Sirvam nossas façanhas de piada a toda Terra

"Progrediu no RS uma propensão incontrolável ao farsesco, uma opção preferencial pela palhaçada."

“Progrediu aqui no RS uma propensão incontrolável ao farsesco, uma opção preferencial pela palhaçada.”

Ayrton Centeno

Marx disse que a História só se repete como farsa. Desconfio que não, Marcão. Ou está certo quanto ao restante do mundo menos no velho Rio Grande sem porteira. Do Mampituba pra baixo e do Chuí pra cima, revogamos a História – a nossa é imutável – e adotamos a Farsa no seu lugar. Nossa história é com H minúsculo e nossa Farsa com F imponente. E se repete de modo interminável. Bem que o barbudo poderia ter nos alertado para tais desvios. Progrediu aqui uma propensão incontrolável ao farsesco, uma opção preferencial pela palhaçada.  Senão o que explica a reprise, eleição após eleição, do mesmo número no picadeiro e sempre sob ovação consagradora?

Em 2002, elegeu Germano Rigotto cuja propaganda eleitoral perdia em complexidade para um programa dos Teletubbies. No governo, enfiou o funcionalismo numa novela de Franz Kafka tomando dinheiro emprestado no Banrisul para pagar o próprio salário. Um teletubbie, por certo, não faria pior.

Em 2004, ressuscitou José Fogaça que, depois de perder mais uma reeleição ao Senado, rumava para casa escrever suas memórias e tocar violão. Extraído candidato do PMDB e após prefeito por obra e graça do antipetismo, Fogaça teve que ser reapresentado à Porto Alegre. Falava-se num bairro e ele respondia “Hã?” Nem conhecia mais a cidade. Compreende-se: passara o século anterior em Brasília, burilando uma das mais pálidas trajetórias de senador de todos os tempos.

Em 2006, a gauderiada foi de Yeda Crusius pra ver no que dava. E viu no que deu.  Yeda nascera do matrimônio entre Pedro Simon e a RBS. Itamar Franco tinha um ministério atulhado de machos e queria uma mulher para deixá-lo mais florido.  Simon disse a Itamar que havia uma economista jovem e bonita que dava pitacos sobre economia na RBS TV. E Yeda virou ministra. E depois deputada federal e depois, azar o nosso, governadora.

Em 2014, foi a vez de José Ivo Sartori. Que gastou seu horário eleitoral perambulando por uma praça e desfiando amenidades. Negou seu partido, negou a política e turbinou uma campanha de platitudes à maneira de Rigotto porém 2.0. Ana Amélia dissolveu-se em pouco mais de uma semana e ele assumiu seus votos. O resto se sabe.

Sartori e sua administração originaram um dos maiores fenômenos da ciência contemporânea, algo que intriga, choca e desafia os físicos de todo o planeta: a desaparição de 3.859. 657 pessoas. Ninguém sabe onde foram parar. São os eleitores e eleitoras do Homem Polenta. Ao lado de itens como emprego, saúde e segurança, todos e todas evanesceram em alguma dobra do tempo.

Com Sartori, um político pífio e paroquial, o Rio Grande caiu para a segunda divisão da política brasileira. Foi rebaixado. Ostenta, politicamente, a estatura de um Luverdense ou Sampaio Corrêa. Desde os interventores nomeados pela ditadura não tínhamos criatura tão inexpressiva no Piratini. A parte partidos e ideologias, não se pode negar a condição de personagens nacionais a Jair Soares, Antonio Britto, Alceu Collares, Olívio Dutra, Yeda Crusius e Tarso Genro ao subirem a escadaria do palácio. Mesmo Rigotto fora líder do FHC na Câmara.

Em 2016, o bravo eleitor já ajeita o nariz de bolota, prova as calças bufantes e remendadas nos fundilhos, ajeita o chapéu florido e retoca a maquiagem de cores berrantes. Respeitável público, o espetáculo vai começar.

É o que promete a última sondagem eleitoral para Porto Alegre (Methodus, 21/09/16) apontando o vice–prefeito Sebastião Melo (PMDB) na ponta com 21% de intenção de votos. Em empate técnico, vem a seguir três candidatos: Nelson Marchezan Jr., que pede uma segunda chance para o PSDB de Yeda, é o segundo com 13,7%; Raul Pont, do PT, surge em terceiro com 11,8%, enquanto Luciana Genro, do PSOL, aparece com 11,5%.

Agora, o papel de Rigotto, Fogaça e Sartori é desempenhado por Melo. Que empunha a máquina, uma coligação de 14 partidos que já ocupam ou orbitam os cargos da prefeitura – algo que a despacha imediatamente ao Guinness Book – e uma retórica de embromation, mesmo lero de Rigotto, Fogaça e Sartori. Representa o situacionismo em uma cidade degradada como nunca havia ocorrido.

Burlescamente, coordenou a campanha do espantoso e atual governador. Em outras palavras, vendeu o peixe do pior gestor e da pior gestão da história recente do Estado. E, neste momento, vende-se a si próprio. Com que autoridade mesmo?

Esquerda dividida, é a primeira vez, em décadas, que se apresenta a real possibilidade da direita emplacar dois nomes no segundo turno. Algo que, em tese, gerará inquietante dúvida nos segmentos economicamente mais vulneráveis da sociedade: qual deles lhes arrancará o couro de modo mais piedoso?

Na Semana Farroupilha, quando o Rio Grande celebra os heróis que se perderam nas brumas do passado, engolfados por uma tradição petrificada em lendas gloriosas, seria mais proveitoso contemplar os dias que correm. Sem ilusões, sem fábulas, sem fanfarras. Olhar no olho as figuras e as realidades presentes. Ver a vida além dos véus. E agir. Antes que tenhamos que alterar o refrão do Hino Riograndense que, pelo andar da carreta, poderia ficar assim: “Sirvam nossas façanhas de piada a toda Terra”.

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2 ideias sobre “Sirvam nossas façanhas de piada a toda Terra

  1. José Newton Leal

    Quanto aos eleitores porto-alegrenses, li a pouco que no IBOPE, POA é uma das poucas grande cidades onde a rejeição ao Golpista Temer teve queda. Nenhuma surpresa.

    Resposta

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