Sindicato dos Jornalistas recebe relatos de assédio, censura e aparelhamento na TVE

“O pessoal está cansado. Nós recebemos a informação de que, somente em fevereiro deste ano, 17 servidores da TVE procuraram atendimento psicológico”, diz Milton Simas, presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS | Foto: Stephanie Gomes

“O pessoal está cansado. Nós recebemos a informação de que, somente em fevereiro deste ano, 17 servidores da TVE procuraram atendimento psicológico”, diz Milton Simas, presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS | Foto: Stephanie Gomes.

Marco Weissheimer

O Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul tem recebido uma série de reclamações por parte de profissionais sobre as atuais condições de trabalho na TVE. Segundo o presidente da entidade, Milton Simas Júnior, desde o início de 2015 o sindicato tem recebido reclamações de colegas envolvendo problemas de relacionamento entre chefia e servidores, cerceamento, censura, aparelhamento político e posicionamentos antiéticos. “Ouvimos os colegas aqui no sindicato e teve gente que ficou chorando do início ao fim”, assinala Milton Simas. A partir desses relatos, o Sindicato marcou uma reunião, ainda no ano passado, com a presidente da Fundação Piratini, Isara Marques. “Nós nem usamos a palavra ‘assédio’. Falamos sobre problemas de relacionamento interpessoal. Depois dessa conversa, a situação melhorou durante alguns dias, mas depois os problemas retornaram”, relata o presidente do Sindicato.

Milton Simas pediu também uma reunião com o Secretário Estadual de Comunicação, Cleber Benvegnu, para tratar do tema. Benvegnu repassou a tarefa de conversar com o sindicato para um diretor da secretaria. “O retorno foi superficial”, resume Simas. Diante disso, o Sindicato pediu um espaço na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, para denunciar os casos de assédio moral na TVE. Após essa reunião, houve um novo alívio nos problemas, mas depois os problemas retornaram, diz ainda o sindicalista. “Agora implantaram um sistema de advertências. Quem não obedece a cartilha acaba sendo enquadrado e advertido”, acrescenta.

No Fórum Social Temático, realizado em janeiro deste ano em Porto Alegre, ocorreu um novo problema. No dia 21 de janeiro, a Brigada Militar abordou Paulo Sérgio Medeiros Barbosa, militante da Rede Mocambos, de Pernambuco, que iria participar de um debate no Fórum, alegando que o mesmo apresentava “atitude suspeita”. Uma aglomeração se formou pedindo a liberação de Paulo pela Brigada, o que foi acompanhado por uma equipe da TVE. A emissora, porém, não exibiu as imagens do episódio em seus telejornais. O Sindicato dos Jornalistas solicitou uma audiência com o governador José Ivo Sartori para conversar sobre o caso, mas até agora não recebeu nenhum retorno.

Ainda segundo o presidente da entidade, pelos relatos e reclamações que chegam, a situação parece muito difícil dentro da emissora. “O pessoal está cansado. Nós recebemos a informação de que, somente em fevereiro deste ano, 17 servidores da TVE procuraram atendimento psicológico”, afirma. Simas relata ainda o caso da retirada do telejornal da TV Brasil e sua substituição por um da TV Cultura, de São Paulo, sem consulta prévia ao Conselho Deliberativo da Fundação Piratini.

O sindicato está conversando com parlamentares na Assembleia Legislativa e a deputada Stela Farias (PT), da Frente Parlamentar em Defesa do Serviço Público, pedirá uma audiência pública para debater esse e outros temas que estão atingindo os servidores, como o projeto trata da transferência de serviços públicos para as chamadas Organizações Sociais..

O Conselho Deliberativo da Fundação Piratini realizou, segunda-feira (11), uma reunião ordinária, onde, entre outros temas, foi apresentado um relatório da Comissão de Programação da TVE e da rádio FM Cultura, que aborda alguns dos problemas que estariam ocorrendo na emissora. Segundo José Martins, presidente do Conselho, o texto final do relatório será fechado nos próximos dias e o mesmo deverá ser apreciado e votado pelos conselheiros na próxima reunião ordinária do órgão, marcada para o dia 9 de maio. Martins prefere não falar sobre os problemas, enquanto esse relatório não for aprovado.

Martins reconhece, por outro lado, que a substituição do jornal da TV Brasil pelo da TV Cultura não passou pelo Conselho. “O estatuto da Fundação e o regimento interno do Conselho estabelecem que todas as mudanças de programação têm que passar antes pelo Conselho. Temos tentado manter a melhor relação possível com a direção da TVE e da FM Cultura. Às vezes não estamos conseguindo em função de alguns atropelos. Como o Conselho se reúne mensalmente, às vezes mudanças na programação são feitas sem consultar os conselheiros”. José Martins assinala ainda que a retirada do jornal da TV Brasil não está prevista no contrato que a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) firmou com a TVE. Sobre a alegação feita pela direção da TVE de que o telejornal da TV Brasil seria “chapa branca”, Martins lembrou que o da TV Cultura também parece ter afinidades com o governo de São Paulo.

Questionada sobre os problemas apontados pelo Sindicato dos Jornalistas, a presidente da Fundação Piratini, Isara Marques, manifestou estranheza com os relatos feitos pela entidade: “Já falei para o Sindicato dos Jornalistas:  se os funcionários tem problemas, por que não procuram o Ministério Público do Trabalho? Por que a comissão de ética do Sindicato dos Jornalistas e da ARI nunca nos procuraram, nunca receberam nenhuma reclamação?” E acrescentou:

“Sempre conversamos com o Sindicato dos Radialistas e resolvemos todos os problemas com diálogo. Muito estranho, tudo isso só ocorre para o Sindicato dos Jornalistas.  Será algum problema político com a nova diretoria? “

(*) Publicado originalmente no Sul21

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