Um cavalo para Cunha

E se o cavalo não vier para Eduardo Cunha – como não veio para Ricardo III, na peça de Shakespeare? A paz viverá de novo?

E se o cavalo não vier para Eduardo Cunha – como não veio para Ricardo III, na peça de Shakespeare?

Ayrton Centeno

Chegou a hora da verdade para o inacreditável Eduardo Cunha. No começo da noite desta segunda, 12 de setembro, será votado o parecer de cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados. Antes, passou-se um ano e um mês da denúncia da Procuradoria Geral da República por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Nove meses após a bancada do PT se recusar a defendê-lo no conselho de ética da Câmara e Cunha, em represália, autorizar a abertura do processo de impeachment contra Dilma. E nove meses também depois que a Procuradoria pediu o afastamento do deputado ao ministro Teori Zavascki, do STF. Procrastinar aparenta ser um verbo incrivelmente popular da Câmara ao Supremo. O país? Ora, o país…

Cunha faz mais sentido como ficção do que como a realidade que, azar do Brasil, na verdade é. A primeira impressão é de um Carlos Lacerda redivivo. Demagogo, agressivo, radical. Mas Lacerda tinha retórica de outra e poderosa cepa. E envergadura política superior. Presidente da Telerj no governo Collor, Cunha logo rumou ao PPB (hoje PP e, no passado distante, Arena) e ao governo de Anthony Garotinho. Elegeu-se deputado federal pelo PPB que trocaria pelo PMDB, emplacando três reeleições. No partido, acostumou-se às sombras das quais só emergiu em 2015 ao empalmar a presidência da Câmara a bordo de uma campanha da qual se diz cobras e lagartos e muitos outros bichos.

Na sua volúpia e ferocidade, Cunha encarnou o malvado favorito do Coxismo militante. Mas, talvez, frequente o imaginário nacional como um cover tropical de Ricardo III, o rei descrito por Shakespeare: ambicioso, dissimulado, traiçoeiro, vingativo. Sobretudo vingativo, no caso do marido de dona Cláudia.

Obcecado pelo poder, Ricardo III elimina quem lhe barra o caminho. Pela boca de muitas das vítimas, Shakespeare chama-o de “pestilenta infecção”, “sapo imundo”, “javali usurpador”. A própria mãe, a duquesa de York, o amaldiçoa: “És sanguinoso, sanguinoso será teu fim”. Uma frase de Ricardo: “Uso os trapos dos livros sagrados e finjo-me de santo sempre que demonizo.” É ou não o Cunha santarrão que, afrontando a democracia, assenhorou-se de um espaço laico, o da Câmara, para um culto evangélico com deputados pastores?

Da peça, a frase mais célebre é a última de Ricardo, aquela que profere momentos antes do aço inimigo provar do seu corpo. Desmontado e derrotado no campo de batalha, necessita rapidamente escapar e iludir a morte: “Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!”, brada.

É, com menor ênfase dramática, a situação de Cunha diante de seus algozes, muitos deles seus apaniguados e, pelos rumores que correm, favorecidos por sua gentileza pré-eleitoral. Cunha está pedindo um cavalo. Na Câmara, a montaria salvadora da sua sobrevivência política não é uma presença mas o seu contrário. A ausência pode ser aquele corcel branco de garupa convidativa erguido sobre as duas patas traseiras no alto da colina. Uma segunda opção, porém, tem sido aventada. Haverá quorum para cassá-lo mas estará em curso outra manobra do engenho legislativo: a produção de uma pena mais branda. Quem sabe uma emenda capaz de converter a cassação em suspensão temporária do mandato? Não deixa de ser apetecível. Cunha sairia de cena montado num potro negro disposto a perdoar aqueles amigos do peito de ontem que hoje lhe enfiariam a espada no peito à moda de Ricardo III.

Porém, se o cavalo não vier – como não veio para Ricardo? Se, em vez disso, venha a guilhotina política que o deixará inelegível até 2026? Bastam 257 votos pela cassação que, a propósito, é a tendência predominante. Afinal, a votação será aberta e nominal. O que um defenestrado Cunha fará? E se, cassado, acabar preso? Ou se sua mulher for presa? Qual será o seu jogo?

Na batalha final shakespeariana, o Conde de Richmond, após matar o vilão, proclama: “Agora as guerras internas estão cerradas; a paz vive de novo. Que ela aqui possa viver por longo tempo, ó Deus, diz Amem”. E no caso do Ricardo que nos coube? Você acredita? É o que veremos.

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