Por quem os frangos dobram

frangosul

Ayrton Centeno

Neste abril despedaçado em que nadamos de poncho contra a correnteza, o Rio Grande transcendeu. Acontece que, após uma espera de séculos, o Estado tem à testa um estadista. Acabou de proclamar ao mundo que o Estado fez em dois anos o que não fez em 50, jogando Juscelino Kubitschek — que fez 50 em cinco – na lata de lixo da história. Por certo, 90% da façanha se deve à instituição do Dia Estadual do Frango e do Ovo. Num rasgo de bravura pessoal, o portento que nos conduz determinou que, a cada segunda sexta-feira de agosto, gaúchos e gaúchas comemorarão a efeméride com uma explosão de omeletes, fios de ovos, quindins, ovos duros e moles, merengues. E frangos à passarinho, ao molho pardo, empanados, ao maracujá. Peitos, patas, moelas, asinhas, sobrecoxas.  E, sobretudo, coxinhas.

Mesmo os eternos descontentes darão o braço a torcer. Frequentamos, agora, outro patamar. Decisão tão penosa – nos dois sentidos – deve ter roubado noites de sono ao fenômeno que vela pelo nosso futuro. Mas recebeu avara repercussão mundial ou mesmo nacional, o que deve ser debitado na conta da inveja dos demais governantes. Que não foram capazes de vislumbrar, como nosso atilado guru, o instante decisivo, o momento de fazer História.

Apesar de tudo, não nos podemos furtar à crítica. Construtiva, é claro. Sente-se que se poderia ir além. Superar outras fronteiras. Havendo tanta afinidade entre a natureza do Rio Grande e aquela do frango e do ovo, porque restringir o evento a um dia apenas? Porque não ousar mais e transformar o ano inteiro em datas do Frango e do Ovo? Frangodays forever!

Além do fomento ao consumo doméstico, a identificação radical do Estado com os dois produtos faria com que arrebatasse os mercados mundiais. Teríamos que nos preparar para isso, construindo nossa nova identidade, o que abriria enorme campo de trabalho para publicitários, músicos, jornalistas, redatores, marqueteiros, artistas gráficos, designers…

Poderíamos iniciar com nossa simbologia, hoje meramente decorativa e inepta para carrear divisas. A bandeira, por exemplo. Em vez daquele escudo cheio de lanças e canhões, um singelo ninho com pintinhos recém-nascidos. No lugar do lema comunista “liberdade, igualdade e fraternidade”, um conselho saudável: “Coma ovos todo dia”. Imagine-se a bandeira sendo hasteada nas escolas do Rio Grande inteiro e as criancinhas absorvendo aquele ensinamento salutar em vez da escancarada subversão petralha.

E o hino, então? É só guerra, provocação, bazófia. Não serve. Isto afasta os consumidores e, pior, não vende nada! “Como a aurora precursora/ Do farol da divindade…” O que é isso? Pergunte. As pessoas nem sabem o que estão cantando! É preciso simplificar. “A Galinha Pintadinha/ e o Galo Carijó/ a galinha usa saia/e o galo paletó” todo mundo entende e tem muito mais empatia. É preciso romper os paradigmas.

Rio Grande do Sul? Mas que nome é este?  O batismo nasceu de uma presepada. Os pioneiros pensaram que a Lagoa dos Patos era um rio! E usamos a burrada para batizar nossa terra! Já começamos fazendo besteira…Porque não nos chamarmos… Frangosul? E Lagoa dos Patos? Façam-me o favor… Sabemos que Patos era uma tribo que foi dizimada em prol da civilização branca, benevolente e cristã. Doravante, Lagoa dos Frangos! Inarredável questionar o arcaico Laçador, um tipo que nem existe mais. O monumento iria enfeitar algum CTG e o lugar ocupado por um frango colossal, erguendo um grande ovo/farol com sua asa direita, indicando as galeterias mais próximas.

Mas como venderíamos frangos ao planeta se aqui vivemos em churrascadas? Nocivo costume, aos poucos seria abandonado. Varreríamos o gado das coxilhas da Metade Sul. Milhões de frangos ocupariam aquelas vastidões. Com o apuramento da linhagem, a fartura de alimentação e a engenharia genética de ponta, em pouco mais de uma década cada espécime estaria do tamanho de um velociraptor. Safaris levariam os turistas para caçadas. Mais divisas, portanto. Nem todos os caçadores retornariam – alguns virariam ração — mas o que seria a vida sem o tempero da aventura?

O repaginamento envolveria um esforço descomunal mas valeria a pena. Veja-se o caso das indústrias editorial e cinematográfica. Não poderíamos abrir mão da nossa marca perante a invasão de conceitos alienígenas estranhos à nossa índole. Frango e Ovo Uber Alles! Teriam que adaptar seus títulos para ingressar no exuberante mercado interno. Quantos empregos para capistas e gráficos! Que movimentação nas produtoras!

No cinema, haveria relançamentos com novos títulos e ávido público: Meu Ovo Será Tua Herança, Sete Frangos e um Destino, Frango Indomável, Um Frango que Cai, 12 Frangos e uma Sentença, O Parque dos Frangossauros, A Bela e o Frango, O Frango Atirador, Frangos de Aluguel, Rastros de Ovo…E na literatura, então?  Dom Frangote de La Mancha, O Frango e o Vento, Em Busca do Frango Perdido, Grande Frangão: Ovos, Frangsstein, O Frango da Estepe, Admirável Frango Novo, Retrato do Frango quando Jovem, O Senhor dos Ovos, Por Quem os Frangos Dobram…

Começaríamos pelas capas mas depois, gradativamente, adaptaríamos o conteúdo à nova realidade. Um clássico poderia iniciar assim: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num galináceo monstruoso”.

A escola terá papel crucial. Esses trecos de Paulo Freire que produzem rebeldes com causa teriam que ser incinerados. E retornaríamos à antiga cartilha: “Vovó viu os ovos do vovô!” ou “Eva viu os ovos do Ivo”. E por falar em Ivo, nosso rutilante condottieri, unindo-se ao esforço coletivo, certamente deixaria de ser José Ivo para ser José Ovo Sartori. É só questão de tempo. Um futuro brilhante nos aguarda. Creiam-me: nós fizemos por merecê-lo.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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Uma resposta para Por quem os frangos dobram

  1. Neltair disse:

    cuá cuá cuá

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