Referências, ou a ausência delas

"Perdemos os casarões da Luciana de Abreu em uma ágil operação dos interesses privados." (Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21)

“Perdemos os casarões da Luciana de Abreu em uma ágil operação dos interesses privados.” (Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21)

Lena Annes (*)

Sabe quando você cruza em frente à casa onde passou sua infância e ela parece menor, sem aquelas árvores que você adorava e a sensação atual é de que roubaram alguma coisa do seu arcabouço de referências.? A casa da minha infância tinha araucárias com mais de 40 anos que foram sumariamente cortadas com a indiferença alheia de sempre e a complacência de algum órgão municipal, e hoje a outrora imponente morada branca, jaz amorfa e desamparada. Destruíram suas principais referências. Foi lobotomizada. 

Ao longo dos anos somamos outras referências, mas essas são novas e não substituem as antigas, que são nosso muro de arrimo, sobre as quais deveríamos cobrar direito autoral para quem ousar dissolvê-las ou se apropriar delas. 

Uma árvore, uma casa, um lugar, uma pessoa, um gato, um cachorro, um amor, um amigo, uma música, um filme, todos, absolutamente todos são traços do nosso DNA existencial e nos suprem quando dele precisamos. Em um momento de melancolia ou de comemoração, as boas e más lembranças se revezam nesse tobogã emocional que é a vida e suas etapas.

É claro que a forma como enxergamos nossas lembranças também se altera, se transforma, como se deixássemos a pequena Lilliput e ingressássemos em um mundo de adultos, agora portando desconfortáveis, mas indispensáveis armaduras. Mas lá no fundo amontoamos nossas referências que insistem em sobreviver lembrando quem somos, de onde viemos e o que desejamos.

Referências às vezes são bobas. Aquele momento nonsense entre amigos eternizado pelo flash ou a foto vestindo do aquela roupa que parece da irmã mais velha (e  é, para seu desespero!) totalmente fora de moda, também faz parte de você, da sua identidade que é continuamente colocada à prova pelos atropelos deste mundão.

Quando se adota uma cidade, ela se torna nossa referência maior pois ali depositamos nosso presente e ambições. 

Ao longo dos últimos anos sumiram de Porto Alegre nossos cinemas de rua e as sessões à meia noite em pleno inverno, pois o chique é ter shopping e muito estacionamento para os veículos que agora dominam nossas ruas, o noticiário e a lista de objetos do desejo e precisam de abrigo.

Perdemos comércio de rua, a conversa na calçada, a saída pela noite sem hora para voltar, andando de ônibus por ruas desconhecidas ou caminhando indolentes rumo ao prazer, ao hedonismo que a juventude assegura.

Casarões sucumbem vítimas da ambição, da especulação travestida de finesse e do bem viver, sob a tutela de gestores mal informados, mal assessorados e desinteressados das referências que pululam na cidade e nos fazem reconhecê-la e amá-la. Perdemos os casarões da Luciana de Abreu em uma ágil operação dos interesses privados, sob complacência de uma Justiça cada vez mais incompreensível e distante de nós mortais.

Lembro da loja Masson no centro da cidade, ponto de encontro, referência para urbanos e interioranos onde senhores de certa vivência, com o Correião debaixo do braço, fofocavam entre o atropelo urbano de uma rua da Praia que já foi bela e exibida de sua versatilidade. Aquela loja  foi-se e muitas outras também, algumas mudaram de endereço ou encolheram cada vez mais, assoladas por um mundo onde a gentileza do olho no olho foi substituída pelo call center enlouquecedor e pelo Made in China. 

Menos referências, pois agora precisamos de mais armazenamento nos nossos gadgets eletrônicos, mais apps e menos assunto para falar na hora das refeições. Nesse mundo distópico ainda trocaremos sentimentos por chips e uma grande e brilhante tela interativa vai comandar nossa rotina. Lá fora, um mundo sem referências se engole sem que alguém saiba como isso acabará.

(*) Jornalista  

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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