O Brasil acabou, mas parece que ficou grávido

"As vinte primeiras filas eram de meninas, gurias com menos de 23 anos. Faixas feministas. Muitas palavras de ordem em defesa dos direitos das mulheres e da resistência feminina".

“As vinte primeiras filas eram de meninas, gurias com menos de 23 anos. Faixas feministas. Muitas palavras de ordem em defesa dos direitos das mulheres e da resistência feminina”.

 Katarina Peixoto

(Laudo ecográfico em 3D da marcha contra a PEC 55 em Porto Alegre, em novembro de 2016)

Quando cheguei na Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre, o primeiro sentimento foi do peso da derrota. Uma consideração geográfica: começamos a nos reunir aqui quando o frio estava chegando. O cheiro era de quentão e nós achávamos reconfortante caminhar durante horas sem suar. Naqueles dias de maio e junho deste ano horrível, gritávamos contra o golpe e afirmávamos nosso compromisso com a democracia. Agora o verão se aproxima e cá estamos, suando, com menos roupa e também mais clareza política, menos idade e mais barulho. Há também mais disposição, uma espécie de espírito. Há mais sorrisos, não sei dizer por que.

Olho para o lado e vejo uma placa. Eram cientistas, reclamando contra o corte brutal no financiamento das pesquisas e das Fundações Estaduais de pesquisa. Levanto os olhos e leio “UFRGS”. Em muitas faixas: veterinária, filosofia. A universidade estava ali, as fundações de pesquisa. “Vamos para a rua, porque os pesquisadores e cientistas estão ameaçados”, foi este o meu impulso de escrever. Aí a marcha saiu. E começou a alegria.

Fomos para a parte da frente. As vinte primeiras filas eram de meninas, gurias com menos de 23 anos. Faixas feministas. Muitas palavras de ordem em defesa dos direitos das mulheres e da resistência feminina. Estou convencida de uma relação imaginativa e racional. Essa gurizada entendeu o caráter misógino do golpe de estado de maneira muito mais nítida que a imensa, senão toda, a esquerda partidária do país. Mesmo que irrefletidamente, o avanço do movimento feminista nos últimos anos deriva de avanços políticos e representativos que estão aí, ecoando, gritando, pulando, cuidado umas das outras, nas ruas. Antes que algum guru das multidões, esses místicos que predam o nome de Spinoza sem jamais o terem lido seriamente, digam que as multidões são um bem em si – coisa que o filósofo jamais cometeria -, vale dizer que a relação característica da imaginação sempre é normativa, porque expressa o conatus, não uma dinâmica estéril. Numa palavra: o signo é signo de algo que quer viver e, como signo, é aberto e imerso na multiplicidade das águas turvas e eventualmente contaminadas, da vida.

Entramos numa avenida larga de Porto Alegre e o vento do Rio Guaíba entrou em nossos corpos e rostos e nos encheu de uma esperança. Pensei, dialogando com meu cinismo interior: “a gente vem para cá não para lutarmos por uma maioria que não somos. Nunca seremos maioria, pensando bem. Aqui estão feministas, gays, cientistas e intelectuais. Platão é Platão, ora essa”. Segui me perguntando, e gritando e admirando. Perguntei a mim mesma, de novo: “Por que estamos aqui?”. Esta não é uma pergunta cínica, nem sei se é cética.

Michel Temer, o despachante de alvarás fraudulentos que é protegido pela joint-venture golpista, não cairá porque nós estamos nas ruas. O ignorante e inepto do Sartori não deixará de rifar o estado e trucidar o seu futuro porque nós estamos aqui. Essa gente golpista não quer saber da democracia. Nunca quis. Eles só aceitaram disputar eleições três vezes, em cem anos. Por isso, e ainda assim, eles nos reprimem. Não nos escutam nem respeitam, mas se organizam para nos reprimir, perseguir, ameaçar e destruir. Por que?

Um guri autonomista tinha uma mochila de primeiros socorros e eu o vi usando. A explicação começava a ficar evidente. O batalhão de choque da polícia começava a nos cercar. Eles enviavam batedores para nos bloquearem, adiante. Armados, protegidos, estavam ali para nos ameaçar, caso ousássemos, vejam só, chegar na Praça da Matriz, na frente do palácio do governo, atualmente predado por uma horda de hunos golpistas. O que tinha nos primeiros socorros do guri? Vinagre e coisas para tratar ferimentos. Eu disse que ele tomasse cuidado e tentasse ficar misturado com a multidão. Que a polícia ia gostar de ver a mochila dele e maltratá-lo. Ele não gostou, acho que se sentiu violado pelas minhas observações.

Precisam, muitos deles, esconder-se heroicamente em suas convicções. São muito verdes e estão aprendendo tudo. Ainda não da pior maneira, mas isso é uma questão de tempo, cada vez menor, parece. Infelizmente, embora eu não tenha certeza se não é meu cinismo.

Vivemos num país, hoje, em que a violência comum se tornou extraordinária, entre outras coisas, porque as polícias estão dirigidas por golpistas. Com o golpe consumado há seis meses, temos mais polícias políticas, em todas as esferas (militares, civis e federal), que polícias em funcionamento. Não temos segurança ao andar na rua, o desemprego e o déficit público aumentam, mas temos segurança que, numa passeata, nosso percurso depende de onde a polícia nos deixar ir, sem atirar, bater, espancar, prender e humilhar.

Não há legalidade, nem responsabilidade, no poder instituído via golpe. É o que ocorre quando se viola o sufrágio. Levamos vinagre na mochila, para não desmaiar em caso de bomba na calçada. Nesta, calçada, aliás, calçadas, aumenta o número dos moradores de rua. Aumenta, também, na gurizada, a indisposição a negociar.

Ontem, éramos milhares. A polícia, obedecendo a ordens do golpista que destrói o estado e se aloja no palácio do governo, deslocou microonibus, caminhonete, helicóptero, para nos seguir e ameaçar.

É preciso não se ter legitimidade, autoridade e segurança alguma, para tamanho autoritarismo. Não há o direito de fechar vias públicas para interditar protestos de circularem pelas ruas.

Por que marchamos? Podemos ser milhares e nem numa praça, gritar contra um governador oligofrênico, constrangedor, perverso, podemos chegar? De que adianta isso? Nem trânsito havia para prejudicarmos. Nenhuma desculpa. Só repressão, medo, ameaça.

Quando chegamos na frente do Instituto de Artes, da UFRGS, encontramos estudantes que estão na ocupação, dentro do prédio. Eles nos aplaudiram e pediram para não ser fotografados. Olhei para dentro do prédio e vi a organização física do lugar. As gurias gritavam: “Ocupa tudo!”.

Duas gurias estavam com camisetas no rosto e, como dirigentes imaginárias, comandavam a marcha. “Atrás da faixa, atrás da faixa!”. Um sentimento de triunfo, certeza e domínio imaginativo as imuniza do que a nossa geração está sentindo. Olhamos para elas e sorrimos. Chegam dois guris, correndo, puxam um terceiro. “Na frente estão elas, decidimos na assembleia, volta!”.

“Te cuida, imperialista, a América Latina vai ser toda feminista!”
“Preste atenção, a PEC 55 é vinte anos sem educação!”
“Nós somos um povo e essa PEC nós vamos derrubar!”

Professores, orientandos e orientadores, pesquisadores e colegas de laboratórios, a gurizada, juntos, marchando, sambando, cantando e denunciando a barbárie. Muitos trabalhadores mal assalariados estão assistindo com cada vez mais simpatia a esses cortejos de jovens e pessoas de classe média, que denunciam um governo que, também já entenderam, está piorando as coisas.

Ontem, pela primeira vez, havia pobres, ainda em minoria, na marcha. “Vai piorar, porque o salário vai baixar. Agora, não tem mais ninguém por nós”. Conversamos com dois garis que trabalham no serviço municipal de reciclagem. “A gente saiu do trabalho e se juntou na marcha”. Ficamos conversando e, quando me despedi, eu lhes disse: “não maltratem nunca uma mulher”. “Ah, não, pode deixar. Se não tem a Maria da Penha!”, disse, pra me dizer que sabia de onde eu estava falando, parece.

Saímos para tomar uma cerveja gelada. Um Brasil acabou, mas parece que ele ficou grávido de um bebê, chamado imaginação democrática. Ela caminha entre poucos, mesmo quando são milhares. Está sufocada pela repressão, mas está viva, e crescendo. Quando nascer, vai chorar, e saberemos, sem muita dúvida, que a rua, as ocupações, as discussões e a resistência, nesse lugares, ela foi fecundada.

Quando a imaginação democrática se tornar metáfora e organização com vistas ao poder, mais do que helicópteros e polícias, a direita terá de aprender algumas coisas. Essa gurizada não vai suplicar cotas para mulheres, porque nós estamos na direção, já. Já chegamos à presidência, podemos chegar de novo. Não vamos, de novo, tornar o financiamento do estado um tema contingente. Nem negociaremos posições diante das lições que estamos aprendendo sobre conflito distributivo e justiça. Gays não são núcleo concedidos por direções de machos brancos, em partidos, mas cidadãos. Bolsa não é favor, pesquisa não é luxo, universidade não é comércio. E mulher existe.

Cheguei em casa pensando que tínhamos o direito de nos sentir como pais que enxergam o nariz de bebê, em ecografia 3D, pela primeira vez. Talvez marchar seja ter essa experiência, no país, hoje.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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