Algo & Ritmo e o sertanejo informático do STF

Entrevista com a dupla caipira Algo & Ritmo, que pratica o sertanejo informático, somando elementos nativos com a função de oráculo pós-moderno.

Entrevista com a dupla caipira Algo & Ritmo, que pratica o sertanejo informático, somando elementos nativos com a função de oráculo pós-moderno.

Ayrton Centeno

Nem o que o Trump tem dentro da cabeça nem o que tem em cima da cabeça causaram mais celeuma nos últimos dias do que o algoritmo do STF. Aliás, as pessoas nem sabem o que é algoritmo. Ou melhor, não sabiam. Graças ao nosso esforço foi possível, enfim, desvendar o mistério. A começar pelo fato que não é algoritmo mas Algo & Ritmo, dupla caipira que pratica o sertanejo informático, somando elementos nativos com a função de oráculo pós-moderno. Algo é algo misterioso, lacônico, enquanto Ritmo tem o suingue, o veneno e o algo mais. Os dois contaram de suas performances no Judiciário, Ministério Público e na mídia. “Eles todos nos adoram”, confidenciou Ritmo enquanto afinava sua viola e fazia uma espécie de gargarejo para apurar o falsete.

P- Vocês fazem sertanejo de raiz ou sertanejo universitário?

R– Fazemos de tudo.

P – Expliquem melhor.

R– Depende de quem contrata a gente. No TSE, a pedido do Gilmar, fazemos Sertanejo Jurídico.

P – Mas como é isso?

R– Na hora de decidir quem julgaria as contas de campanha de Dilma e do PT, o Gilmar caiu doente. Cuspia, arrotava e peidava o tempo inteiro. E se coçava todo. Teve uma crise de urticária. Queria porque queria botar a mão no troço pra ferrar os réus. Aí, chamou a gente pra dá um jeito…

P- Qual é o método que adotam?

R – Botamos os papeizinhos com os nomes dentro do meu chapéu e o Algo, de olhos fechados, pega um deles, mostra pra mim e eu digo: “…and the Oscar goes to…” Brincadeirinha… Mas é assim, completamente imune a erros.

P – Pensei que Algo & Ritmo fosse um troço mais sofisticado…

R – É impossível dar errado. Veja, nesse caso, todos os papeizinhos tinham escrito a mesma palavra: Gilmar.

P – Impressionante. E o tal Sertanejo Jurídico?

R – Como o Gilmar estava mais faceiro que mosca em tampa de xarope, puxamos as violas e abrimos o berro: “Vosmecê queria ferrá o petê/ Foi fácil pegá esse osso/ E nem precisô, veja vancê/ de capangas de Mato Grosso”….

P – E é sempre assim?

R – No STF enfiamos o Fachin na parada da Lava-Jato, embora ele estivesse na pior colocação: era o ministro com mais ações e seria o último em qualquer circunstância. Mas não contavam com a astúcia de Algo & Ritmo…

P – Onde mais atuaram?

R– Em Curitiba, por exemplo. Tava dando muito na vista o Moro não prender a mulher do Cunha. Daí, ele nos chamou. Queria usar nossa tecnologia de ponta. Fomos lá e, pá!, resolvido! Ficou tão contente que ligou pro Cunha pra lhe dizer que não chatearia mais a patroa, que ela podia continuar comprando contêineres de bolsas em Miami. E cantamos, então: “Dizem que só acha o que qué achá/ Que esqueceu do Mineirinho/ É a injusticia do povo a falá/ Só porque é seu maió amiguinho”…

P – Mas vocês são bons mesmo nesse negócio!

R – O Moro até abriu uma conta com a gente. Liga toda semana. Queria exclusividade mas o Janot ficou com ciuminho…

P – O Janot também é freguês?

R – Mas você nem imagina! Pra ele adotamos o Sertanejo Procurador. Sabe a encrenca antiga aquela do Aécio com Furnas que o Janot faz de conta que não existe? Tava nervoso, queria respaldo técnico, então nos convocou pra desatar o nó e preservar a ética. Tarefa cumprida, dançou junto no repique das violas: “Diga de sã consciência/ Seu meretíssimo dotô/ se existe maió ciência/ Do que nosso Sertanejo Procuradô…

P- E quem mais?

R – O Dallagnol nos mostrou aquele páuerpointe todo frajola. Gritava “Alelula! Alelula!”…

P – “Aleluia” você quer dizer…

R – Não era “Alelula” mesmo porque ele queria pegar o Lula…

P – Ah…

R – Avisamos que o páuerpointe pro futuro ia dar chabu. Ficou possesso. Mandou o japonês da tornozeleira nos jogar na solitária. Queria uma delação premiada. “De quem?, perguntamos”. E ele: “Sei lá, vejam aí”, respondeu. “Só se for da Mãe do Badanha”, disse o Algo. E o Dallagnol: “Se a Mãe do Badanha for do PT, serve”.

P – E como saíram de lá?

R – Foi um problema. Mas quando saímos cantamos pra ele: “Dalanhó foi pra Arvárdi/ pra aprendê a rezá/ ficô lá até mais tárdi/ Pra bem de se acostumá/ Semos fio de Eva e Adão/ Pra ele isso é um fato/ Agora, sua grande missão/ É botá o Darwin na Lava-Jato…”

P – De onde veio este talento de Algo & Ritmo?

R – De família. Nossos pais, Eduardo Algo e Vicente Ritmo, também formavam um duo eclético. Meu velho, danado por uma roleta, os amigos chamavam de Vicente Viciado. Depois virou só Viciado. E seu Eduardo, de apelido Dado, junto com meu pai mudou a história bem antes de Algo & Ritmo. Era a dupla Dado & Viciado. Tinha muita freguesia…

P – Quem era cliente de Dado & Viciado?

R – O Marinho, por exemplo…

P – O Roberto Marinho, da Globo?

R – Claro, quem mais seria?

P – Que serviço Dado & Viciado fizeram pra Globo?

R – Quando o Marinho ainda não sabia se apoiaria o golpe de 1964 chamou nossos velhos. “Me ajudem”, implorou. Dado & Viciado entenderam a emergência. Jogariam o dado e se caísse o número seis, o Marinho podia subir nos tanques com os milicos. Se desse um, ficaria na resistência. Deu seis e ele fechou com o golpe.

P – Baita lance high-tech…  

R – Aí já tinha um algoritmo, sabe como é? Na verdade, os velhos usaram um dado que tinha seis em todas as faces. Porque sabiam o que o cliente queria. E o cliente tem sempre razão.

P – E o que cantaram pro Marinho?

R – “Marinho, velho Marinho/ entre no golpe correndo/enfie fundo o seu focinho/ vá com a mídia, o rico e o reverendo/ Chame o golpe de revolução/ e o resistente de bandido/ nem percisa precaução/ é dinheiro ganho, nunca é perdido”.

P – E a Globo também contratou Algo & Ritmo?

R – Ih, o tempo todo. Naquela edição do ato das Diretas que virou aniversário de São Paulo, na edição do debate de 1989 no Jornal Nacional, agora, na hora do golpe de 2016…

P – Como foi desta vez?

R – Desta vez a dúvida deles não era apoiar ou não apoiar. Era se apoiariam gritando ou na surdina. Claro, deu gritando.

P – Foi fácil, então…

R – Fácil foi. Difícil foi chegar até os Marinho. O Merval e o Ali Kamel tavam naquela faceirice de guri que ganhou sapato novo. Cada qual queria puxar mais o saco dos Marinho. Eufóricos porque havia três Marinhos e, portanto, três sacos. Mesmo assim, ficaram se toureando pra pegar o saco vago. “Esse também é meu”, dizia um, agarrando. E o outro: “Ah, deixa eu pegar só um pouquinho”.

P – Como é bonita a devoção ao jornalismo…Mas qual foi o som de Algo & Ritmo na ocasião?

– “Vocês acha que o povo é lixo/ nem discuto, respeito a ideia/ Então se juntem ao governicho/ que também odeia a patuleia/ Defendam de dia o Quadrilha/ De noite o Gato Angorá/ O MT e o resto da camarilha/ e se preparem pra faturá”.

P – Quanta poesia…

R – Poesia de resultados…

P – O que você respond…

R – Péra aí! Tão me ligando… (Falando ao celular) “Sim, eu sei… Pode deixar…Já vamos praí. Beijo no Toffoli. Tchau”… Era o Gilmar. Quer Algo & Ritmo no STF com urgência urgentíssima. É aquela ação que botou ele em sinuca de bico: como impediu a posse do Lula na Casa Civil, querem que também julgue a posse do Gato Angorá no ministério do Capiroto. Vamos ter que tirar ele dessa gelada. Vai ter que acabar a entrevista por aqui…

P – Então, dê uma palhinha da moda de viola que vão cantar pro Gilmar…

R – Tudo bem, Algo? Sim? Então vamos lá: “Se corrê o bicho pega/ Se ficá o bicho come/ Não sabe se acata ou nega/ Fazer o quê com o homi?/ Vancê vai sentá em cima/ E deixá a ação pro além/ A mídia vai chamá de obra-prima/ Do Angorá e de vosmecê também”.

P – Ei, tá dando no rádio agora que o relator dessa bronca vai ser o Celso de Mello…

R – Viu só? Algo & Ritmo também faz monitoramento à distância…Então vamos cantar uma pro Celsão: “Vosmecê se rebelô/ Aconteceu ano passado/ Foi quando Lula falô/ Que vosmecês tava acovardado/ pois deu-se agora a ocasião/ de respondê ao falado/ mostre que tem colhão/ e deixe Angorá desmamado”.

(*) Jornalista

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