As eleições municipais e a “normalização” do golpe

normalidadeDe desatenção também se morre. Nas últimas semanas, lenta e mais ou menos silenciosamente, o golpe patrocinado por Michel Temer e seus aliados começou a ser alimentado por um processo de “normalização” que, aos poucos, foi se alastrando também entre os combatentes do golpismo. Alguém já disse que, muitas vezes, os grandes acontecimentos são silenciosos e sutis. As massivas manifestações de rua para denunciar o governo ilegítimo e espúrio de Temer diminuíram de intensidade nas últimas semanas. Várias razões são apontadas para isso: ninguém aguenta tanta mobilização por tanto tempo, necessidade de uma reavaliação da conjuntura, bombardeio midiático em favor de uma retomada da “normalidade” no país, proximidade das eleições municipais, entre outros.

O fato é que os dias foram se passando e a denúncia do golpe começou a ser sutilmente substituída por propostas de novas eleições, plebiscito e, de maneira cada vez mais visível, pela agenda das eleições municipais deste ano. Aliados até há bem pouco tempo na denúncia do golpe nas ruas, começaram a trocar farpas e ofensas nas redes sociais como se o centro da conjuntura neste momento fosse, por exemplo, a disputa entre o PT e o PSOL nas eleições municipais. Há quem ache que seja mesmo, obviamente. Em páginas nas redes sociais convocando eventos contra o golpe, disputas eleitorais diretamente ligadas ao pleito deste ano começaram a minar a unidade que, até há bem pouco tempo, garantiu mobilizações massivas nas ruas. O culpado, é claro, é sempre o “lado de lá”, acompanhado de acusações de sectarismo, traição, etc.

O fato é que os dias foram se passando e a unidade contra o golpe e em defesa da democracia começou a ser minada por disputas relacionadas às eleições municipais deste ano, entre outras coisas. A dificuldade em perceber que o centro daquilo que está ameaçado é a democracia e um conjunto de direitos conquistados arduamente nos últimos anos ajuda a entender também a relativa facilidade com que o espúrio e ilegítimo governo de Michel Temer foi se instalando. A ausência de direção política sempre cobra o seu preço e a fatura pode ser bem alta. A dificuldade em entender que o centro da conjuntura política hoje não é a disputa envolvendo partidos como PT, PCdoB e PSOL, mas sim a defesa da democracia, de direitos humanos sociais e trabalhistas e de políticas públicas como o Mais Médicos ou o Bolsa Família é o maior indicador de ausência de uma direção política à altura dos problemas e desafios do presente.

Essa ausência é um dos principais trunfos com que Temer conta para dar continuidade ao seu governo espúrio e ilegítimo. Quanto mais as disputas eleitorais municipais dividirem aqueles que estavam juntos na rua contra o golpe, mais ganha a força o processo de “normalidade” que, a cada dia, ganha novos ingredientes. Quanto mais as disputas eleitorais centralizarem o debate e as energias dos envolvidos, mais “normalidade” teremos. É uma falsa normalidade, obviamente. Temos professores sendo afastados e demitidos pela expansão do embuste ideológico fascista chamado “Escola Sem Partido”, um físico argelino naturalizado francês sendo deportado do país por uma acusação de “terrorismo” extremamente frágil e duvidosa, para dizer o mínimo, militantes do MST sendo presos acusados de integrarem uma “organização criminosa”, jornalistas sendo presos e acusados por estarem realizando seu trabalho como aconteceu recentemente com Mateus Chaparini em Porto Alegre. Tudo isso, e muito mais, está acontecendo agora, por todo o país. Não há nenhuma normalidade, portanto, a não ser aquela que o governo espúrio de Temer e seus serviçais midiáticos tentam vender ao país.

O debate central, portanto, não é “a cidade que queremos” ou quem é o portador da novidade para as eleições deste ano, ou quem tem mais condições eleitorais de vencer. O que está em jogo é a democracia, a liberdade, a liberdade de expressão, a distribuição de renda, o combate à desigualdade social, a integração dos povos latino-americanos, as nossas empresas públicas e seu patrimônio, entre outros temas, não menos importantes. A dimensão de tudo isso é suficientemente grande e importante para subordinar disputas eleitorais e rivalidades que se tornam quase irrelevantes diante de tudo o que está em jogo. De desatenção também se morre. A arte da atenção não é simples, de fato. Ela exige práticas e valores que nem sempre encontram a desejável acolhida na política: visão de longo prazo, grandeza, generosidade, espírito de unidade e de agregação.

Muita gente que viveu 64 olha preocupado para o presente, identificando a presença de velhos fantasmas. Esses fantasmas também se alimentam da nossa desatenção que pode se manifestar de muitas maneiras. Uma delas é colocar aquilo que nos separa acima daquilo que nos une. É uma escolha simples que costuma ser feita silenciosamente. O que vamos privilegiar: o que nos separa ou o que nos une? A resposta a esta pergunta dirá o que pensamos sobre a natureza do enrosco em que estamos metidos. A trajetória da Frente Ampla, no Uruguai, já nos deixou alguns ensinamentos sobre isso. Nunca é demais ouvir e “reouvir”…

“Lo que importa es lo que nos une, no lo que nos separa” (Um dos lemas da campanha da Frente Ampla, no Uruguai, em 2009)

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6 ideias sobre “As eleições municipais e a “normalização” do golpe

  1. Antônio Prado

    Eh meu caro Marcos. A ideologização e partidarização do Judiciário, MPF, MPEs, e Polícias Federal e estaduais vai produzir décadas de retrocesso nas lutas sociais que resultaram em algumas conquistas que se volatizarão com a elite mais corrupta que acessou de forma espúria o governo da república. O atraso vai se impor com roupagem de ‘muderno’. Fim da CLT, criminalização dos movimentos sociais, extermínio de povos originários, liberdade de empreender a qualquer custo, entrega de nossas riquezas. Mas na política sempre temos responsáveis. O PT acuado pelas práticas nada republicanas de alguns dos ‘seus’ se recolhe para preservar Lula. Dilma vai lutar sozinha sem capacidade de mobilização para retomar o mandato. Voltar ao governo seria trágico no quadro desse cenário de desmanche. Não haverá tempo de reconstrução. Esperar 2018 para fazer o que mesmo? A história não se repete, ou melhor, como farsa ou como tragédia. A ver.

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  2. Milton Pomar

    Marco,
    A situação atual decorre muito mais da falta de lideranças nacionais de esquerda combativas, que articulem ações de massa, continuando a pressão popular até a queda do presidente da República interino e do seu governo golpista, do que propriamente das eleições municipais. Elas estão no calendário eleitoral, temos que participar, mas não as responsáveis pela inação das lideranças formais dos partidos. Quanto ao PSOL, ali o problema é bem outro.
    É importante destacar que se houvesse mais esquerdistas com coragem para se candidatar a deputado e deputada, estadual e federal em 2014, não teríamos chegado ao caos atual, 80% dos parlamentos tomados por negociantes de todo tipo.
    Saudações campanheiras,
    Milton Pomar

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  3. JAIME RODRIGUES

    Não resta dúvida que o quadro político mudou. Toda as forças progressistas necessita adaptar-se a esta situação, rever (e publicamente) as sua trajetória recente, os seus aspectos positivo e a dificuldade em apresentar soluções posteriores. Isto nos conduziu a uma repetição com o seu passado, muito positivo sem dúvida, mas sem mostrar caminhos novos para um novo período. Hoje, e desde já algum tempo, o panorama é grave, não por crise, como dizem os conservadores, inclusive para “justificar” suas posições anti-populares e anti-democráticas que vem aí. Temos dificuldades, na estrutura do histórica do Brasil, mas a direita entende diferente, é só dar um jeito, ser eficiente. A primeira pergunta é saber se virá o investimento do exterior que eles justificam. O recurso será a venda da PETROBRÁS?, digo que tenho dúvidas. E aos trabalhadores, além do conjunto de medidas altamente anti-populares que mais virá? Eles dizem, vejam o tal de “Ponte para o Futuro…”, que haverá investimentos do exterior e haverá comércio de exportação(nem falam em mercado interno). Concorrer com a China…Vamos lembrar em 64 os primeiros passos foram negativos para a ditadura, tivemos as primeiras greves e movimentações de rua. Depois houve investimento em função de uma situação externa, não erá negativa como hoje e era mais barato investir e produzir aqui. Houve o AI 5 e outras coisas mais. Não haviam eleições e muito mais. Ocorre que além disso o Exército e a Igreja que haviam apoiado a ditadura tinham aparência moral muito superior que o governo atual e seus apoiadores para garantir esta situação.. Não resta dúvida que o quadro é outro, mas vamos ver sua evolução. O governo atual não tem nem 100 dias para ser avaliado.

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  4. Antônio Augusto

    Muito bom texto, Marco. O central é a luta contra o golpe. Um novo período se abre após o 17 de abril. Priorizar eleitoralismos, reboquismos em relação ao inimigo de classe, nos governos e fora dele, como fizeram à exaustão o PT e, em menor grau, o PCdoB, estão entre as principais razões que nos levaram à insuficiente reação popular ao atual golpe. Comportamento que se evidenciou bastante na eleição para a Presidência da Câmara, quando a maior parte das bancadas do PCdoB e do PT votaram, no segundo turno, num golpista demotucano como Rodrigo Maia. Mas não só esses partidos, há cretinismo parlamentar também no PSOL, além de problemas de natureza diversa, assim como nos demais agrupamentos de ultra-esquerda. Então, minimizar o golpe diante das eleições municipais, é a continuação do eleitoralismo anterior, do cretinismo parlamentar. Fica difícil, por exemplo, quando Lula, no pré-lançamento de Jandira Feghali à prefeitura do Rio, faz um longo discurso, e não fala uma vez a palavra golpe. As eleições, e eventuais próximas administrações e mandatos, devem estar a serviço da vitória contra o golpe. Abraços, Antônio Augusto

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  5. Analúcia medeiros

    ..e assim como ficamos?
    Moro numa cidade pequena, corrupta governada por comadres que se alternam no poder. Venho discutindo a possibilidade de participar através de um projeto cultural que poderia ser oferecido aos candidatos como forma de compromisso. Mas, não estarei legitimando essa esquizofrenia toda.
    Como eleitor de uma cidade de 2500 habitantes na sede , o que fazer?

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