Jornalista de direita, praga que ameaça a democracia

jornalistasdedireita570

Por Caco Schmitt

“Vergonha dos companheiros da imprensa que ajudaram a ferver esse caldeirão para desestabilizar o Brasil e promover o caos, disseminando meias verdades, verdades transversas, dados manipulados, insinuações cínicas”, jornalista Hildegard Angel.

A mídia golpista tem nas mãos o rabo da maioria dos parlamentares, golpistas ou não, e vem ditando a pauta rumo ao golpe. Se um deputado não seguir o roteiro, a reação é imediata e em cadeia: reportagens são veiculadas e trazem à tona parte dos rolos em que ele está metido. Um leve toque! Mas, enquanto o parlamentar servir ao jogo, ao golpe, nada é veiculado. Uma espécie de tácito acordo… Foi assim com o Cunha, sujo, cheio de contas no exterior e processos, “poupado” e transformado em fonte diária e confiável da Globo, que fecha os olhos para as manobras escandalosas que retardam a sua cassação. É que ele serve ao golpe. Assim que cumprir o seu papel, tudo contra ele será liberado.

Foi assim na saída do PMDB do Governo. Diariamente, toda a mídia golpista publicava matérias antecipando o rompimento. No dia da convenção, as reportagens anunciavam que “todos os ministros” entregariam os cargos. Mas, a maioria ficou. Então, a mídia passou a atacar um por um, inclusive antigos aliados. Na sequência, os telejornais golpistas passaram a falar que “fontes” (inventadas, inexistentes…) garantiam a saída do PP do governo. Como o Partido Progressista não saiu, passaram a acusar que ficou por conta de cargos na administração. A Globo levanta esta hipótese porque tem passado sujo. Durante o vergonhoso e escondido processo para permitir a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, com a maior compra de votos de todos os tempos, tornou-se cúmplice porque a amante de FCH trabalhava na Globo, engravidou e, para se livrar do problema, mandaram a repórter para o exterior. FHC usou contas no exterior para pagar em dólar um “mensalinho”, reforçando o salário da repórter da Globo. No mesmo período, liberou verba pública do BNDES para salvar os negócios da Globo. Uma mão lavou a outra e nada foi noticiado na época.

Que os jornais e tevês golpistas trabalhem a favor do golpe, apesar de criminoso e lesa-pátria, não chega a causar espanto porque eles representam enormes interesses contrariados e há muito tempo assumiram uma postura de extrema direita e explícita na luta contra o governo popular. O que causa espécie é a postura de muitos “jornalistas” que não só absorvem o discurso golpista como jogaram no chão a ética profissional e dão ares de “verdade” às posições obscuras da mídia golpista. Então, porque hoje é sete de abril, Dia do Jornalista, vou citar o sociólogo e cientista político Emir Sader: “que jornalistas defendam os jornais, é normal. Defendem o prato em que comem. Mas não deixam de ser bastardos”.

É a mais absoluta verdade. Até pouco tempo, cheguei a pensar que muitos “jornalistas” estavam sendo pressionados pelos patrões, mas hoje concluí: eles são de direita, mesmo, e apoiam o golpe! Nos tempos da ditadura, minha geração começou a exercer a profissão e sempre questionava internamente a censura militar, tentava passar um contrabando aqui outro ali, nas chamadas entrelinhas. Uma resistência interna e sindical. Jamais incorporamos o discurso de direita. Muitos foram perseguidos, demitidos e até tiveram que trocar de estado para trabalhar.

Mas, hoje, o que vemos são os repórteres, “colunistas”, âncoras, todos trapaceando, inventando “fontes seguras”, passando o recado dos golpistas, as pressões dissimuladas e ameaças veladas, concedendo a elas ares de reportagem e não sórdidos editoriais. Hoje, estes “jornalistas” são meros garotos de recados, lambe-botas de empresários ricos, fuxiqueiros, fofoqueiros, e… mentirosos! Deve ser duro entrevistar o Cunha e colocar no ar uma reportagem como se ele fosse alguém honrado.

Os fatos de abril são reveladores e definitivos. Da Globo, não vou falar do “suposto” jornalista agente do Tio Sam, William Waack, cão raivoso da direita; nem do outro William, o Bonner, pavãozinho manipulador da nave-mãe do golpe, o Jornal Nacional; nem daquela turma da Globo News, com os Camarottes e os Mervais da vida. Falo dos repórteres do segundo escalão que estão se revelando (quem sabe pensando na ascensão profissional), Julio Mosquera, por exemplo, candidato a WW. Ele subiu o tom nos últimos dias e é quase o editorialista do discurso golpista dos patrões. Após a saída do PMDB, natural que o governo vá recompor a base aliada e retirar, sim, dos cargos os filiados do partido que não é mais governo. Mas a Globo e a mídia golpista ditam a pauta para criminalizar a troca. Jogar a população contra… Aí, o candidato a WW, diz no stand up: “é um toma lá e da cá… cargos em troca de votos…” Depois, sai atrás de depoimentos de idôneos parlamentares como Paulinho da Força, que acusa gratuitamente…

Como afirma Umberto Eco em sua derradeira obra, Número Zero, eles saem atrás de alguém que pense como eles, ou diga aquilo que eles querem dizer, e colocam no ar. Manipulação de quem produz notícia de acordo com seu editorial e seus interesses.

Na Band, então, é uma corrida para ver qual jornalista é mais direita para conquistar o prêmio futuro de substituir “aquele que não se pode dizer o nome” (Boris Casoy, dos movimentos de caça aos comunistas da ditadura militar…). Um tal de Cauã Messina está conseguindo suplantar Fábio Pannunzio, e corre por fora Valteno de Oliveira. Nas matérias chegam a ser ridículos.

Anunciaram como certa a saída do PP governo, segundo suas “fontes”; como os “progressistas” ficaram, eles ironizam dentro do editorial golpista, e afirmam como se fosse fato sem contestação: “foi por cargos”. E, desesperados, tentam passar o editorial patronal, afirmando: “o governo ganhou uma vantagem aparente”, ou seja; pode ser revertida amanhã… ameaças, ameaças…

O Pannunzio, que já envergonhara a profissão de jornalista ao viajar até Roraima pra defender os fazendeiros contra a Reserva Raposa do Sol, agora trata como inimiga a sua amiga ministra da Agricultura, Kátia Abreu, só porque ela ficou no governo. Onde estão as tais “fontes” que afirmavam categoricamente que todos os ministros do PMDB deixariam seus cargos no day after?

Poderia citar uma série de jornalistas que assinam matérias, fazem reportagens etc., mas quero alertar para uma dura constatação: nenhum destes jornalistas está sendo pressionado pelos patrões; eles são de direita, sim; golpistas, sim, como seus patrões. Vivemos hoje um fenômeno inverso ao dos anos 70 e 80, quando surgiu a Imprensa Alternativa, chamada de Nanica.

Quando exercer o jornalismo de resistência, contra a ditadura, contra armas e tortura, era arriscado. Não tinha o glamour da exposição nas telinhas de hoje. E sob pressão, várias gerações de jornalistas se formaram defendendo a verdade, a liberdade, a justiça, os direitos humanos, o fim da opressão e da repressão. Wladimir Herzog, assassinado nos porões da tortura, é o nosso símbolo imortal. E toda esta geração, com a abertura democrática e a volta da normalidade, continuou a seguir o ideário do bom jornalismo. Apesar de sermos, por formação humanística, de esquerda, nunca saímos por aí pregando a revolução, apenas defendendo os mais fracos, os oprimidos, as minorias… O resultado dessa postura ética que entrou para a história foi a volta da democracia, da liberdade, da valorização do ser humano e dos menos favorecidos.

Hoje, as novas gerações de jornalistas (a maioria…) são formadas nos braços da burguesia, não sabem da história e não se interessam por ela. Sequer conhecem o povo. Incorporam o discurso liberal porque se acostumaram a ouvir empresários, grandes investidores, latifundiários e reproduzem, sem crítica, a opinião deles que é a opinião dos patrões. E não é por que são obrigados, a maioria pensa assim, infelizmente. E não é problema não ser de esquerda, o que não pode é (conscientemente ou não) tratar a matéria-prima informação dentro desta ótica perversa e aderir ao lado golpista por estar próximo do pensamento dos patrões. E do seu, também. Esta postura é um ultraje à função histórica do jornalista.

Então, neste 7 de abril, dia do jornalista que segundo a versão mais aceita é em homenagem ao médico e jornalista Giovanni Battista Libero Badaró (assassinado por inimigos políticos, em 1830, porque lutava pelo fim da monarquia portuguesa e independência do Brasil), quero homenagear os jornalistas do século 21. Uma legião de militantes, de todas as idades que, sem as redes de tv poderosas e sem o espaço dos jornalões golpistas, até sem diploma, faz de tudo para manter a tradição de luta da verdadeira imprensa nas redes sociais, no embate diário dos blogs, dos sites, comentários, textos. Verdadeiros jornalistas resistentes que rompem o bloqueio nojento e impatriótico da mídia golpista e seus jornalistas de direita. A todos vocês, jornalistas do século 21, o meu forte e sincero abraço.

Aos jornalistas de direita, serviçais do golpe, um conselho: usem o dia de hoje para refletir sobre o trabalho que estão fazendo e que consequências ele deixará para o futuro.

(*) Caco Schmitt é jornalista.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s