Em Passo Fundo, estudantes ocupam escola para debater problemas da educação e da vida

Na escola estadual Adelino Pereira Simões, em Passo Fundo, os alunos que se revezam para ocupar a escola durante o dia e durante a noite estão debatendo problemas que enfrentam no cotidiano. (Foto: Fernanda Cacenote)

Na escola estadual Adelino Pereira Simões, em Passo Fundo, os alunos que se revezam para ocupar a escola durante o dia e durante a noite estão debatendo problemas que enfrentam no cotidiano. (Foto: Fernanda Cacenote)

Ingra Costa e Silva

Se engana quem acha que quem está ocupando escola não está aprendendo nada. Ao menos na escola estadual Adelino Pereira Simões, em Passo Fundo, os alunos que se revezam para ocupar a escola durante o dia e durante a noite estão aprendendo muitas coisas que vão levar para o resto da vida.

As aulas de português e de matemática foram suspensas temporariamente para dar espaço à discussão da educação precária mantida pelo governo do estado. Os estudantes que muitas vezes preferiam perambular pela escola do que ficar em sala de aula, estão mais responsáveis e maduros. A experiência da ocupação trouxe uma realidade diferente para dentro da escola e os jovens de 14 a 17 anos sabem muito bem pelo que estão lutando.

“Ocupamos a escola para reivindicar melhorias para a nossa escola, além de que se faça uma revisão no sistema de ensino e no trato que se dá aos professores. Temos professores que nem receberam o décimo terceiro. Além de ganhar pouco são ainda mais desrespeitados quando recebem parcelado”, pontuam.

Todos os dias os estudantes, que estão atuando em conjunto com os professores estaduais em estado de greve desde a última semana se reúnem no final de cada dia para decidir as próximas ações. Eles ainda realizam conversas e debates sobre diversos assuntos que possam acrescentar na sua formação.

As aulas de português e de matemática foram suspensas temporariamente para dar espaço à discussão da educação precária mantida pelo governo do estado. (Foto: Fernanda Cacenote)

As aulas de português e de matemática foram suspensas temporariamente para dar espaço à discussão da educação precária mantida pelo governo do estado. (Foto: Fernanda Cacenote)

Na tarde do último sábado (21) os estudantes da escola receberam integrantes do Coletivo Feminista Maria, Vem Com as Outras! para uma roda de conversa sobre relacionamentos abusivos, que são aquelas relações onde predomina o excesso de poder sobre o outro, o “desejo” de controlar o parceiro e de “tê-lo para si”.

Aos poucos os casos de ciúme e possessividade exagerados presenciados pelos estudantes foram sendo revelados e colocados para debate. Muitos se emocionaram ao relatar situações vividas pela própria família. Tanto meninas quanto meninos comentaram já ter vivido um relacionamento desse tipo, fosse com namorados ou com membros da família. Cientes de que esse tipo de atitude pode resultar em um feminicídio, por exemplo, eles foram informados sobre quais as medidas legais a serem tomadas quando se vive esse tipo de situação.

Para a presidente do grêmio estudantil da escola, Izadora Paixão, a conversa foi produtiva e deve surtir resultados dentro do grupo, que já identificou atitudes abusivas por parte de um colega e se comprometeu em realizar intervenções para que abusos de nenhuma espécie aconteçam. “A conversa com as meninas do coletivo foi muito produtiva. É bom poder contar com quem tem algo a nos ensinar e, muitas dessas atitudes que configuram um relacionamento abusivo muitas vezes são tratadas como normais por nós, que já naturalizamos. A conversa trouxe um ponto que nunca tínhamos discutido dentro da escola, mesmo muitos já tenho tido experiências seja na nossa vida ou vendo os membros da família”, disse.

A estudante universitária Andressa Braga, uma das integrantes do coletivo feminista, reforçou a legitimidade do movimento secundarista que ocupa escolas em todo o país reivindicando uma educação pública eficiente e de qualidade. Ela ressaltou a importância da conversa com os alunos que tratou sobre abuso em relacionamentos. “É sempre válido poder ocupar espaços como a escola para falar sobre relacionamentos abusivos e feminismo, já que é dentro desses grupos que os adolescentes começam a formar suas opiniões e perceber certas atitudes que
muitas vezes são neutralizadas pela sociedade e consideradas naturais, quando na verdade pessoas morrem todos os dias por naturalizarmos tais ações”, disse.

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