Estudantes vítimas de violência política em Jaguarão são obrigadas a mudar de casa

Carolina Schiffner e Suanne Carvalho relataram a situação que estão vivendo na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Carolina Schiffner e Suanne Carvalho relataram a situação que estão vivendo na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

As estudantes Carolina Schiffner e Suanne Carvalho que, juntamente com um amigo, foram vítimas de uma agressão, no município de Jaguarão, na noite da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, foram obrigadas a mudar de residência, adotar rotas diferentes para ir à Universidade Federal do Pampa e parar de sair. No dia 17 abril, quando estavam voltando para casa após acompanhar a votação da Câmara na sede municipal do PT, elas foram hostilizadas e perseguidas por uma mulher e um homem identificados como defensores do impeachment. Régis, amigo das estudantes, foi ferido na cabeça com um pau com pregos na ponta, carregado pela mulher em questão, que também derrubou o muro da casa de Carolina e Suanne na noite daquele domingo.

Os problemas das estudantes não pararam por aí. Elas registraram ocorrência na polícia e o amigo fez exame de corpo de delito no mesmo dia da agressão. O fato também foi comunicado à Ouvidora Geral da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, Denise Dourado Dora, no dia 20 de abril. Alguns dias depois, o homem que participou da agressão foi visto pelas estudantes rondando a casa onde moravam. Elas decidiram mudar de residência e chegaram a pensar em cancelar a matrícula na Unipampa e ir embora de Jaguarão por um tempo. Carolina é de Porto Alegre e estuda Pedagogia, enquanto Suanne é de Olinda (PE) e estuda Gestão Cultural na Unipampa. A mãe de Suanne viajou para Jaguarão para ficar um tempo com as duas, que decidiram concluir seus cursos.

Carolina e Suanne relataram nesta quarta-feira (25), na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha, as agressões sofridas e o impacto que elas provocaram em suas vidas. Na noite em que um dos agressores foi visto rondando a casa delas, o gato de Suanne desapareceu e nunca mais foi visto. Ela não sabe se o desaparecimento tem relação com o caso, mas o ocorrido contribuiu para aumentar a preocupação de ambas com a própria segurança. “Desde aquele episódio, nunca mais voltamos para aquela casa. O nosso percurso para a Faculdade sempre muda e não saímos mais”, relatou Suanne. Segundo a delegada Juliana Ribeiro, responsável pelo caso, o homem e a mulher já foram identificados e o inquérito deve ser concluído nos próximos dias.

Após relatarem o caso, as estudantes conversaram com os deputados Zé Nunes (PT), Catarina Paladini (PSB), Pedro Ruas (PSOL), Miriam Marroni (PT) e Jeferson Fernandes (PT). Catarina Paladini defendeu a responsabilização dos agressores como um elemento pedagógico para evitar que novos casos como este ocorram no momento em que o país vive um período de turbulência política. A mesma posição foi defendida pelo deputado Zé Nunes que destacou a importância que a Comissão de Direitos Humanos deve assumir no próximo período, em virtude da multiplicação de manifestações de intolerância e de discursos de ódio. Pedro Ruas ouviu o relato das estudantes e identificou um erro no processo do exame de corpo de delito. Não houve a realização de novo exame após 30 dias, como preconiza a lei. “Esse exame é feito, pois, se resta alguma sequela após esse período, muda o enquadramento do crime e também a pena”, assinalou.

A deputada Miriam Marroni sugeriu a ida de um grupo de parlamentares de vários partidos a Jaguarão para conversar com representantes da universidade, do Ministério Público e da polícia. Essa visita, em princípio, deverá ocorrer na sexta-feira da próxima semana. Ao final do encontro, o deputado Jeferson Fernandes anunciou os encaminhamentos que a Comissão de Direitos Humanos deverá tomar na próxima semana que, além da viagem a Jaguarão, incluirá uma manifestação oficial, junto ao Chefe de Polícia do Estado, defendendo a apuração do caso e a responsabilização dos envolvidos.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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Uma resposta para Estudantes vítimas de violência política em Jaguarão são obrigadas a mudar de casa

  1. Boa noite!
    A violência contra a mulher é algo secular e impregnado na história do Brasil. Apenas após muitas décadas de lutas e reivindicações, passou-se a ter agendas políticas específicas em sua defesa.Durante todo o período colonial, imperial e, significativa parte do período republicano, não houve uma única lei específica de proteção de gênero. Aliás, a agressão não vinha somente da sociedade. Veio também do Estado. [Continue lendo…]

    https://collegiumconsultoria.wordpress.com/2016/05/27/cultura-machista-no-brasil-a-fragilidade-de-seguranca-a-mulher-em-contextos-misoginos/

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