Um relato sobre um governo que não escolheu desmontar o Estado para enfrentar a crise

O lançamento do livro ocorrerá ainda no mês de janeiro, em data e local a serem confirmados.

O lançamento do livro ocorrerá ainda no mês de janeiro, em data e local a serem confirmados.

Acaba de sair do forno um projeto que estava em gestação há um ano e meio: Governar na Crise. Um olhar sobre o governo Tarso Genro – 2011/2014 (Editora Libretos). O livro pretende apresentar um relato sobre a experiência de um governo no Rio Grande do Sul em um cenário de crescente subordinação da política ao mundo financeiro. É a primeira parte de um trabalho que pretende contar um pouco da vida política recente no Estado de uma perspectiva diferente daquela que impregna a maioria dos meios de comunicação e que vende, diariamente, metáforas atraentes, mas falaciosas, acerca de muitos problemas que afetam a vida da população.

Com todos os seus limites e insuficiências, o governo Tarso Genro se propôs a enfrentar a crise financeira do Estado com uma receita que navega na contramão do receituário da austeridade fiscal: apostar no crescimento da economia e no fortalecimento das funções públicas do Estado como caminho para enfrentar a crise financeira e as desigualdades sociais. O objetivo da obra não é fazer uma apologia dos feitos de um governo, mas apresentar uma escolha diferente daquela que, por exemplo, governa o Rio Grande do Sul hoje e reduz o Estado a um nível de extrema precariedade como receita para enfrentar a crise.

Uma das principais questões levantadas é: o ato de governar pode ser resumido a uma dimensão meramente contábil, que coloca a busca do déficit zero como objetivo principal, ou essa escolha é contraditória com o próprio conceito de governar? Trata-se de um relato comprometido com uma concepção de Estado e de qual deve ser a prioridade de um governo. O argumento central do livro rejeita, como absolutamente falaciosa, a tese que pretende igualar a prática de governar um município, um Estado ou um País àquela de administrar uma empresa privada ou uma família. Um governo pode, sob o pretexto de enfrentar a crise financeira do Estado, destruir um dos pilares que define a própria função do Estado, a saber, a prestação de serviços públicos de qualidade à população?

O governo José Ivo Sartori faz essa escolha, diz que “não existe outra alternativa” e coloca a culpa pela situação financeira do Estado nas escolhas feitas pelo governo Tarso Genro. Essa crise, porém, tem raízes bem mais profundas, remontando, entre outras coisas, a outro governo do PMDB que, como agora, apostou nas privatizações como a solução definitiva para a crise financeira. O atual governador, que, na época, era líder no PMDB na Assembleia Legislativa, exime-se de qualquer responsabilidade por essas escolhas. O governo Antonio Britto (1995-1998) firmou um acordo de renegociação da dívida que, segundo saudaram os editoriais da RBS na época, teria “liquidado” o problema da dívida. Não só não liquidou como agravou a situação financeira do Estado. Hoje, o mesmo campo político que aplicou aquela receita, repete a dose, apostando na memória seletiva em relação à história política recente do Estado.

Esse livro é também um esforço de memória de um período e de uma experiência de governo que procurou navegar, em vários sentidos, na contramão da visão ainda hegemônica do Estado mínimo, que voltou a governar o Rio Grande do Sul. A comparação de indicadores entre o governo Tarso Genro e os dois governos anteriores (Yeda Crusius e Germano Rigotto) é amplamente favorável ao primeiro, no entanto, isso não foi suficiente para evitar a derrota eleitoral. O capítulo final procura apresentar algumas reflexões e hipóteses acerca das razões da derrota: por que esse conjunto de escolhas e seus resultados acabaram sendo derrotadas?

Trata-se de um olhar que não pretende apresentar um balanço definitivo sobre a experiência de um governo. O livro persegue dois objetivos principais. Em primeiro lugar, mostrar que o discurso fiscalista do Estado mínimo e suas variadas manifestações midiáticas está carregado de ideologia e não é, de modo algum, o “único caminho” para enfrentar a crise. Em segundo, propõe uma reflexão sobre os limites de governar neste cenário e sobre as possibilidades políticas e econômicas de buscar outros caminhos.

O lançamento do livro ocorrerá ainda no mês de janeiro, em data e local a serem confirmados, acompanhado de um debate sobre as possíveis escolhas que podem ser feitas para enfrentar a crise. “Escolhas” no plural, contra aqueles que dizem que “não há outra coisa a ser feita”, “não há outro caminho”.

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2 ideias sobre “Um relato sobre um governo que não escolheu desmontar o Estado para enfrentar a crise

  1. Nelson

    A inanição de grande parte, possivelmente da maioria, no que tange a como funcionam as coisas na política, é algo abismal. Mesmo que esteja eivado de falhas e apodrecido quase de um todo, nosso sistema político ainda permite, a cada dois anos, que o povo faça uma depuração nos parlamentos e que o vá melhorando, aos poucos pelo menos.

    Porém, não raro, o que vemos é a piora da qualidade dos parlamentos, mesmo que se apresentem candidatos capacitados e dispostos a trabalharem pelo conjunto da população.

    Passado o tempo, com a decepção com os eleitos vem a costumeira exclamação: “são todos iguais. ninguém vai melhorar a nossa vida”. As pessoas não se dão ou não querem se dar conta de que precisam tratar a questão política com seriedade, precisam deixar do “oba-oba” com que sempre levam a coisa.

    Na recente eleição para prefeito de Porto Alegre aconteceu um fato absurdo sob qualquer ângulo que possamos enxergá-lo. Deputado Federal do PSDB, partido useiro e vezeiro em votar contra os interesses da grande maioria do povo, em prol do grande capital, o Sr Marquezan Júnior esteve em Brasília para aprovar a PEC 241. Tal PEC vem atacar os direitos de uns 150 milhões de brasileiros.

    Pois, poucos dias depois – não lembro se não foi até na mesma semana – na disputa do 2º turno, a maioria do povo portoalegrense, que, como a gauchada, se diz politizado, entregou a prefeitura da capital de presente a Marquezan.

    Não tiveram a capacidade de analisar e refletir sobre as implicações de emprestar o voto ao candidato/partido A ou ao candidato/partido B. Se Marquezan fez o que fez lá na Câmara dos Deputados, o que não fará na prefeitura de POA contra a maioria do povo portoalegrense, em benefício daquele segmento para o qual o PSDB sempre trabalhou, o grande capital?

    Daqui a pouco, quando a decepção com Marquezan aflorar, vão repetir: “ninguém presta, são todos iguais”. Novamente, não lembrarão de que deixaram de pensar a eleição com a seriedade exigida.

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  2. oleti

    Governos anteriores desmontaram as finanças públicas em todas as esferas. Comeram o que aparecesse pela frente. Agora vamos querer que os Gestores mais novos façam milagres!! De hoje em diante vou me dedicar a ler mais sobre a “Tenda dos Milagres”!! Não vamos ser hipócritas. Sem dinheiro ninguém faz nada. E não foi o Marchezan quem gastou! Ele está chegando agora. Vai fazer o que estiver ao seu alcance. Vai cortar na carne de muita gente. Pelo menos não estará fingindo( mentindo) que o Município está uma maravilha!! Não estou defendendo o Marchezan. Defenderia qualquer outro gestor que recebesse o Município nas atuais condições.

    Resposta

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