Trago Comigo: na contramão do esquecimento

A pauta de Tata Amaral, já tratada no excelente “Hoje”, vai na contramão do esquecimento imposto pelo arranjo da Anistia de 79. (Foto: Divulgação)

A pauta de Tata Amaral, já tratada no excelente “Hoje”, vai na contramão do esquecimento imposto pelo arranjo da Anistia de 79. (Foto: Divulgação)

Rafael Guimaraens (*)

Quando propôs uma série de TV, em 2009, sobre um diretor teatral que monta uma peça sobre sua experiência da luta armada contra a ditadura, a cineasta Tata Amaral ouviu coisas do tipo: “Por que tratar disso?”, “Ninguém mais quer saber desse assunto”. A estreia do longa-metragem “Trago Comigo”, montado a partir da série, em pleno 2016, quando um golpe institucional destituiu a presidenta eleita e o discurso da ditadura é retomado sem pudor, mostra a absoluta pertinência do tema.

O filme é forte, sensível e profundamente humanista, com excelentes atuações de Carlos Alberto Ricelli e seus jovens acompanhantes. E traz depoimentos reais de vítimas de torturas. A pauta de Tata Amaral, já tratada no excelente “Hoje”, vai na contramão do esquecimento imposto pelo arranjo da Anistia de 79, urdido pelos representantes da ditadura agonizante e de um Congresso dócil, que enfiou as mazelas do período autoritário – torturas, mortes, perseguições, censura, vidas destroçadas, gerações perdidas, o país tutelado – para baixo do tapete, com a cumplicidade da mídia. Quantos editoriais foram escritos saudando aquele arremedo de Anistia como “conciliação nacional”, quando justamente o papel dos jornais seria o de informar?

O Brasil perdeu ali sua grande oportunidade de construir seu futuro livre de fantasmas e assombrações. Recentemente, a consciência nacional foi esbofeteada pelo deputado Jair Bolsonaro, que dedicou seu foto pelo impeachment ao símbolo da perversidade da ditadura, o coronel Brilhante Ustra, que não apenas ordenada a tortura, mas participava das sessões, dando vazão aos seus instintos doentios. Tivesse o país enfrentado a questão dos crimes da ditadura, Bolsonaro seria imediatamente preso por apologia ao crime.

No filme, ao orientar os atores da peça que interpretarão o papel de policiais em uma cena de tortura, o personagem principal lhes diz: “Ponham para fora o que existe de pior, de mais perverso e cruel dentro de vocês”. O canto de sereia da ditadura é ouvido nas águas turvas e enevoadas da desinformação e da amnésia coletiva. De perto, as sereias sedutoras têm as caras de Brilhante Ustra, Sergio Fleury, Jair Bolsonaro e tantos outros criminosos que jamais pagaram por seus crimes.

Ainda há tempo. No filme, além de lembrar sua história de vida – a história do país – o personagem de Ricelli deve enfrentar o debate com seus jovens atores sobre temas obtusos que persistem na desinformação geral como “excessos dos dois lados” e coisas do tipo. “Trago Comigo” é bem vindo porque traz consigo a memória que deve ser permanentemente alimentada pela Cultura, pela Educação, pela Política, como um direito da cidadania. Que não se esqueça para que nunca mais aconteça.

(*) Rafael Guimaraens é jornalista

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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