O fascistômetro da Folha

Em 1964, quando o cadáver da democracia ainda estava quente, um editorial da Folha de São Paulo clamava contra “o totalitarismo subversivo” e excitava-se com as forças armadas que defendem o “poder constitucional, a lei e a ordem”. O jornal chegou a "emprestar" veículos para a ditadura.

Em 1964, quando o cadáver da democracia ainda estava quente, um editorial da Folha de São Paulo clamava contra “o totalitarismo subversivo” e excitava-se com as forças armadas que defendem o “poder constitucional, a lei e a ordem”. O jornal chegou a “emprestar” veículos para a ditadura.

Ayrton Centeno

“Fascistas à solta”, esbravejou a Folha de S. Paulo. Batendo os olhos no título  do editorial de sexta, 02, neste falso setembro invadido por agosto, minha primeira reação foi de entusiasmo. “Jornalismo, enfim. Alguém dá nome aos bois”, pensei. Já passava da hora dos jornalões que se jactam de estarem a serviço do bem comum apontarem o dedo acusador para a tomada do poder pelos fascistas em Brasília! Sem voto, a não ser aqueles comprados ou alugados – com o PMDB nunca se sabe… – implantou-se, através de uma bufonaria, um governicho misógino e de direita tripulado por brancos, velhos, ricos, reacionários e corruptos em boa parte. Santa candura, a minha.

Acontece que os fascistas detectados pela Folha não  frequentam o consórcio de bandidos que empalmou o poder e vandalizou a jovem democracia brasileira. Pois não é que, na visão frígida dos Frias, é a turma que saiu à rua justamente para denunciar o golpe contra a democracia?

Foi o que acusou o fascistômetro do diário paulistano. Que, convenhamos, está precisando de uma boa checagem pela assistência técnica. Então me pergunto: há quanto tempo mesmo os Frias não submetem seu detector de fascistas a uma revisão geral, ampla e irrestrita? Ou será que, quando o adquiriram, o equipamento já veio com defeito de fabricação?

Inevitável cogitar do problema ao se saber que, já em 1964, o fascistômetro dos Frias batia biela. No dia 2 de abril daquele ano, quando o cadáver da democracia abatida ainda estava quente, o editorial “Em defesa da lei” esbordoava o presidente deposto e suas reformas de base. Clamava contra “o totalitarismo subversivo” e excitava-se com as forças armadas que defendem o “poder constitucional, a lei e a ordem”.

Suspeitava que Jango pretendia “eliminar o Congresso” . Como a História nos ensina, quem mandou o Congresso às favas foi o regime que os Frias saudaram como democrático. Na opinião da Folha, a derrubada de Jango restabelecia “o primado da Constituição e do Direito”!  Naquele momento, o fascistômetro apontava sua agulha para o lado contrário. Pobres Frias!

Editado o AI-5, a Folha sugeriu certa “moderação” no uso da bomba atômica do arbítrio. Porém, no dia 15 de dezembro de 1968, o único artigo destacado na página de opinião trazia o jamegão do jurista Miguel Reale – o pai do junior que pediu a forca para Dilma Rousseff em 2016. Cabeça coroada do integralismo, a versão cabocla do fascismo, Reale atribuiu o crime à vítima. A responsabilidade pelo golpe dentro do golpe era de “estudantes e mestres agitacionistas, padres afoitos e políticos irresponsáveis”.

No dia 30 de outubro, o editorial “Otimismo e confiança” vibrava com a posse de Garrastazu Médici, o que chamou de “o 3º. Governo da Revolução”. A propósito, este é outro probleminha reiterado: a confusão entre “golpe” e “revolução”.

Três anos após a edição do AI-5, com o fascistômetro queimando óleo, os Frias ainda não haviam se dado conta do que estava acontecendo. Em 1971, um de seus jornais, a Folha da Manhã, andava emprestando camionetes de distribuição para os meganhas da ditadura emboscarem suas vítimas. Três camionetes amanheceram incendiadas. A Folha reagiu com o editorial “Banditismo”. Nele, o publisher Octávio Frias de Oliveira exaltava o general Médici e seu governo “sério, responsável e respeitável” e atacava “o terrorismo”. Mirrado e clandestino, o jornalzinho Venceremos, da Ação Libertadora Nacional, chutou-lhe as canelas com o artiguete “Os que mentem ao povo”, descrevendo Frias como “um fascista convicto e colaborador da repressão”. Como se percebe, é o que ocorre quando o  fascistômetro não recebe a correta manutenção…

Mais um ano e mais um chabu no identificador de fascistas. Desta vez, em 1972. Sob o dubitativo titulo “Presos políticos?”, a Folha estampou editorial em 30 de junho escrachando a imprensa internacional. Sustentou que o noticiário negativo no exterior sobre a barbárie das masmorras brasileiras no caridoso período Médici era uma “distorção da verdade”.

Maquinações da esquerda mundial e sua ânsia de “denegrir e de negar a inusitada ascensão de um país que emerge da desordem e do subdesenvolvimento pelos caminhos da livre empresa”. Ulalá! Tive até um arrepio na espinha lendo tão soberbo momento do jornalismo pátrio. Que maravilha, família Frias!

Já era 2009 e quando se pensava que os Frias haviam trocado seu velho fascistômetro analógico por um digital e mais eficaz, eis que a Folha se sai com um editorial bizarro. Crismou a ditadura de 1964 como “ditabranda”. É pouco provável que o termo tenha a concordância da família de Eduardo Coleen Leite, por exemplo. Torturado durante 109 dias, ele foi assassinado em 8 de setembro de 1970.  Seus familiares receberam um corpo com orelhas decepadas, dentes arrancados, olhos vazados, queimaduras e hematomas, dois tiros no peito e dois na cabeça. Tinha 25 anos. Ou, entre tantas famílias, a de Sônia Angel. Que, estuprada com um cassetete, teve os seios retalhados e foi assassinada. Para evidenciar a crônica precariedade do fascistômetro, a expressão fora chupada de um fascista sem titubeios. Em 1983, o ditador chileno Augusto Pinochet, ao definir o regime sanguinário que implantara, declarou: “Esta nunca ha sido dictadura, señores, esta es dictablanda”.

Maldito fascistômetro! Não é possível que sofra panes tão continuadas! Sabemos que a intenção dos Frias é a melhor possível. Devem estar muito aborrecidos. Todo tempo sendo induzidos a erro, logo eles tão democratas. Sempre com esse estorvo provocado pela medição e a localização imperfeita. Troquem de assistência técnica, processem o fabricante, façam algo, por favor. Procon neles, Otavinho!

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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