Dilma d’Arc na fogueira

"Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns dos seus torquemadas". (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

“Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns dos seus torquemadas”. (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

Ayrton Centeno

Sim, aconteceu o que se esperava. “De onde menos se espera é daí mesmo que não vem nada”, pontificou numa de suas tiradas o Barão de Itararé, nome de guerra debochado do gaúcho Aparício Torelli. Queriam o quê? Lisura? Perdão, estamos em falta. Mas temos impostura. É o inverso mas rima. Serve? Aproveite. Sai praticamente de graça. Nosso estoque vai até o teto e estamos em liquidação…

“Se fosse fácil não seria pra nós” costuma dizer outro gaúcho, Olívio Dutra. Não será fácil mas, com certeza, será nossa missão. Entre tanta vergonha, algo nos anima quando se esvai este agosto de maus e confirmados augúrios.

Acontece que uma figura desconhecida da maioria dos brasileiros reapareceu na manhã do dia 29. Veio da história para reentrar na política. Veio dos anos 1970, aqueles chamados, com justiça poética, de anos de chumbo. Veio, mais precisamente, do fundo dos abismos de dor, sangue e humilhação, dos porões da Operação Bandeirante, a Oban, onde fora recepcionada por uma tempestade de insultos – “Mata”, “Terrorista”, “Filha da puta”. Sob socos, pau de arara e choque elétrico, arrastara-se pelas masmorras de São Paulo, Juiz de Fora, Rio e novamente São Paulo.

Em determinado momento, compareceu a um tribunal de exceção – como todos eram, pode-se dizer. Após seis meses de cadeia, foi “legalizada”. Ou seja, passou a existir formalmente como prisioneira política. Um alívio. Era um indicador que não seria assassinada, como tantos companheiros o foram. No processo político-penal, recebeu a alcunha de “Joana d`Arc da Guerrilha”. Era, também, a “Papisa da Subversão”. Dois apelidos que lhe atribuíam importância no interior da sua organização, a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), nome que ecoava lendário levante de escravos no Brasil-Colônia. Era o longo e doloroso inverno de 1970.

Passaram-se 56 anos e Joana d’Arc voltou à cena. E novamente perante um tribunal de exceção. Onde mais vale ter maioria do que ter razão. Onde não importa que sua defesa desmantele a acusação e os acusadores: a sentença havia sido pronunciada antes do processo iniciar. Onde juízes são suspeitos ou acusados de crimes muito mais graves do que aquele imputado à ré: recebimento de propinas, lavagem de dinheiro, fraude em licitações, desvio de recursos, caixa 2 e, até, pedofilia. Onde o chefe de uma família feliz proprietária de um helicóptero carregado com meia tonelada de pasta de cocaína não se vexa de posar de julgador. Onde um processo é apenas um pretexto para o assalto ao poder.

Apesar de tantos pesares, Joana d’Arc engoliu, um a um, seus acusadores. Ao longo de 14 horas, digeriu-os primeiro no café da manhã. Depois no almoço, na janta e não abriu mão da ceia. Espalitou os dentes com seus ossinhos. Mas não arrotou. Manteve-se com contida indignação, elegância, às vezes, ironia.

Para muita gente deve ter sido um choque. Que Dilma era aquela? Não a imaginavam na versão Joana d’Arc. São vítimas – do mesmo modo que a presidenta – da construção arrevesada de um personagem. Com interesses opostos ao governo constitucional, os pet-colunistas do condomínio midiático que define o que Pindorama deve ler, ouvir, ver e pensar venderam ao país uma Dilma ficcional, dada à gafes, ignorante, estúpida até. Erro. Que Dilma tem perfil centralizador e gênio explosivo é sabido. Mas tola? Só mesmo quem não a conhece. Que o diga um de seus julgadores, o senador José Agripino (DEM/RN) que levará vida afora as sequelas de antigo e desagradável embate.

Dilma e Joana são comparáveis por obra e graça do cognome embora não seja a mais precisa interpretação da protagonista atual. Joana, a donzela guerreira de Orleans, era uma menina de 19 anos ao ser julgada e condenada à fogueira por heresia. Foi queimada viva em 1431. As versões cinematográficas de seu julgamento mostram-na prostrada e sofredora. A mais notável de todas, a de Carl Dreyer, de 1928, o filme mudo A Paixão de Joana d’Arc, inova ao alternar as imagens em close do semblante sacrificado da ré com a exploração das faces de seus juízes. Espreita as rugas, esgares e sulcos do rosto sombrio dos algozes. É uma lição de cinema humanista, que distingue a vítima de seus verdugos. Pensa-se em Dreyer quando se sabe que quatro documentários estão sendo gravados no teatro senatorial. Pensa-se em Dreyer principalmente ao cotejar a altivez e o desassombro de Dilma com as panças, as papadas, os cabelos tingidos e os implantes capilares de seus escarrapachados juízes.

Também, ao contrário da jovem francesa, Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns de seus torquemadas de ocasião. Não adiantou. A exemplo de Joana, foi condenada por injunções políticas.

O tempo passou e Joana tornou-se mártir, canonizada pela Igreja Católica e santa padroeira da França. Seus julgadores sumiram na poeira do passado.

Levada a sua fogueira, Dilma deveria arder, consumida pelas chamas até converter-se em cinzas. Vingança completa para que nada mais reste. Há controvérsias. Também sentenciados, humilhados e ofendidos, Getúlio e Jango ignoraram as labaredas. No transcurso das décadas, suas biografias só fazem crescer. No caso da Joana d’Arc de 2016 parece mais plausível que despreze o fogo, caminhe pelas brasas e siga em frente. Atrás de si, um Senado de pigmeus, ao contrário, continuará ardendo, mirrando e se decompondo até ser totalmente tragado como refugo da História.

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