A terra anda. E os pés no chão a fecundam mais que os coturnos

A bancada de Sartori do lado de fora da Assembleia. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A bancada de Sartori do lado de fora da Assembleia. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Renato Dalto

Há imagens que sintetizam uma época. A do governo Sartori está plasmada – é o do governo que quer fechar uma emissora de TV e rádio e que povoou a frente do palácio com a Brigada Militar. Essa é a imagem: o palácio protegido pelos coturnos, escudos e bombas. Não é a tragédia explicita de um Vladmir Herzog num patético enforcamento falsificado, não é a menina correndo nua fugindo do napalm no Vietnã. É pior. Ao silenciar, entre outras, uma fundação ligada à comunicação e cultura, lembra Vítor Jara com as mãos cortadas pelos carrascos de Pinochet, que supera qualquer requinte de crueldade, embora sinalize até aí a inevitável resistência – as mãos não tocam mas sua voz e suas canções seguirão no tempo afora como um zumbido que jamais deixará os opressores dormirem. A TV Educativa do Rio Grande do Sul em greve, fechada e sob o risco de ser extinta é a imagem definitiva do silêncio à inteligência, do descaso com a sensibilidade, do pretenso triunfo da truculência sobre a educação. Se faltava alguma coisa para esse governo acabar, não falta mais nada.

Mas pretendo lhe contar uma pequena história, senhor governador, se é que o senhor está disposto a ouvir alguma coisa. Sim, porque o senhor só ouve os que lhe fazem repetir, como o boneco de um ventriloquo, frases feitas e vazias, como “vou fazer o que precisa ser feito”. Não vou debochar da sua tosquice, mas gostaria de falar num índio que junta refinamento e telurismo para expressar algo muito comum a todos nós: a terra. Esse rapaz todo dia sobe aquele morro, onde estão a TVE e a Rádio FM Cultura, para versejar no estúdio palavras e sons que se enraízam na alma. Uma manhã, voltando de viagem, rádio ligado, me emocionei quando ele leu, concentrado, um texto de Guimarães Rosa no ar. Um texto sonoro, umas frases em curva, um estalar de palavras que sei lá se era poesia, mantra, música ou oração. Eu pensei que jamais ouviria aquilo num veículo de comunicação- e ao ouvir me senti arrebatado, a manhã se iluminou e meu dia foi muito melhor. Estou falando de Demétrio Xavier, governador.

Poderia falar nos prêmios que a TVE vem ganhando, na garra e na dignidade de uma repórter como a Marta Kroth, na resistente competência do Léo Nuñez, na peleia que foi no governo passado para o Pedro Osório e a Marta buscarem um espaço que tornasse essa TV mais cosmopolita e viável. Mas fico no Demétrio pelo símbolo, pela ousadia, pela sensibilidade. Entendo que talvez a originalidade de um Guimarães Rosa chegue com dificuldade a ouvidos que sequer sabem ouvir o óbvio que os tornaria um pouco mais sensíveis, menos toscos e menos reféns de si mesmos. Porque o senhor é um refém: quando a Brigada reprime trabalhadores na frente do seu palácio, sempre há um motivo para o senhor estar longe. Aliás, o senhor está longe da realidade desde que assumiu. Triste governo prisioneiro de seus pequenos calotes no funcionalismo e que se reduz mediocremente a uma gincana de fechamento de contas. E para seu triste governo, nem mesmo a mídia amiga resolve.

Então o senhor chama os milicos da Brigada e foge pra Brasília. Como os truculentos dos mais tristes períodos históricos, o senhor manda alguém sujar as mãos e mostra um sorriso cosmético como se nada estivesse acontecendo. As ruas em chamas, o funcionalismo sem salário, seu governo virando piada de mau gosto e até mesmo um secretário recomendando políticos pegarem dinheiro sujo para se eleger já que anjo não se elege, embora o senhor tenha se elegido bancando o gringão bonachão para dialogar com a imbecilização dos que queriam qualquer coisa menos o PT. O seu governo é a qualquer coisa eleita só para derrotar o PT, como lembra o Jorge Furtado. Só isso: qualquer coisa.

Como qualquer coisa pode tudo, agora é a vez da TV pública alvejada. O passo seguinte, pela sua cartilha de contas, é a TVE e a FM Cultura fechadas. É a vergonha suprema à qual se submete a sociedade deste estado que produziu Vargas, Oswaldo Aranha, Erico, Elis e Quintana, só para ficar em alguns.Como o senhor despreza a cultura, sinta-se a vontade para desprezar toda a memória, toda a história, todo o acúmulo que este estado tem. Porque esse desprezo é também à cultura política e a toda a cidadania.

Volto ao Demétrio para lembrar uma frase que ele cunhou num texto que li esses tempos. Não canso de repetir essa frase, como uma pequena oração diária. É um provérbio inca: O homem é a terra que anda. Se o senhor não sabe, vou lhe contar um conceito antropológico básico, que é a relação do homem com a terra e a capacidade de transformá-la. Isso se chama cultura. E nessa terra, a sola macia dos pés descalços a fecundam de calor e aconchego. Os coturnos pisam as sementes e arrebentam as flores. Mas a terra não morre. E o homem segue. E anda. Desconfio que o senhor segue parado ou fugindo sem saber o que está acontecendo. Sepultado pelos coturnos enquanto a terra segue viva.

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Uma ideia sobre “A terra anda. E os pés no chão a fecundam mais que os coturnos

  1. oleti

    Os poderosos conseguem colocar a população, os trabalhadores, uns contra os outros. Imaginem o policial jogando bombas para dispersar a multidão. Talvez nesta multidão está sua esposa, seu filho, sua mãe, sua noiva, etc… Eles, por hierarquia e obediência, usando cassetetes, mesmo recebendo seu míseros tostões parcelados, e até, talvez nem recebendo. A roda está girando ao contrário… Muito triste. A que ponto chegamos? E isto não é de hoje. Vem de há muito tempo.

    Resposta

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