Avante brasileiros, pra trás!

Uma ponte para o passado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Uma ponte para o passado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Ayrton Centeno

No alvorecer do milênio, Luis Fernando Veríssimo notou que estávamos ingressando em outro século mas ainda não sabíamos qual. Poderia ser o 21 ou o 19. Bem, demorou 16 anos, mas agora sabemos. Mesmo se não quiséssemos, acabaríamos sabendo. Bastaria contemplar a atual decoração do Planalto.

Na fachada governamental, reluz uma corja imperial abduzida no passado e que viajou mais de 100 anos através dos tempos. E que nos trouxe, além dos velhos e dos velhos costumes, a opressão estetizada através da mesóclise. Foder-vos-ei, brasileiros e brasileiras!

Outras vozes, porém, situam nosso regressismo em ponto mais remoto, a Idade Média, aquela que começou com a queda do Império Romano do Ocidente e que, supostamente, extinguiu-se com o advento da Idade Moderna no século 15. Estaríamos na era pré-cabralina.

Em 2016, os portugueses ainda navegam, tomando vinho, comendo bolacha, temendo as calmarias e o escorbuto e defecando na amurada. Ainda não existimos. Parece um tanto excessivo. Seja como for, o flash back é nossa sina.

Não mais que de repente, tudo se precipitou. Cata-se desesperadamente o atraso. Vê-se nele um charme que a agenda emancipatória ou libertária não parece possuir. Descabela-se o calendário em busca do tempo perdido. Há uma sofreguidão, quase uma luxúria pelo antiquado. O arcaico é sexy, quer nos convencer a não menos vetusta imprensa. Só não nos informa que a supressão de direitos e valores resume seu cobiçado objeto de prazer. Senão, vejamos:

1) Funda-se o governo dos Brancos, Velhos, Ricos, Reacionários e (dizem) Corruptos. Na popular, o BRAVERRC. Mulheres? Só uma como enfeite por causa “dessa história de gênero”, como admitiu o “presidente”. Negros? Nenhum. A exemplo das mulheres, eles são maioria no país mas estamos em falta. Nem no racista Alabama ocorre algo assim. Lá, o governo estadual, nas mãos do Partido Republicano, abriga Fitzgerald Washington, retinto afrodescendente que pilota a secretaria do trabalho.

2) BRICS? Nada disso. O BRAVERRC tem outras ideias. A propósito, para o chanceler José Serra, o nome correto é BRAICS. Os tolos esqueceram de incluir a Argentina na sigla… Serra namora de mãos dadas com os EUA e, portanto, BRICS, BRAICS ou que raio for não interessa. O que interessa, mesmo, é entregar essa chateação da Petrobras para os ianques. Sadia é aquela postura de subordinação perante o Grande Irmão do Norte, como sempre foi no passado. Afinal, já estamos acostumados com a posição em que Napoleão perdeu a guerra.

3) A pedagogia de Paulo Freire está revogada. Para os ideólogos do BRAVERRC, é pura subversão como tão bem percebeu a ditadura militar. Que prendeu Freire, acusou-o de “traidor de Cristo” e o despachou para o exílio. No exterior, Paulo Freire tornou-se doutor honoris causa em 41 universidades, entre elas as inglesas Oxford e Cambridge e a norte-americana Harvard. Na Suécia – vejam só, a cabeça desses gringos… – ergueram-lhe uma estátua! No Brasil, a neopedagogia de Alexandre Frota deve tomar-lhe o lugar. É a Escola Sem Partido Mas Com Sacanagem que ninguém é de ferro.

4) Aposentadoria? Ora, querem moleza, não? Fiquem sabendo que no pretérito imperfeito em que vivemos agora – seja o século 15 ou o 19 – não existe esse trambolho. Doravante, aposentadoria somente aos 70 anos. E isso porque o BRAVERRC é generoso. Claro, muitos brasileiros vão se aposentar em adiantado estado de putrefação. Mas queriam o quê? Ganhar sem trabalhar, vendo Ratinho na TV e pegando remédio de graça na farmácia? “Aposentado é vagabundo”, como bem disse o grande FHC, o farol que jorra seu facho de escuridão na nossa claridade. Sejam patriotas: morram!

5) Questão social? Ora, como disse o velho (mais um) Washington Luis, último presidente da República Velha (outra) e grande inspiração do BRAVERRC, a questão social é um caso de polícia. Pau neles! O governo dos brancos velhos e bons vai capar as despesas da União por 20 anos. Dizem que, com isso, haverá um desastre na educação e na saúde. Bobagem. Além do mais, ter muita educação acaba em problema: muito protesto, reivindicação, greves…E ter muita saúde é sabotar as prioridades da nação. É querer durar muito, se aposentar e ficar mamando nas tetas da Previdência. Coisa de comunista.

6) Salário mínimo atualizado pela inflação? Onde é que vocês pensam que estão? No socialismo do molusco? Ou da dilmanta? Findou-se a mamata. Outro troço que não desce pela goela do BRAVERRC é o tal 13º. Salário. Onde já se viu? Só podia ser coisa daquele João Goulart, fazendeirinho vermelho que sempre foi. Bem que O Globo, na época, nos avisou dessa barbaridade. Depois, vieram os milicos e nem eles tiveram coragem de mexer nesse dinheirinho mal havido da plebe. Mas não contavam com o BRAVERRC. Deixem passar as eleições que virão mais novidades por aí.

Enfim, é um grande projeto que, para ser bem executado, necessita de homens corretos e capazes, devotados à causa pública, profundamente éticos, de elevada estatura moral e acima de qualquer suspeita. Seria uma temeridade desenvolvê-lo sem tais requisitos. Ainda bem que temos exatamente este tipo de gestores no timão da república. Podemos dormir em paz.

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Uma ideia sobre “Avante brasileiros, pra trás!

  1. Nelson

    Texto magnífico do Centeno; mais um, aliás. De minha parte, penso que eles, ao destruírem nosso Estado de Direito, nos jogaram na era pré-Revolução Francesa.

    Resposta

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