Pacote de Sartori provoca conflito aberto entre servidores da segurança pública

Manifestantes lançaram bexiguinhas com tinta vermelha no batalhão de choque da Brigada Militar, que respondeu com bombas. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Manifestantes lançaram bexiguinhas com tinta vermelha no batalhão de choque da Brigada Militar, que respondeu com bombas. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O pacote de medidas enviado pelo governador José Ivo Sartori (PMDB) à Assembleia Legislativa, além de ter decretado a extinção de várias fundações, já trouxe outra consequência: abriu uma séria crise entre servidores da Polícia Civil, da Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) e da Brigada Militar. Essa crise que já era visível desde os primeiros dias de cerco à Assembleia pelo batalhão de choque da Brigada Militar, se tornou explícita nesta quinta-feira (22) na Praça da Matriz. Assim como ocorreu na quarta-feira, servidores da Susepe e da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) voltaram a liderar a mobilização em frente ao Theatro São Pedro, que se tornou palco de um dos mais graves conflitos da história do Estado envolvendo servidores públicos, o Executivo e o Legislativo.

Os últimos dias desta semana mostraram dois mundos paralelos coexistindo na Praça da Matriz. Encerrados dentro da Assembleia sitiada por mais de 200 homens do choque da Brigada Militar, os deputados decidem, além do futuro do Estado, a vida de milhares de servidores públicos. Nenhum dos deputados da base do governo Sartori se arrisca a colocar os pés ou mostrar a cara na Praça da Matriz. As consequências poderiam ser dramáticas. Os deputados da oposição se alternaram em visitas à Praça para relatar o andamento das votações dentro do Plenário. Do lado de fora, a lógica que foi se desenvolveu nos últimos dias é a da pressão e conflito cada vez mais aberto. As chamadas “bombas de efeito moral”, com o passar dos dias, parecem causar cada vez menos “efeito moral”. Os manifestantes se dispersam e rapidamente se reagrupam em frente ao batalhão de choque.

Ao longo da tarde desta quinta-feira, esse movimento se repetiu inúmeras vezes. Servidores da Susepe se alternaram nas grades que separam os manifestantes do batalhão de choque, cobrando a postura de seus colegas da Brigada Militar. Essas cobranças, que já tinham ocorrido outras vezes durante a semana envolvendo também integrantes da Polícia Civil, foram subindo de tom com o passar dos dias. Nesta quinta, uma das respostas dos servidores ao bloqueio imposto pela Brigada Militar foi lançar ovos e bexiguinhas carregadas com tinta vermelha contra o batalhão de choque, que respondeu com bombas. As bombas explodiram a tarde inteira na Praça da Matriz que ficou impregnada com o cheiro de gás lacrimogêneo.

Servidores da Susepe confirmaram ao Sul21 que os acontecimentos desta semana terão repercussão nas relações com a Brigada Militar. Do mesmo modo, policiais civis manifestaram em grupos de Whatsapp sua indignação com a postura dos policiais militares e afirmaram que ela terá consequências na relação entre as corporações no futuro próximo. Além do conflito com os servidores da Susepe, as feridas existentes na história das relações entre Brigada Militar e Polícia Civil parecem ter reaberto de vez, com consequências imprevisíveis. Nos dois últimos dias, em vários momentos, o confronto esteve a ponto de descambar para algo mais violento que lançamento de bombas, foguetes, ovos e bexiguinhas.

O mundo paralelo instalado na Praça da Matriz contribui para alimentar um cenário de violência institucional. As bombas estouram do lado de fora do Parlamento, mas as consequências mais duradouras para a vida dos servidores e da população em geral estão sendo tomadas do lado de dentro. A inexistência de um diálogo entre esses dois mundos contribui para um crescente acirramento de ânimos. A presidente da Assembleia Legislativa, Silvana Covatti (PP), ignora absolutamente o que acontece do lado de fora e transformou o interior do prédio do Palácio Farroupilha em um QG do batalhão de choque da Brigada.

No final da tarde, o cenário de guerra na Praça da Matriz ganhou um novo ingrediente. Um helicóptero da Brigada Militar passou a sobrevoar a praça em círculos, a baixa altura, com um policial em pé junto à porta do aparelho com uma arma apontada para os manifestantes. Os servidores responderam com vaias e alguns foguetes foram lançados na direção do aparelho, sem atingi-lo. O Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato) denunciou, em sua página no Facebook, que o helicóptero lançou bombas em meio à manifestação dos servidores.

Ironicamente, esse teatro de guerra acontece justamente em frente ao mais importante teatro do Estado. A mobilização dos servidores públicos gaúchos, nos moldes em que está acontecendo, é algo inédito na história do Rio Grande do Sul. O chamado “Estado Novo” que o governador Sartori quer construir transformou o final de ano dos moradores do centro de Porto Alegre em um cenário de guerra. Uma experiente dirigente sindical comentou após uma das sessões de bombas de gás lacrimogêneo: “É muito grave tudo isso que estamos vendo aqui. As consequências disso são muito sérias. Está instalado um cenário de conflito. Daqui em diante, não haverá mais manifestações pacíficas”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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