Golpe e impacto da agenda Temer sobre cidades marcam debate e campos em disputa em Porto Alegre

Debate promovido pelo SIMPA entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre lotou o Teatro Dante Barone. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Debate promovido pelo SIMPA entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre lotou o Teatro Dante Barone. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O debate entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre, realizado no início da noite desta quinta-feira (1°) pelo Sindicato dos Municipários (Simpa), na Assembleia Legislativa, evidenciou a complexa equação política que cerca a eleição municipal na capital gaúcha e em muitas outras cidades do país. Todos os nove candidatos inscritos para a disputa participaram do debate no Teatro Dante Barone, que ficou praticamente lotado e expressou a conjuntura política que o país vive após a derrubada da presidenta Dilma Rousseff, eleita pelo voto popular em 2014. Organizado um dia após a confirmação do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, o debate entre os candidatos foi marcado, do início ao fim, pelos gritos de “Fora Temer!” e “golpista”, dirigidos por militantes do PT e do PSOL principalmente contra os candidatos Sebastião Melo (PMDB) e Nelson Marchezan Junior (PSDB).

Carmen Padilha, diretora de Comunicação do Simpa, conduziu o debate com constantes pedidos ao público para que só se manifestasse após a fala de cada candidato. O golpe contra Dilma Rousseff sobrevoou as mais de duas horas de debate. No início do encontro, ela deixou clara a posição do Sindicato sobre o tema: “A posição da diretoria do Simpa é que, ontem, vivenciamos um golpe de Estado no país, por meio do qual foi retirada do governo uma presidenta legitimamente eleita. O governo que assume tem a clara intenção de colocar sobre as costas dos trabalhadores o ônus da crise, por meio de uma Reforma da Previdência e de uma Reforma Trabalhista que retiram direitos. Neste contexto, a Prefeitura de Porto Alegre deve ser um bastião em defesa das liberdades democráticas e dos direitos dos trabalhadores”.

O peso dessa conjuntura nacional ajudou a organizar o debate com nove candidatos, quatro blocos de intervenções e dois grandes grupos de propostas. As apresentações das candidaturas no primeiro bloco delinearam essas fronteiras e os seus respectivos subgrupos. João Carlos Rodrigues, do Partido da Mobilização Nacional (PMN), abriu sua fala dialogando com os pedidos de “Fora Temer” e defendendo a realização de eleições gerais no país. No plano municipal, defendeu mais respeito às entidades de classe dos servidores que, enfatizou, “tem um conhecimento mais profundo das engrenagens da cidade”. “Governos de conchavos políticos”, defendeu Rodrigues, “não levam à cidade a lugar nenhum”.

Luciana Genro lembrou as recentes denúncias de corrupção e desvio de recursos envolvendo DEP e FASC como uma fonte de sangria de recursos públicos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Luciana Genro lembrou as recentes denúncias de corrupção e desvio de recursos envolvendo DEP e FASC como uma fonte de sangria de recursos públicos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Luciana Genro iniciou sua participação dizendo que se preparou ao longo de 30 anos para este momento, para colocar em prática tudo o que defendeu neste período. “Tenho orgulho em estar em primeiro lugar nas pesquisas. Isso mostra a confiança da população de Porto Alegre na possibilidade de construir um governo diferente, com uma lógica diferente da política tradicional. É possível governar com as mãos limpas, combatendo a corrupção e impedindo que ocorram problemas como os que vimos recentemente no Dep (Departamento de Esgotos Pluviais) e na Fasc (Fundação de Assistência Social e Cidadania)”. A candidata do PSOL também prometeu “fazer um governo de enfrentamento com o governo Temer, que pretende implementar políticas que já vinham sendo implementadas pelo governo Dilma”.

O candidato do PSDB, Nelson Marchezan Junior, foi um dos recebidos com os gritos de “golpista”. O deputado tucano enfrentou essa recepção dizendo que a sua ideia para Porto Alegre é “avançar e não repetir o passado, nem o presente”, repetindo uma clássica estratégia de se apresentar como sendo o representante de algo jovem e novo, espaço discursivo também disputado pelo deputado estadual Mauricio Dziedrick, do PTB, e Fábio Ostermann, do PSL. Para Marchezan Junior, Porto Alegre tem hoje um déficit de serviços públicos. “Temos 22 mil colaboradores para trabalhar em um novo projeto para a cidade. Não tenho nenhum preconceito contra CCs, mas acho que eles estão em um número exagerado”, disse o candidato do PSDB, que defendeu ainda a necessidade de uma reforma administrativa emergencial e a busca de isonomia da distribuição de recursos entre servidores.

No extremo oposto ao discurso do candidato do PSDB, Julio Flores apresentou-se dizendo que sentia muito orgulho de fazer parte da classe trabalhadora e da categoria dos municipários. Em seguida, repetiu a consigna do “Fora Temer”, indo mais longe e defendendo o “Fora Todos”, “todos aqueles que roubaram o nosso país”. “O capitalismo tem uma vocação no mundo inteiro, que é a corrupção. As prefeituras das capitais precisam enfrentar este governo que está aí e temos que aprender uma lição: não podemos nos aliar com os partidos da burguesia como fez o PT”, acrescentou Julio Flores, prometendo fazer um governo apoiado em conselhos populares.

Raul Pont convocou luta contra o golpe e advertiu para impacto de projeto do governo Temer que congela por 20 anos investimentos em saúde e educação. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Raul Pont convocou luta contra o golpe e advertiu para impacto de projeto do governo Temer que congela por 20 anos investimentos em saúde e educação. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marcelo Chiodo, candidato pelo Partido Verde (PV), apresentou-se como alguém que “não vive da política”. “Não sou político de carreira, sou cabelereiro. Fui secretário adjunto do Trabalho e vi a importância da presença na memória no serviço público, que garante a continuidade da prestação de serviços de qualidade entre diferentes governos”. Assim como outros candidatos, Chiodo prometeu diminuir o número de CCs, caso eleito. O candidato do PTB, Mauricio Dziedrick, defendeu, por sua vez, um projeto de revisão da máquina pública, com enxugamento de secretarias e a discussão, junto com o Sindicato dos Municipários, de um plano de carreira para a categoria e de uma estratégia para diminuir a disparidade entre o piso e o teto salarial entre os servidores.

Raul Pont, candidato do PT à prefeitura de Porto Alegre, chamou a atenção para o impacto do golpe contra Dilma Rousseff na vida dos municípios e dos futuros prefeitos e prefeitas. “O que ocorreu ontem foi um golpe parlamentar e midiático, com a participação de um setor do Judiciário, que conspira contra os interesses populares e terá um impacto nas cidades. Temos projetos que tramitam no Congresso, como a Emenda Constitucional 251, que congelam por vinte anos os gastos públicos em educação e saúde, por exemplo. Esse projeto atinge em cheio o trabalho das prefeituras. O golpe foi feito para garantir uma política anti-povo e anti-nação, uma vez que também prevê a destruição de empresas como a Petrobras e a entrega dos nossos recursos naturais. É contra essas políticas que a nossa cidade tem que resistir”, defendeu Pont.

Candidato do PMDB, o vice-prefeito Sebastião Melo foi recebido aos gritos de “golpista” no debate. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Candidato do PMDB, o vice-prefeito Sebastião Melo foi recebido aos gritos de “golpista” no debate. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O atual vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (PMDB), foi recebido aos gritos de “Fora Temer!” e “golpista” e chegou a ameaçar a se retirar do debate. “ Um dos grandes males do mundo hoje é a intolerância, é não saber respeitar as indiferenças. Eu fui convidado para debater o tema dos servidores. Se o debate não é esse, eu vou embora”, afirmou. Mas Melo ficou, admitiu que a cidade tem vários problemas para resolver, mas defendeu o legado dos últimos 12 anos. “Estou neste governo há 12 anos e tenho orgulho disso, ao contrário de alguns aqui”, provocou, fazendo referência às candidaturas de Marchezan Junior e Dziedrick, cujos partidos, PSDB e PTB, estão na base do governo Fortunati.

Ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato pelo Partido Social Liberal (PSL), Fábio Ostermann abriu sua participação no debate com uma “pegadinha”. Ele abriu sua fala dizendo que queria ler uma declaração explicando por que o impeachment não era golpe, leu e foi muito vaiado.  Logo em seguida, disse que a autora da declaração era Luciana Genro. Na mesma linha de Marchezan, Ostermann defendeu uma redução do número de secretarias na prefeitura. “Pretendo rever essas estruturas para fazer com que os servidores públicos façam jus ao seu nome. A ideia é reduzir o número atual para 6 macrosecretarias que articulariam o trabalho de secretarias afins. A Prefeitura não tem condições de abraçar o mundo. O cobertor é curto e os recursos são escassos”, disse.

Em outro bloco, o Sindicato dos Municipários questionou os candidatos sobre o que eles pensavam sobre temas como terceirizações, privatizações, política salarial, meritocracia e direito de greve. Neste ponto, dois grandes blocos apareceram. De um lado, as candidaturas simpáticas às práticas de terceirizações, privatizações e meritocracia. “Temos um modelo de estado paquidérmico que quer alcançar tudo e todos”, criticou Ostermann. “A meritocracia é uma forma de valorizar o bom profissional”, emendou Marchezan. “Não vou fazer concurso público para alguém podar árvore”, disse Melo.

Do outro lado, com diferentes inflexões, Raul Pont, Luciana Genro e Julio Flores criticaram as terceirizações e as privatizações como caminho para resolver os problemas da cidade. “Essas práticas têm como objetivo precarizar as relações de trabalho e enriquecer os amigos dos governos”, disparou Julio Flores. Na mesma linha, Luciana Genro disse que, nos últimos 12 anos, Porto Alegre viveu um processo de desmonte do setor público, com um “processo de terceirização brutal”. Raul Pont, por sua vez, lembrou que, quando o PT esteve na Prefeitura, a Carris foi considerada a melhor empresa de transporte coletivo do país e hoje há quem pense em privatizá-la, como sugeriu o candidato do PSDB. “Nós criamos a EPTC para que ela tivesse o controle da caixa de compensação que, nos governos Fogaça e Fortunati foi entregue para a ATP (Associação de Transportadoras de Passageiros)”, acrescentou.

Com diferentes inflexões, Melo, Marchezan, Ostermann e Dziedrick defenderam a meritrocracia, o empreendedorismo e as práticas de terceirizações e privatizações como caminhos para enfrentar os problemas da cidade. No outro campo, também com diferentes inflexões, Luciana Genro, Raul Pont e Julio Flores defenderam o fortalecimento das carreiras dos servidores públicos e a participação popular como forma de qualificar a gestão e a fiscalização dos serviços públicos prestados à população. A agenda de projetos defendida pelo governo Temer, como a Emenda Constitucional 251 mencionada por Raul Pont, atravessa esse debate sobre as possíveis políticas para enfrentar os problemas das cidades brasileiras nos próximos anos.

As diferenças ficaram bem marcadas. Questionado por um servidor da Secretaria Municipal do Meio Ambiente sobre o favorecimento da especulação imobiliária em detrimento de uma visão mais sustentável de cidade, Marchezan respondeu: “A burocracia está afastando os empreendedores de Porto Alegre. Os imóveis têm que valer bastante mesmo para que o nosso patrimônio se valorize. Vocês precisam abrir mão das pautas de seus umbigos”. Vaiado mais uma vez, o candidato do PSDB se dirigiu a um dos manifestantes. “Deixa eu me eleger, depois tu vai lá gritar ‘Fora Marchezan’ e me incomodar com os teus panfletinhos”.

No debate, uma das perguntas feitas por integrantes da plateia questionou recentes declarações feitas por Marchezan em Brasília, referindo-se a servidores públicos como vagabundos. Pelo sorteio, coube a Raul Pont responder a questão. “Essa conversa da meritocracia no serviço público geralmente se transforma em arbítrio de chefias. A aprovação em concurso público já é um grande mérito e é preciso garantir um processo de formação continuada aos servidores como fizemos com os professores da rede municipal de educação que hoje é uma das mais qualificadas do país”. A falta de segurança na cidade foi outro tema questionado por vários servidores que denunciaram a insegurança nas escolas e as más condições de trabalho da Guarda Municipal que, segundo um servidor, estava trabalhando com coletes à prova de bala vencidos.

O debate se encaminhou ao seu final em um clima tenso, mas ao mesmo tempo esclarecedor, indicando que o debate sobre os problemas presentes e as possíveis soluções de futuro para a cidade está atravessado pela crise política nacional. A relação com o governo Temer e sua agenda política, explicitada com inclinações diferentes pelos três candidatos do campo da esquerda e silenciada especialmente pelos candidatos Sebastião Melo e Marchezan Junior, indicou o quadro mais geral da disputa eleitoral deste ano em Porto Alegre.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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