UFRGS define calendário para concluir 2016. Ocupa IFCH quer manter debate sobre o golpe

Ocupações terminaram em dezembro. Com retomada das aulas, estudantes falam em manter o debate sobre o golpe e sua agenda contra a educação pública. (Foto: Maia Rubim/Sul2

Ocupações terminaram em dezembro. Com retomada das aulas, estudantes falam em manter o debate sobre o golpe e sua agenda contra a educação pública. (Foto: Maia Rubim/Sul2

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) retomou suas atividades no dia 2 de janeiro após a interrupção provocada pelo movimento das ocupações estudantis. O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) aprovou na última quarta-feira (4) o novo calendário acadêmico para a conclusão do segundo semestre de 2016 e para o ano de 2017. As atividades referentes ao segundo semestre de 2016 serão finalizadas no dia 3 de março. O período entre os dias 7 e 11 de janeiro será considerado não-letivo, em função da realização do Concurso Vestibular 2017.

O primeiro semestre de 2017 iniciará em 27 de março e terminará em 5 de agosto. Já o segundo semestre começará em 28 de agosto e terminará no dia 27 de janeiro de 2018. Segundo nota divulgada pela reitoria da UFRGS, até a próxima segunda-feira (9) será divulgado o calendário para as matrículas de 2017/1 no site da Pró-Reitoria de Graduação. O período previsto para matrícula dos calouros classificados no Concurso Vestibular 2017 e no Sistema de Seleção Unificada (SiSU) 2017/1 não sofreu alterações. Os calendários completos devem estar disponíveis no site da UFRGS a partir desta quinta-feira (5).

Os restaurantes universitários da UFRGS só devem voltar a funcionar a partir do dia 20 de janeiro. Os contratos da universidade com as empresas fornecedoras dos restaurantes encerraram em dezembro e estão sendo refeitos. Somente o RU do Campus Litoral Norte já está funcionando. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) liberou mais uma recarga do TRI para os estudantes que da UFRGS que retornaram às aulas em janeiro. Uma próxima recarga poderá ser feita mediante a apresentação do comprovante de matrícula 2016/2.

As ocupações estudantis terminaram em dezembro e não há nenhuma indicação de que elas sejam retomadas no início do ano. Os estudantes que ocuparam o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) divulgaram, dia 1° de janeiro, uma carta aberta à comunidade acadêmica para “refrescar a memória de todos” sobre a conjuntura atual do país e sobre o movimento político que ocorreu na universidade nos últimos meses. A carta lembra que o país viveu um golpe de Estado de 2016 e que o governo golpista vem promovendo uma série de medidas com o objetivo de sucatear a educação e demais instituições públicas para abrir espaço para o setor privado. Além disso, defende que, nas aulas que se seguirão em janeiro e fevereiro, esses temas sigam sendo objeto de debate. “Que não deixemos que a estrutura acadêmica nos encarcere e nos isole da realidade que nos rodeia”, afirma ainda o texto. Segue abaixo a íntegra da carta da Ocupa IFCH:

Carta aberta à comunidade acadêmica

“Nós, da Ocupa IFCH, viemos por meio deste, refrescar a memória de todos sobre a conjuntura atual de nosso país e sobre o movimento político que ocorreu nesta Universidade nos últimos meses.

Em 2016 sofremos um golpe de Estado. O governo golpista tem tomado uma série de medidas que, em seu conjunto, tem um objetivo claro: sucatear a educação e demais instituições públicas para abrir espaço para o setor privado, gerando mão de obra barata e sem ferramentas intelectuais para criticar esse sistema.

Vimos a aprovação de uma PEC que prevê ser mais importante destinar verba pública a banqueiros bilionários do que a setores primários, como saúde e educação. Vimos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, tão esmeradamente construída desde a Constituição Cidadã de 1988 ser retalhada a ponto de ficar irreconhecível. Muitos de nós cursam licenciaturas que já não são mais obrigatórias nos currículos escolares. Nossa geração será a que ingressará no mercado de trabalho sem o mínimo de direitos que a CLT garantia e sem perspectivas de aposentadoria. Percebemos que, se arranjarmos emprego, trabalharemos 12 horas por dia até morrer.

Frente a isso, alunas e alunos desta Universidade sentiram que não era mais possível seguir com a rotina acadêmica normal. Fez-se necessário parar para pensar sobre estes ataques aos nossos direitos básicos, aos princípios de igualdade social, de acesso universal à educação que norteiam a maioria daqueles que frequentam esta instituição pública de ensino e tem por objetivo a construção do conhecimento de forma democrática e acessível. Nos 50 dias que passamos ocupados, organizamos e participamos de atividades com o objetivo de discutir toda essa conjuntura e pensar formas de ação possível para seguir na luta contra estes retrocessos.

Gostaríamos, portanto, de lembrar nesta volta às atividades normais, que a Universidade não esteve parada nestes últimos meses. Ela foi palco de intensas atividades em que, de forma inédita, as próprias alunas e alunos se apropriaram de seu espaço físico e simbólico, construindo atividades que faziam mais sentido, para nós, no momento. Exercemos aquilo que a Universidade deveria nos capacitar a fazer: construir o conhecimento de forma coletiva e conjuntural, preocupando-se com a realidade social em que vivemos.

Acreditamos que, ao retomar as aulas corriqueiras, isso deveria ser levado em conta, sobretudo, por professoras e professores que pregam esta forma de construção de conhecimento em sala de aula. Muito ouvimos falar em inter e transdisciplinaridade, em quebra das hierarquias entre professor e aluno, no respeito às diversas formas de elaboração de saberes, porém, pouco vemos tudo isso na prática.

Sugerimos assim que, nas aulas que se seguirão em janeiro e fevereiro, não se deixe de abrir espaços de discussão sobre essas situações todas. Que se debatam os erros e acertos deste movimento político e novas formas de ação daqui em diante. Que não deixemos que a estrutura acadêmica nos encarcere e nos isole da realidade que nos rodeia. Que não se ignore toda uma conjuntura por uma ilusão de excelência acadêmica que, possivelmente e em breve, não significará mais nada”.

(*) Publicado originalmente no Sul21

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