Banzé em Brasília

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Ayrton Centeno

Muitas versões se engalfinham para designar quem dá o tom do governo Michel Temer. Uns dizem que é Eduardo Cunha quem manipula os cordéis, outros juram que as ordens são da Fiesp, uma turma sustenta que vem mesmo das corporações de mídia, enquanto há quem assegure que se trata de um consórcio de tudo isso. Todos se acham certos mas todos estão errados. Quem dirige Temer e seu elenco é Mel Brooks.

Só ele tem o condão de subverter tão radical e sistematicamente o significado das coisas, transformando-as no seu exato deboche. O diretor escrachou todos os gêneros: os filmes de horror com O Jovem Frankenstein, os de suspense com Alta Ansiedade, os faroestes com Banzé no Oeste, as odisseias interplanetárias com S.O.S – Tem um Louco no Espaço, os épicos com História do Mundo- Parte 1. Logo, sob sua direção, um governo fatalmente se converte em completo e absoluto desgoverno. Tudo se transmuta. O notável vira ordinário; a virtude, hipocrisia; a seriedade, escárnio; a lucidez, obscurantismo. E tudo descamba para a chacota. Uma gestão em indigestão.

Sob Brooks, tudo que é sólido desmancha no ar. O que vale para a administração interina, mesmo se sabendo que solidez é palavra bastante inadequada para descrever o vácuo. O Desgoverno Temer, de Mel Brooks, em cartaz diariamente no Brasil e no mundo, é obra aberta, revolucionária, realizada e apreciada em tempo real, onde o ingresso é caro e a galhofa um direito do espectador, embora o riso seja muitas vezes amargo, empanado pelo rilhar dos dentes.

Quem, senão Brooks, encenaria o encontro de um ministro da Educação com o astro do filme Foda Radical? Ator também de Fazendo Sacanagem e outros momentos sublimes da nossa cinematografia? E estuprador confesso? Patrioticamente, o Marlon Brando sem manteiga que nos coube foi levar ao titular da pasta, de apelido Mendoncinha, uma proposta para fecundar a educação no Brasil. E não menos patrioticamente, Mendonça Junior o agasalhou. Brooks não avançou nos detalhes mas a velha cartilha de alfabetização ganharia, enfim, aquela frase “Ivo viu a uva da Eva” ou “Vovó viu o ovo do Ivo”. Tudo isso, claro, para aquecer o clima de descontração entre as criancinhas.

Quem, exceto Brooks, nomearia para secretário nacional de futebol do Ministério do Esporte o ex-deputado Gustavo Perrela. No futebol brasileiro, até a nomeação, o termo “Pó de Arroz” identificava o glorioso Fluminense. Não é mais tão preciso assim. Uma das virtudes do pai do novo secretário, senador Zezé Perrela, é ser amigo íntimo de Aécio Neves. Uma das não exatamente virtudes do novo secretário é ser o feliz proprietário do helicoca, o helicóptero apreendido com quase meia tonelada de pasta de cocaína. Portanto, cuidado você quando gritar “Vai, Pó de Arroz!”, poderá acabar mal compreendido. Brooks criou mais essa lambança semântica.

Alguém, a não ser Brooks, montaria um ministério sem mulheres ou negros num país onde negros e mulheres são maioria? Apenas integrado por velhos, brancos e ricos? E corruptos? Aliás, só poderia ser arte do zombeteiro indicar para ministérios 16 políticos que respondem ou responderam a processo. E três deles já foram para o beleléu. E mais irão. Brooks adora mesmo o clichê da República das Bananas. É uma forçação de barra, mas sempre funciona.

Quem, excluído Brooks, urdiria aqueles leros entre Machado, Jucá, Sarney e Renan? E as tiradas, então? “O Aécio vai ser o primeiro a ser comido!” Ou “Todo mundo na bandeja pra ser comido”. E mais: ‘Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra estancar essa sangria” ou “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Com tudo, aí parava tudo. É, delimitava onde está, pronto”. É diálogo sussurrado, de filme noir, vagabundíssimo, mas noir. É o velho Mel deitando e rolando no decadentismo das elites macunaímicas.

Só mesmo Brooks para escolher um tal André Moura para liderar o governo na Câmara. Moura, qualquer Google sabe, foi condenado por gasto indevido de dinheiro público e defende projetos que cerceiam direitos das mulheres e, por cima, está enrolado na Lava-Jato. E, como se fosse mixaria, é investigado por homícídio! Ei, Mel, agora você extrapolou!

Não imagino ninguém senão Brooks, para colocar na mansão carioca de Eduardo Cunha – razão de ser da presidência Temer — o safado número 171. Aquele que, no Código Penal, contempla o estelionato. Que Cunha ocultou com uma plaquinha gravada com número inexistente no quarteirão, o 173… Quem, a não ser o judeu sarcástico, aprontaria essa para nossa maior reserva moral?

Quem, acham vocês, inventaria José Serra como chanceler? Piada de Brooks, claro! Quem o conhece sabe que Serra tem mais chances de sucesso gritando “Parmera!” no meio da Gaviões da Fiel do que bancando o diplomata. No primeiro mês, xingou os vizinhos, brigou com a Organização Mundial do Comércio e ressuscitou o complexo de vira-lata ao afirmar seu desinteresse pela conquista de uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. “É briga de gente grande”, explicou. É mesmo. Não é para um Serra qualquer.

Sem contar Brooks, quem mandaria Temer atender o presidente argentino Macri que estaria ao telefone, afoito por cumprimentá-lo? Temer foi e saiu hablando num portunhol de cortar os pulsos. Não era Macri. Era um radialista da rádio El Mundo. Era uma gafe. Na Argentina, houve quem achasse graça no fato de Temer trocar um locutor por um presidente. Mas não há nada de novo nisso. Aqui mesmo, também há pessoas que confundem Temer com um presidente.

Quem criaria um logotipo para o governo intestino (sim!) engolindo cinco das 27 estrelas que representam os estados do Brasil? E igual àquela usada sob a ditadura civil-militar? Para reforçar ainda mais o clima bananeiro-republicano, quem convenceu Temer a adotar um slogan surrupiado de um cidadão que está preso em regime fechado por tentativa de homicídio? Esse Brooks…

Em seu perfeito juízo quem imaginaria um criacionista no Ministério da Ciência e Tecnologia? Brooks, of course! Saiu de sua cachola instruir Temer a remeter o bispo Marcos Pereira, da Igreja Universal do Reino de Deus, para ensinar à ciência que Deus fez o céu e a terra em seis dias, nela colocou Adão e Eva para gerarem a raça humana e que os dinossauros foram barrados na arca de Noé porque a lotação estava esgotada.

Brooks fez muito mais e, pelo andar da carruagem, mais fará. Espera-se que, para encerrar a pantomima com fecho de ouro, produza um final tão catártico quanto o de Banzé no Oeste. Nele, um estúdio onde almofadinhas de cartola, bengalas e luvas brancas filmam um musical vem abaixo, devastado por uma horda maluca de caubóis trocando tiros e sopapos. A ficção zoando a ficção. Não seria mau se Brooks engendrasse um desfecho do gênero para o seu Banzé em Brasília. Mas com a realidade das ruas invadindo a realidade ficcional que nos foi imposta. Mulheres, negros, jovens, índios, pobres, homossexuais, transsexuais e o escambau, a plebe rude enfim, derrubando as paredes do set onde se representa a tragicomédia de uma administração. Então poderemos, livres daquele travo ácido, rir de tudo isso. Dessa palhaçada soturna que nos deprime, oprime, rebaixa e envergonha.

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