A indigna homenagem de Sartori a Meneghetti

Cinquenta e dois anos depois do golpe de 64, um governador gaúcho, do PMDB, se parece mais em forma, política, alianças e palavras com Meneghetti do que com Brizola.  (Foto: Caroline Ferraz/Sul21)

Cinquenta e dois anos depois do golpe de 64, um governador gaúcho, do PMDB, se parece mais em forma, política, alianças e palavras com Meneghetti do que com Brizola. (Foto: Caroline Ferraz/Sul21)

Marcelo Danéris

“Nós, que governamos o Rio Grande do Sul, não aceitaremos quaisquer golpes. Não assistiremos passivamente a quaisquer atentados às liberdades públicas e à ordem constitucional”. Não, estas não são palavras do atual governador José Ivo Sartori, elas foram ditas pelo governador Leonel de Moura Brizola na madrugada do dia 28 de agosto de 1961, posicionando o estado definitivamente contra a tentativa de golpe que pretendia impedir a posse do vice-presidente João Goulart após a renúncia do Presidente Jânio Quadros. Com a manifestação de Brizola nascia a Rede da Legalidade. O golpe, naquele ano, unia o Congresso Nacional, os militares, empresários e setores mais reacionários da sociedade. A grande mídia nacional – sempre ela – acomodava, o Supremo Tribunal Federal silenciava. Tudo aparentemente legal, mas francamente inconstitucional. Qualquer semelhança…

É certo que a maioria dos gaúchos não espera muito do atual governador, menos ainda que assuma posições claras e firmes a respeito do que quer que seja. Não fez isto durante a campanha, e no governo age nas sombras da crise nacional. Mas não se engane com a aparência obtusa, Sartori é um legítimo representante do pensamento liberal conservador, adepto do Estado mínimo, das políticas de austeridade, ajuste fiscal e privatizações, que pouco reconhece os avanços dos direitos civis e sociais. Bem, a assertiva não retira a necessidade de tratarmos sobre seu papel no processo de impeachment – golpe de novo tipo, institucional – em curso no país contra a Presidenta Dilma. Tão pouco isenta de responsabilidade política o governador de um estado que, em outros tempos, foi palco da resistência democrática.

A primeira questão remete a situação brasileira e da presidenta Dilma, elas são estranhas ou alheias à realidade do Rio Grande e do atual governo estadual? Definitivamente não. Vejamos: a presidenta Dilma realizou as chamadas ‘pedaladas fiscais’? Sim, Sartori também. Dilma tem baixa popularidade no momento? Sim, Sartori também. Dilma enfrenta uma forte crise econômica? Sim, Sartori também. Dilma sofre a desestruturação das contas públicas? Sim, Sartori também. Dilma tem a legitimidade das urnas? Sim, Sartori também. O partido de Dilma é alvo de investigações de corrupção? Sim, o de Sartori também. Dilma cometeu algum crime de responsabilidade? Não, Sartori, até onde se sabe, também não. E por que então Dilma é vítima de um golpe, travestido de impeachment, e Sartori não? Simples, a arquitetura do golpe foi projetada para atingir apenas um governo, uma presidenta, uma força política. Sartori sabe, cala, consente.

Logo depois de consumada a votação do impeachment da Presidenta Dilma na Câmara dos Deputados, no triste anoitecer da democracia brasileira, o governador se pronunciou, em vídeo. Não se manifestou contra o golpe e em defesa da democracia, como poderiam imaginar almas incautas, e algumas saudosas de Brizola. Mais uma vez optou por uma fala anódina, tentando equilibrar-se entre a consciência de sua própria condição – análoga a de Dilma –, a deslealdade de dançar sobre a crise nacional e a indigna omissão política sobre o impeachment. Ao longo de, acreditem, um minuto e quarenta e quatro segundos de pronunciamento, dedicados a tratar de tema tão grave quanto histórico para o país, Sartori deu voltas, falou de platitudes e, por fim, clamou pela unidade minutos após seus aliados promoverem uma verdadeira cisão nacional.

Traindo-se, afirmou na mensagem que “a paciência dos brasileiros passou dos limites”. Ora, a afirmativa do governador transforma-se em pergunta quando transposta a realidade local: e a paciência dos gaúchos, não chegou ao limite? Se chegou, como parecem indicar pesquisas e manifestações, tão festejadas pela grande mídia em nível nacional, significa que a sentença serve ao seu próprio governo. Se houvesse qualquer coerência política na decisão da Câmara, Sartori deveria sofrer aqui a mesma interrupção violenta do mandato. Se isto ocorresse, o governador e seus aliados provavelmente recorreriam ao resultado das urnas para reivindicar tempo e legitimidade. Certamente ouviríamos pelos corredores do Palácio Piratini alguns gritos indignados de golpe, golpe!

Um peso, duas medidas. Sabemos que as verdades sobre Dilma, equivalentes as de Sartori, e o processo de impeachment transfigurado em golpe resulta de uma convergência perversa, da aliança de interesses inconfessos. Os mesmos que acusam lá são os que o protegem aqui. Sartori aceita, e mais, apoia. Sabe que a associação golpista é seletiva e tem uma única direção. Ela conta com o apoio do capital financeiro internacional e suas agências de risco; com empresários nacionais interessados em ampliar lucros, reduzir carga tributária, direitos trabalhistas, e fugir da prisão; com a conspiração ativa da grande mídia conservadora nacional para criminalização da política e da esquerda; com a mobilização dos setores mais reacionários da sociedade; com a ação de partidos de oposição derrotados nas urnas, aliados a parlamentares corruptos. A retórica do golpe carrega um indisfarçável conteúdo ideológico, de luta de classes e de intolerância política, que embala muitas das manifestações contra o governo Dilma e mobiliza setores da extrema direita. A indignação contra a corrupção é instrumental, peça de marketing.

Ironia e tragédia, mais de trinta anos depois de protagonizar a campanha pelas Diretas Já, o PMDB quer chegar ao poder através de um golpe e de forma indireta. Sabe-se que o governador não é afeito a grandes gestos, menos ainda é um estadista. Mas neste caso extremo da conjuntura brasileira não lhe cairia mal um pouco de coerência e coragem política para posicionar-se contra o impeachment da presidenta Dilma. Sartori sabe que Dilma não cometeu qualquer crime, sabe que foi julgada em um tribunal político de exceção presidido por um notório corrupto acusado por lavagem de dinheiro. Sabe, principalmente, que os motivos alegados para cassar o mandato de uma presidenta eleita democraticamente são os mesmo que justificariam seu próprio impedimento.

Na noite de 1º de abril de 1964, o então governador do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti, anunciava seu apoio ao golpe civil-militar que depôs Jango da Presidência da República. Cinquenta e dois anos depois, um governador gaúcho, do MDB, se parece mais em forma, política, alianças e palavras com Meneghetti do que com Brizola. Repete a posição que levou o Brasil a mais de vinte anos de ditadura. É sua indigna homenagem. Em momentos de alta intensidade da vida nacional, infelizmente, poucos são os brizolas que a história é capaz de revelar, e muitos são os meneghettis.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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6 respostas para A indigna homenagem de Sartori a Meneghetti

  1. Nem vou me dar ao trabalho de comentar o artigo desse pequeno discípulo de Henrique Fontana. apenas dizer que ele deveria lavar a boca antes de pronunciar o nome de Ildo Meneghetti, que permanece sendo o único governador eleito duas vezes para este cargo no RS em eleições livres e diretas, após a ditadura do Estado Novo. No mais, vá estudar. Comece por aqui: https://eniomeneghetti.com/2012/12/10/entrevista-tve-baile-de-cobras/

  2. Marcelo disse:

    Ser um discípulo de Henrique Fontana é “acusação” que muito me honra. Compreendo a relação afetiva que tens com seu avô, o que obviamente compromete sua visão da história e a distância necessária do objeto de pesquisa. Meneghetti não era por certo uma pessoa de posições extremistas, mas é fato que era um político conservador e apoiou o golpe de 64. Dele comungou e participou deste antes das tropas do General Mourão Filho marcharem em direção a Brasília, como o senhor mesmo revela na entrevista em anexo. De resto são agressividades típicas de quem tem uma imagem idealizada.

    • Mourão nunca marchou em direção a Brasília, e sim para o Rio de Janeiro. Este pequeno detalhe em sua argumentação já serve para mostrar o pedantismo de quem quer ensinar sobre fatos que não conhece direito.

      • Marcelo disse:

        Verdade, acabo de voltar de Brasília acompanhando o novo golpe contra uma presidenta eleita e isto acabou por causar o engano na hora de escrever. Jango estava no Palácio das Laranjeiras no Rio de Janeiro no dia 31 de março de 1964, motivo pelo qual Mourão direcionou suas tropas naquela direção.
        Tento manter com o senhor um diálogo respeitoso, mas percebo que tens uma postura política intolerante. Certo que estamos em campos políticos opostos, mas o que mais nos diferencia é a forma, para ser polido. Não desejo impor minhas verdades com arrogância e agressividade e sim debater democraticamente, o que pode estar lhe causando certa estranheza e desconforto. Assim, penso que o melhor é encerrarmos a prosa por aqui.

  3. Ney Possapp disse:

    Ildo Meneghetti, apoiou as armações golpistas contra o Presidente João Goulart, quando as marchadeiras fizeram a “marcha do terço” em Porto Alegre Meneghetti ocupou lugar de honra no palanque ao lado do Arcebispo (na hora de puxar uma das dezenas Meneghetti se atrapalhou, não soube rezar o Padre Nosso, nem as Ave Marias). Dia 1º de abril de 1964, logo que o golpe foi anunciado e a Resistência começou a organizar-se em Porto Alegre (logo desautorizada pelo Jango) Meneghetti abandonou o Piratini e fugiu para Passo Fundo indo esconder-se dentro do Quartel da Brigada (o regimento de Passo Fundo era comandado pelo coronel Victor Hugo), dia 3 após o golpe consolidar-se Meneghetti retornou ao Piratini escoltado por pelotão de brigadianos e uma caravana (vários ônibus fretados por empresários passo-fundenses), caravana formado por paisanos, inclusive uma gurizada que aproveitou para ir conhecer a Capital!

    • Marcelo disse:

      Fato, o próprio governador admitiu a fuga em depoimento a deputados na Assembleia Legislativa tempos depois, bem como, também tinha conhecimento prévio do golpe. Nos tempos de golpe moderno, Sartori se manteve distante do acampamento da Legalidade na Praça da Matriz e apenas se pronunciou em vídeo. Justificou o golpe dizendo que a paciência dos brasileiros tinha passado dos limites, e mandou às favas a paciência dos gaúchos.

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