Combater a descrença e defender a democracia é a ordem do dia

"Os mesmos que atacam a democracia são os que não têm o mínimo compromisso com os direitos coletivos". (Foto: Mídia Ninja)

“Os mesmos que atacam a democracia são os que não têm o mínimo compromisso com os direitos coletivos”. (Foto: Mídia Ninja)

Marcos Todt (*)

Não é de hoje que a Ciência Política aponta que a cultura democrática ainda não se consolidou no Brasil (e na América Latina). Pesquisas demonstram que boa parte dos cidadãos que dizem acreditar que a democracia seja a melhor forma de governo na verdade não são democratas convictos, digamos assim.

Muitos dos que se intitulam democratas entendem que uma crise econômica justifica um golpe, que um “líder forte” é mais importante do que partidos, e aceitam o descumprimento das leis em caso de necessidade (desde que o descumprimento lhes convenham).

No momento atual, o fato de tantos políticos e “formadores” de opinião discorrerem sobre temas como desemprego, inflação e crise para justificar posição a favor do impedimento de Dilma, como se simplesmente sua opinião sobre o governo pudesse fundamentar um ataque às regras democráticas e a deposição de uma Presidenta eleita, é mais um sintoma claríssimo de nossa baixa cultura democrática.

Vivemos horrores em ditaduras e até hoje lutamos para nos libertar de seus reflexos. No entanto, ainda somos poucos os que compreendem que para legitimar a democracia precisamos defender seus princípios com cuidado, zelo, e do modo mais coerente que pudermos.

Chama a atenção a sinceridade de alguns senadores que comprovam a mediocridade e total falta de respeito aos princípios democráticos com que “sustentam” suas posições, como é o caso de Acir Gurgacz(PDT-RO), que votou pelo impedimento de Dilma mesmo afirmando sua ” convicção de que não há crime de responsabilidade fiscal nesse processo”; do senador Cristovam Buarque (PPS-DF), que recorreu até mesmo à “arrogância no exercício do poder” para tentar justificar seu voto; ou de nosso conterrâneo Lasier Martins (PDT-RS) que afirmou sem corar que “o Brasil está desejando a análise do conjunto da obra”.

Infelizmente, poderíamos nos alongar aqui em citações que demonstram que o que estava em jogo nunca foi o suposto crime de responsabilidade, o que evidencia o ataque aberto à democracia em nosso país. São legítimas as reações que temos visto, em especial, da juventude, denunciando o golpe, e não é à toa que a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) aprovou recentemente, com 87 votos a favor e apenas 6 votos contra, moção de repúdio “à destituição da presidenta Dilma Roussef e ao processo que rompe com a legalidade democrática no Brasil”.

Por mais limitada que ainda seja nossa democracia, os ataques a ela nunca são desimportantes e não interessam aos mais necessitados, nem aos que lutam contra as desigualdades. Os mesmos que atacam a democracia são os que não têm o mínimo compromisso com os direitos coletivos, e suas artimanhas só podem ganhar força quando na sociedade há resignação, baixos índices de confiança (capital social), descrença nas saídas coletivas e ceticismo político.

Não podemos ter dúvidas de que para defender nossa jovem (e sob ataque) democracia, precisamos qualificá-la, e para isso é imprescindível o empoderamento coletivo, a participação política, a conquista de direitos sociais e o combate às desigualdades.Ou seja, não se consolida cultura democrática sem realizar transformações sociais, e vice-versa.

Por isso, a batalha para isolar quem ataca os princípios democráticos e instiga a descrença generalizada está na ordem do dia e é muito mais importante do que distribuir rótulos de coxinha ou petralha.

(*) Mestre em Ciências Sociais pela PUC/RS e Vice-Presidente da APCEF/RS

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