A abertura das olimpíadas e a bruxa

Foi uma espécie de “faz sentido gostar do show e vaiar Temer”. Faz sentido a metáfora e a vaia ao golpista.

Foi uma espécie de “faz sentido gostar do show e vaiar Temer”. Faz sentido a metáfora e a vaia ao golpista.

Por Katarina Peixoto

Os amigos dizem que a abertura das Olimpíadas do Rio foi poderosa, estupenda. Há quem critique, é claro, e pelas mesmas razões, parece, pelas quais outros elogiaram. Foi além das expectativas, foi “verde”, levou a sério a questão de gênero, teve Paulinho da Viola cantando o hino corretamente e teve Caetano, nos bastidores (antes ou após o show que fez), com plaquinnha de Fora Temer. Teve Lea T conduzindo a seleção olímpica brasileira. E teve vaia ao usurpador, aquele que responde pelo mal estar geral, para além de qualquer juízo de gosto, sobre o espetáculo hipócrita e bélico que nos assombra.

Assisti a pedaços da abertura, com as seleções entrando, algumas com uniformes bonitos, outras, horrorosos, como sempre. Vi muito plástico e crianças com mudas de plantas, uma ideia de compensação que passa muito longe da realidade, mas tudo bem, não temos mais tempo de ser chatos: o Brasil vive um golpe de estado e o mundo inteiro sabe. A exuberância da cerimônia de abertura, preparada com e apesar da crise do país, não vai resolver nem representar o que não tem governo, embora tenha tido. O Rio de Janeiro decretou calamidade pública e está rifando uma das melhores universidades do país e sua rede escolar e de saúde, entre outras coisas, para garantir esse espetáculo e o saque impune que o precedeu.

Não tem metáfora (mesmo que, parece, a abertura esplendorosa tenha mandado bem nas metáforas), que expresse o caráter bizantino do Brasil, hoje. O país teve sua metáfora interdita, pelos delinquentes comuns e estamentais que viabilizaram e viabilizam a consumação de um golpe de estado que tem por corolário o fechamento da democracia. A metáfora é aliás tão interdita que, das crianças com mudinhas nas mãos, muito poucas eram negras. Segundo os golpistas, ser negro hoje depende de uma banca de averiguação. Sem metáforas, por favor. Metáfora é uma coisa que prejudica as mesóclises da entrega do Pré-Sal.

Houve Copa e há Olimpíadas no Brasil porque Lula e o Itamaraty de um país soberano e ávido por soberania tornaram isso possível. O atual desarranjo e a degradação político-institucional que vivemos não desgraçou um show preparado há anos, mas furou muitas barreiras de plásticos e câmeras. Sabemos bem que absolutamente tudo o que provocou orgulho na abertura deriva de uma agenda democrática, escondida e sabotada pelos golpistas, dia sim e outro, também: o reconhecimento da dignidade dos LGBTS, a força do sertão brasileiro, de onde saiu a maior atleta de triatlon da nossa história, as bicicletas (cheias de plástico, mas bicicletas), conduzidas por todas as cores e tipos, muitas mulheres tratadas com respeito, crianças com mudas de plantas, a promessa de uma floresta futura, não encontram relação identitária mínima com o governo usurpador pós-golpe. É claro que isso não é tudo: há milhares de famílias demovidas, vidas destruídas, impacto ambiental severo, baixa qualidade das obras de infraestrutura, legado passivo mais que ganho em bem estar, etc, etc. Isso também entra na conta do lulopetismo, afinal, a aliança com o PMDB tornou ambas as coisas possíveis, numa bizarra balança garantida pelo maior dirigente popular da nossa história.

Como ia dizendo, não assisti a todo o show, e provavelmente serei pouco assídua no espetáculo que se inicia, embora goste de esportes, jogos, olimpíadas e Usain Bolt. Ontem à noite, depois de uma semana dedicada a mais um projeto que não sei se merecerá uma bolsa de pesquisa, decidi ver um filme de terror. Penumbra, Segunda Guerra, abrigos antibombas, crianças órfãs, casas abandonadas e uma bruxa fantasma, que mata criancinhas e aterroriza a quem a descobre. O enredo prometia uma série b certa, gratuita, para quem está em desapego dessas coisas já tão feias, lá fora, na televisão, e no mundo que resiste à televisão. Claro que o filme é ruim, mas seu argumento merecia um filme bom: a bruxa má, na verdade o fantasma de uma mãe que teve seu filho arrancado de si, por ser bastardo, assombra a todas as mães que abandonaram filhos, e mata uma criança a cada vez que for descoberta. Essa infeliz fantasma virou uma bruxa: devora inocentes e faz os culpados se enforcarem em culpa e desespero. O detalhe é que o enredo fundador do horror presente se deu na Primeira Guerra. É um recado para nós: as dores e o horror da Segunda Guerra são provocadas pelos fantasmas da Primeira. Os filhos não reconhecidos, os filhos abandonados, as crias largadas, os responsáveis enforcados, a destruição e o suicídio das nações, essa invenção tão bem arregimentada pelo útero, pela maternidade, nos filmes e narrativas sobre guerras.

Como o filme era muito ruim, acionava com frequência o telefone e acompanhava os amigos falando da abertura das olimpíadas. Alguns tiravam dúvidas que eu tinha. Outros estavam desconcertados com a própria alegria em ver o quanto estava bonito, o show. Voltava ao cemitério da Primeira Guerra, naquela ilha ao norte de Londres, a névoa, o roteiro lutando para se sustentar naquele filme tão ruim. Então, veio a notícia da vaia ao Temer, a festa que a irrupção da verdade é capaz de promover, antiespetacular, antimercantil, absolutamente espontânea, ineditável, inescondível pela televisão das famílias usurpadoras da mídia familiar, que dirige o golpe e comanda a agenda golpista. Foi uma espécie de “faz sentido gostar do show e vaiar Temer”. Faz sentido a metáfora e a vaia ao golpista.

Para quem foi criança durante a ditadura militar e cresceu e virou gente na redemocratização, hino nacional e bandeira do Brasil não são símbolos agradáveis. A marca de hipocrisia, saque ao erário, obscurantismo, ridículo, violência e militarismo parecem manchas que nunca sairão desses símbolos. Talvez por isso nunca tenha parado para aprender o hino, e nunca tenha levantado ou tido uma bandeira do Brasil. Nacionalismo costuma ser defendido por hipócritas, sejam militares, sejam civis. É incrível como nacionalismo consegue ser o avesso do interesse nacional, e a rifa do Pré-Sal pelos golpistas expressa de tal maneira isso que nem carece de metáfora. Na ditadura era o alinhamento bocó e a subserviência delinquente aos EUA, inclusive no quesito tortura de resistentes políticos.

A cerimônia das olimpíadas mostrou o Brasil com a sua cara, como aliás nenhuma aparência jamais engana. Ainda podemos vaiar, e a modelo trans escondida pela Rede Globo está a salvo. Enquanto a Bruxa, aquela, a nossa, das bandeiras e ordem e progresso, não levar as crianças e os que a denunciam, para as trevas.

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