Mãos dadas

Foto: Mídia Ninja

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Por Renato Dalto

Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro/ Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças/ Entre eles, considero a enorme realidade/ O presente é tão grande, não nos afastemos/ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

Carlos Drummond de Andrade, “Mãos Dadas”

Dizem que o cortejo seguiu silencioso para o adeus de Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira, poeta do mundo. Homem de hábitos discretos, sua poesia era para o silêncio de uma janela, não para a apoteose de um sarau. Na vida tinha sido assim, porque na morte não seria? Mas lá pelas tantas, contam, um violeiro puxou a viola e entonou alguns versos. E do silencio respeitoso se encheu de palavras musicadas.

Drummond nos deixou rosas. A Rosa do Povo, aquela que nasce na lama ou na sarjeta. O discreto carmim do homem desesperado cujos ombros suportam o mundo. O José sem rumo que nem mesmo achava o mar para o direito de naufragar, sozinho, sua alma trôpega e errante. Foi ontem na Copacabana que adotou Drummond, como filho e como estátua, que a praia se encheu de uma multidão que, vista de longe, parecia um grande jardim de rosas vermelhas.

Elas sinalizavam homens, mulheres, trabalhadores, estudantes, uma massa que havia trocado a discrição dos dias iguais pela rua. Um grande cortejo na rua pela areia que um dia viu Drummond passar. Foi ali também que ele observou novas gerações, com seus biquínis e libido juvenil, e tentou entende-la  no que chamou de “admirável espirito dos moços”, assim: “a vida te pertence, os alvoroços….. são as rosas do tempo, inquietas, vivas”.

As rosas do tempo. No país mais pobre, já sem Drummond, amanhecem hoje tímidas, mas não murchas. Inquietas e vivas. Dizem que a multidão se deu as mãos em Copacabana, em Salvador, na Porto Alegre da legalidade, no democrático Anhangabau, na Esplanada. Ave, Drummond. É o jardim do povo que pede a chuva. Logo o tempo vira. E viramos junto com ele. De mãos dadas.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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