Shakespeare escracha Temer

imagem bruxas macbeth

Ayrton Centeno        

Foi num fétido pântano, açoitado por ventos ferozes, agitando a névoa perene, que o ganancioso MacTemer encontrou as três bruxas. “Viva MacTemer” saudaram Janaína, Miguelina e Bicudina, todas encarquilhadas, porém, Bicudina, a mais de todas. Profetizaram que ele haveria de ser rei, mas lançaram pesada sombra sobre o que depois viria. Aflito, MacTemer não sossegou enquanto não encontrou o pai das três assombrosas criaturas. Queria ouvir de Shakespeare algum consolo que lhe mitigasse a insegurança mesclada àquela sensação de fratura exposta do caráter. Sentir-se menos minúsculo perante a empreitada adiante. Sentado num promontório desde o qual, ao longe, avistava-se o mar quebrando nas falésias, Shakespeare olhou de soslaio para o estranho. Enxergou nele um pot pourri de seus personagens, um Macbeth mais frouxo, um aprendiz de Ricardo III, um Iago mais tosco. Parte por isso, parte pela curiosidade, dignou-se a ouví-lo. E o Usurpador então falou:

MacTemer – Ando lidando mal com tudo isso. Começou com aquela carta pra Dilma onde disse que eu era decorativo e que o PMDB queria mais cargos…

 Shakespeare – “É melhor ser rei de teu silêncio do que escravo de tuas palavras.”

MacTemer – Pois é, fiz bobagem…

Shakespeare – “Possuo um coração tão impetuoso quanto o vosso. Contudo, tenho cérebro que sabe dirigir a estuosa cólera para vantagem própria”

MacTemer – O Grande Bardo está me chamando de burro?

Shakespeare – “Somente os asnos se deixam frear”

MacTemer – Não entendi. Devo parar ou seguir em frente?

Shakespeare – “Cuidado para com a fogueira que acendes contra teu inimigo; ela poderá chamuscar a ti mesmo.”

MacTemer – Sinto que um tição saltou dessa fogueira e está queimando meus fundilhos… Nas ruas me chamam de golpista, traidor, fraco, medíocre, vendido…

Shakespeare -“Não sujes a fonte onde aplacaste tua sede.”

MacTemer – Pois é, mas fazer o quê agora? Tenho medo…

Shakespeare – “Das paixões ínfimas, o medo é a mais maldita”.

MacTemer – Receio o passo seguinte…

Shakespeare – Os covardes morrem muitas vezes antes de sua morte; os valentes morrem uma única vez.”

MacTemer – Fico irritado com esse negócio…

 Shakespeare – “Ficar enfurecido é revelar-se assombrado de medo”

MacTemer – Mais furioso fico por saber que a imprensa internacional não entrou na conversa do Merval, da Cantanhede, da Leitão e dos nossos superamigos da nossa superamiga mídia. E está chamando o golpe de golpe! E, por cima, a Dilma vai sair pelo mundo botando a boca no trombone…

Shakespeare – “A raiva é um veneno que bebemos esperando que os outros morram.”

MacTemer – Ponho a mão na consciência e sinto que errei. Fui desencaminhado pelo MacCunha. Eu era um cara bom…

Shakespeare – “A consciência é apenas uma palavra que os covardes usam para amedrontar os fortes. Que nossos braços sejam a nossa consciência e nossas espadas as nossas leis.”

MacTemer – Agora sim! Senti firmeza! Isto é Ricardo III, não?

Shakespeare – “Uso os trapos dos livros sagrados e finjo-me de santo sempre que demonizo.”

MacTemer – Mas é o retrato do Cunha! Meu malvado favorito! O que mais ele diria?

Shakespeare – “Eu fui a besta de carga de seus grandes negócios. O exterminador de seus orgulhosos inimigos. O comprador generoso de seus amigos.”

MacTemer – Comprador! É o próprio! Ricardão sabia das coisas e nosso querido Cunha aprendeu bem…

Shakespeare – “Minha consciência tem mil línguas e cada língua conta uma história diferente e cada história me condena como um criminoso miserável.”

MacTemer – Perdão, mas o Bardo está falando do Cunha ou de mim?

Shakespeare – “O Inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.”

MacTemer – Epa, isto é a Câmara! Ou é o nosso governo de salvação nacional? (cobre a boca com a mão e solta uma risadinha abafada)

Shakespeare – “O poder é a escola do crime”.

MacTemer – E vai dizer pra mim? Só eu sei as punhaladas que desferi depois daquele encontro com as bruxas – aposto que aquilo foi arranjado pelo velho MacPadilha. Mas confesso: Janaína, Miguelina e Bicudina me enfeitiçaram. Foi a bruxaria daquela música louca que surgiu não sei de onde! Janaína sacudia os braços e girava a cabeça como um pião, enquanto atrás Miguelina e Bicudina faziam aquela coreografia das dançarinas do Faustão…

Shakespeare – “O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas.”

MacTemer – Viu? Eu sou sensível! E ainda me chamam de traíra! Já estava convencido mas quando Janaína fez a dança da garrafa meu coração disparou…Tive que botar um comprimido debaixo da língua…Mas me senti bem ali. Ninguém me chamou de Drácula. Elas perceberam que sou um sujeito do bem e que, se alguém fez algo torto, não fui eu. Talvez os MacMarinho, os MacCivita, os MacFrias etc.

Shakespeare“Cometo um crime e sou o primeiro a clamar por justiça. Os males que faço em segredo faço cair sobre os ombros dos outros.”

MacTemer – Com licença, Grande Bardo! A culpa é das suas bruxas que me transformaram no que sou agora…Aquela poção diabólica…

Shakespeare – “Lombo de cobra novinha atirai no pote asinha, pé de sapo e lagartixa, de cão a língua que espicha, pelos de morcego, asa de bufo-sossego, de lagarto a perna fina, acúleo de colubrina jogai na sopa do mal nesta mistura infernal….”

MacTemer – Eu chamaria tal petisco de nojento!

Shakespeare – “Três escamas de dragão, com bucho de tubarão que os mareantes intimida; cicuta à noite colhida, bofes de um judeu malvado, ramo de teixo tirado em noite de muito escuro; beiço de tártaro, o duro nariz de turco, o dedinho de uma criança sem linho que matado a mãe houvesse sem dizer nenhuma prece. Deixai bem forte a mistura; juntai do tigre a fressura, porque nosso caldeirão tenha caldo em profusão”.

MacTemer – Arghhh… Mas acho que Janaína, Miguelina e Bicudina jogaram outros ingredientes no caldeirão. Senti um cheirinho de AI-5, uma pitada de Pacote de Abril, um travo de Gama e Silva…

Shakespeare – “Trabalha, meu veneno! Trabalha!”

MacTemer – Isto! Veneno é, foi e será essencial. Não só o das três megeras mas aquele inoculado anos a fio nos ouvidos dos sonsos, aquele pingado pontualmente nos olhos dos cegos, dia sim outro também. E repetido e reciclado e regurgitado. Ah, MacBonner…Os jornalões me chamam até de  ponte para o futuro! E os lulus deles, os tais colunistas? Aprecio vê-los rastejantes. Ou sentadinhos nas patinhas de trás esperando a migalha da mesa. Ontem me ignoravam, hoje me idolatram. Como capricham! Até me constrangem pelo exagero…Bastou o patrão estalar os dedos que passei de mordomo do vampiro para estadista!

Shakespeare – “Aquele que gosta de ser adulado é digno do adulador”.

MacTemer – Sim, mas fazer o quê. Esta é a alma do negócio! Estamos no ramo da mentira, eu e eles. E você também! Diga-me: o que seria da sua obra sem canalhas como Iago, o rei Claudius, Ricardo III, hein?

Shakespeare – “Com a isca de uma mentira, pesca-se uma carpa de verdade”.

MacTemer – Viu? Estamos nos entendendo…E que carpa eu pesquei!

Shakespeare – “É uma infelicidade da época, que os loucos guiem os cegos”.

MacTemer – Nosso diálogo está difícil. Primeiro me chamou de asno e agora de maluco! O que importa é tenho poder e esta é a vida que sempre quis.

Shakespeare – “A vida é uma sombra errante; um pobre tolo que se pavoneia no breve instante que lhe reserva a cena, para depois não ser mais ouvido. É uma história cheia de som e fúria narrada por um idiota significando nada”.

MacTemer – Mais xingamentos. Que boca a sua! Mesmo assim, ajude-me. Como devo escolher meu ministério?

Shakespeare –“Entre maçãs podres não há o que escolher”.

MacTemer – Maçãs podres? O Serra? O Padilha? O Jucá? O Zé Agripino? O que há contra eles? Humm…vamos deixar esses de lado…Mas e o…o…deixa ver…

Shakespeare – Desde que um ninguém se tornou um nobre, muitos nobres se portam como ninguém!”

MacTemer – Asno, tolo, louco e, agora, ninguém. Para ouvir isso nem precisava vir até aqui. Era só pedir pra Dilma…Não suporto mais seus escrachos. Quero apenas ouvir a voz da sua experiência…

Shakespeare – “Um cetro arrebatado pela violência precisa ser mantido por processos iguais ao da conquista”.

MacTemer – Então, este é o seu prognóstico? Vai quebrar o pau?

Shakespeare – “Oh! como o Inferno é negro!”

MacTemer – Inferno negro? Cada pergunta que faço mais me arrependo…

Shakespeare – “Então, entrega-te, covarde, e vive para te tornares espetáculo e assombro do universo”.

MacTemer – Não agüento mais tantos insultos. Você é pior do que a Dilma!

 Shakespeare – “Como fazemos com esses monstros raros, teu retrato será posto num mastro, tendo em baixo a inscrição: “Eis o tirano!”

MacTemer – Monstro? Tirano? Basta de amargura! Vou ler e ouvir as doces palavras do Merval. Que é imortal também. E tem fardão, coisa que você nunca teve e nem terá. Além do mais, eu também escrevo poemas. Vou declamar um deles para você do meu livro Anônima Intimidade, que  tive a honra de autografar para outro Imortal, o Sarney: “Embarquei na tua nau/ Sem rumo/ Eu e tu./ Tu, porque não sabias/ Para onde querias ir./ Eu, porque já tomei muitos rumos/ Sem chegar a lugar nenhum”…E então?

Shakespeare – (suspiro) “Choramos quando nascemos porque estamos chegando a este imenso palco de tolos”…

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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Uma resposta para Shakespeare escracha Temer

  1. Sueli Maria Pereira disse:

    AMEI !!!!!!!!!

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