Sob o triunfo do golpe, um brinde ao imprevisível

 

Foto: Lula Marques/Agência PT

Foto: Lula Marques/Agência PT

Marcelo Danéris

Na noite desta quarta, diante de mais um fracasso da nossa democracia, lembrei uma cena do filme “A Casa dos Espíritos”, baseado na novela da escritora Isabel Allende. Nela, o protagonista Esteban Trueba, um senador latifundiário e conservador, sentado em frente à TV que retransmite as cenas da deposição do presidente do Chile, Salvador Allende, faz um brinde solitário ao golpe de Estado, levantando uma taça de champanhe. Lembrei-me de Temer, sozinho no Palácio do Jaburu, brindando à traição.

Imagine quantos champanhes não foram abertos na longa madrugada da democracia brasileira. E por quem, e onde. Certamente o som redondo e oco das rolhas pôde ser ouvido nos luxuosos apartamentos da Avenida Vieira Souto, no Rio de Janeiro; nos Jardins, em São Paulo; nas coberturas da Bela Vista, em Porto Alegre. Um alívio aos improvisados manifestantes que puderam substituir o som irritante das panelas e devolvê-las a quem de ofício.

Abraçado ao retrato de Brilhante Ustra, Bolsonaro bebeu, e os brindes se seguiram nas casas de Feliciano, Malafaia, Cunha, Caiado, Paulinho da Força. Nas casas de anônimos defensores da ditadura e da “intervenção militar”. O suave tilintar das taças de cristal foi ouvido ainda nas confortáveis salas das editorias dos jornalões e revistas que outrora apoiaram o golpe de 64 e agora comemoravam mais uma vitória. Braços erguidos, taças na mão, brindavam Bonner, Alexandre Garcia, Wack, Noblat, Merval, os Civita, os Marinho e tantos outros comentaristas tão bem amestrados.

Na sede da Fiesp, muito provavelmente o som borbulhante dividiu as atenções com o famoso filé mignon do impeachment, oferecido aos manifestantes de domingo. Momento redentor aos que hostilizaram e agrediram simpatizantes de esquerda, membros de governo, sindicalistas, manifestantes sociais, artistas. Veja, até o Chico Buarque!

Reservado às impolutas senhoras belas, recatadas e do lar, o sabor refrescante dos melhores espumantes não foi proveito para as chefas de família e trabalhadoras das comunidades de periferia, do recôncavo baiano, do sertão nordestino, do pampa pobre. De lá, nada de festejos. Sabem!

Os que estouram as rolhas não são os mesmos que as juntam do chão.

Que Brasil pode emergir disso? Que país esta sendo forjado? Certo que uma visão maniqueísta de mundo é tão ingênua quanto simplória. Mas percebe-se, no entanto, o polo de atração no qual gravita um conjunto de valores comunicantes. A mera coincidência não explica que os que hoje golpeiam a democracia são os mesmos que se insurgem contra os direitos LGBT, as cotas em universidades e concursos, os direitos trabalhistas, os direitos humanos, o Bolsa Família, o ProUni, Mais Médicos, o Estatuto da Criança e do Adolescente.

No desalento dos 54 milhões de votos conquistados, e arbitrariamente anulados, um sentimento de credulidade ingênua nos assolou: a democracia, tal qual a imaginávamos, se desmanchou no ar num misto de ilusão formalista e utópica. No seu próprio interior foi gestado o golpe, por dentro mesmo de suas instituições. Testemunhamos a democracia, tão duramente conquistada, suspensa ao arbítrio de uma aliança conservadora insatisfeita com os resultados adversos. Na trama, tribunais de exceção, investigações direcionadas, vazamentos seletivos, informações manipuladas. O festejado combate à corrupção revelou-se instrumento e não objetivo. Resultou na cassação de uma presidenta sem crime e na assunção de um presidente sem voto.

A aliança do poder financeiro com a grande mídia, religiosos extremistas, bancada da “bala”, bancada do “boi”, partidos de direita, mercado e interesses internacionais é suficiente alerta sobre os riscos à soberania e às conquistas civilizatórias no pós-golpe. O Brasil será outro, e não será melhor.

A lembrança da cena de Esteban Trueba acabou levando a outra, esquecida em algum canto da memória brasileira: em algum momento, entre os dias 25 e 26 de agosto de 1961, o vice-presidente João Goulart, ainda em viagem à China, recebe a notícia da renúncia do presidente Jânio Quadros. De pronto, o senador Barros de Carvalho, que lhe acompanhava, propôs “um brinde ao novo presidente”. Jango o interrompeu: “Olha Barros: se você quer tomar champanhe, não há inconveniente. Agora, não para comemorar minha chegada à presidência, mas sim, em homenagem ao imprevisível”.

Tão certo como golpearam a democracia, resistiremos! Proponho então, no triunfo do golpe, uma homenagem a Jango e um brinde ao imprevisível.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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2 respostas para Sob o triunfo do golpe, um brinde ao imprevisível

  1. Ondina Leal disse:

    Grande artigo! Sensível e faz pensar…Tristeza profunda.

  2. liborio junior disse:

    Como entrar e sair de uma crise
    a dificuldade em compreender/assimilar o que hoje acontece no brasil só se torna mais evidente quando percebemos a relação com o que acontece no mundo e, principalmente, na américa latina – nossa pátria grande –, num momento de avanço das forças conservadoras sobre as nossas riquezas naturais, caras a todo o planeta.
    se trata do velho e conhecido imperialismo, que nunca tirou suas garras das nossas “veias abertas”, senão vejamos: aqui, no brasil, ganhamos as eleições de 2014 por muito pouco, lutando contra a mídia hegemônica, a elite de direita tradicional, o fundamentalismo religioso e outras “cositas” mais; na vizinha argentina, conseguiram interromper doze anos de conquistas e reconstrução, elegendo o playboy macri, também com uma margem muito estreita e que se dispôs a conduzir – a toque de caixa – toda a agenda neoliberal; o paraguai já sofreu seu golpe branco, assim como Honduras; o desgaste das forças progressistas na Bolívia, onde o evo perdeu o plebiscito e terão uma enorme dificuldade de dar continuidade aos seus avanços e na Venezuela, onde o maduro perdeu a maioria no congresso e está numa posição extremamente delicada; no peru as eleições levaram a um segundo turno onde os dois candidatos representavam praticamente os mesmos programas da direita local e por aí vai… é claro que o brasil é o peixe maior que eles pescaram até agora, mas a disputa na síria procura atingir outro dos grandes alicerces dos brics, a rússia e, na áfrica do sul, o presidente só não caiu por ter uma forte base no congresso, enfim… no brasil, o que esses bandidos de filmes classe “d” querem, é assaltar o poder com uma raiva grotesca, para se contentar com as migalhas (milhões ou bilhões de dólares) e que servem ao mesmo imperialismo que agora consegue botar também a europa de joelhos.
    nós falhamos, falhamos sim, mas falhamos em não fazer o povo entender que o resultado dos avanços alcançados são sim fruto de seu esforço, trabalho, batalha do dia-a-dia, mas são também frutos de uma política de governo que implementou as medidas desenvolvimentistas que tiraram milhões de pessoas da miséria e construiu o caminho para que outros tantos entrassem no mercado de consumo de bens que muitas gerações sequer sonhavam alcançar; falhamos também em confiar em uma aliança com setores conservadores e de centro que não hesitaram em trair a confiança em troca de benesses dos verdadeiros donos do mundo. há muitos outros fatores para elencar, mas isso fica para o próximo momento, onde, enquanto lambemos as feridas e fazemos a devida autocrítica, temos o dever de tirar os ensinamentos adequados para aproveitar a chance de potencializar a união do campo popular na acumulação de forças que, enfim, nos coloque em condições de disputar a hegemonia nessa sociedade guerreira e batalhadora, como são os trabalhadores do brasil, da américa latina e do mundo.

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