência ulcerou o tecido social, minando sua resistência. Propagou-se um ressentimento sem travas, vizinho da psicopatia. Rancores encobertos vieram à tona, sobretudo entre certa classe média, sempre vivendo entre a inveja do patriciado e o pavor da plebe. O flerte com o fascismo arreganhou o preconceito contra mulheres, negros, índios, nordestinos, homossexuais, pobres, explodindo nas redes sociais e caixas de comentários. Almejar a morte do outro, bater palmas para o câncer, incitar o homicídio tornaram-se práticas banais. Os imbecis perderam a modéstia.

Nada disso ocorreria, porém, se não houvesse um vetor. Que reproduziu, no século 21, sua conduta recorrente demonstrada em 1954, 1964, 1989 e outras datas menos emblemáticas. E contagiou os espíritos. Alimentados dia e noite com a mesma gororoba tóxica, muitos caíram doentes. A baixa imunidade deixou-os à mercê de microorganismos que tumultuam o raciocínio, impedem o discernimento e exasperam a intolerância. Então, brotam os zumbis do pensamento único, incapazes de responder a qualquer questão de baixa complexidade a não ser com os lugares comuns da xenofobia, do racismo, da misoginia.

Quem semeia esse apodrecimento em vida — impondo o regresso do país aos parâmetros políticos e econômicos da República Velha – é o oligopólio da mídia. Embora reitere a ladainha do pluralismo e do compromisso com a sociedade, a ela entrega mercadoria danificada. Constrói santos ou pecadores exclusivamente regulado pelo termômetro dos negócios. Apesar do derretimento como picolé ao sol, o mais grotesco dos presidentes e sua popularidade de 10% ganham avaliação bastante caridosa na imprensa hegemônica. Mas há um problema.

Assim como as boas práticas de higiene ensinam a não misturar carne suspeita com outros cortes para evitar a contaminação de todas as peças, a mídia e Michel Temer estão inapelavelmente juntos perante a história dos últimos e terríveis anos. Partilham o mesmo repertório de bactérias, toxinas, vermes, protozoários e fungos. Faminta, a putrefação progride através da contiguidade. Não há escapatória. Ambos exalam o mesmo fedor inexcedível que engolfa, contamina e degrada o país.

(*) Jornalista

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