A revolta dos Sem Voto

O problema do PSDB é idêntico ao da UDN: carência de votos. Chato, mas eleições implicam nessa equação desagradável: quem faz mais votos ganha, quem faz menos, perde. Este é o jogo.

O problema do PSDB é idêntico ao da UDN: carência de votos. Chato, mas eleições implicam nessa equação desagradável: quem faz mais votos ganha, quem faz menos, perde. Este é o jogo.

Ayrton Centeno

Pouco voto, muita mágoa. Esta é a marca que distingue o golpismo. Não é opinião. É história. É matemática mais do que discurso. E disso se sabe pelo tanto que se repete. Quem não reúne eleitores em número suficiente para, dentro das regras da disputa democrática, alcançar o poder que almeja, parte para uma solução alternativa. Que, mesmo botocada, maquiada e adornada com a indumentária mais atraente, não esconde sua natureza. É golpe.

Voto de menos e mágoa de mais levam à quebra do preceito constitucional, via sem povo e sem voto, como única ponte para o poder. É o quadro que se configura em seis cruciais momentos da história do Brasil dos últimos 70 anos. Em 1950, em 1954, em 1955, em 1961, em 1964 e, novamente, em 2016. É, portanto, novidade antiga.

Em 1950, o ex-revolucionário e ex-ditador Getúlio Vargas volta à ribalta política. Após longo auto-exílio em São Borja, seu avatar agora é o de condutor de massas. E o Brasil se depara com um novo Getúlio. E Getúlio também se depara com um novo Brasil. E se prepara para trazê-lo para o seu lado.

O final da II Guerra Mundial vai encontrar um país diferente daquele dos anos 1930, quando se resumia a uma confederação de morubixabas regionais que cabresteavam o eleitorado dos confins. Após a ditadura do Estado Novo, no hiato eleitoral das décadas de 1930 e 1940, algo se movera. O Brasil mudara.

No pós-guerra, os senhores feudais de terra, vida e voto são surpreendidos pelo crescimento da população urbana. Sob a qual seu controle é rarefeito. Em 1940, somam 12,8 milhões os brasileiros que vivem nas cidades. Em 1950, já são 19 milhões. É uma curva de crescimento que, em 20 anos, ultrapassará a população rural. Expulsos da terra e empurrados para o êxodo, grandes contingentes serão a mão de obra da indústria nas grandes cidades e regiões metropolitanas. Quem lhes dará atenção? A quem darão seu voto? Getúlio estava pronto para abraçá-los.

Na campanha presidencial de 1950, uma tirada de Carlos Lacerda, líder da direitista União Democrática Nacional (UDN) radiografaria o coração do golpismo. E estabeleceria o mantra implícito de gerações de golpistas, incluída a atual:

– O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.

Confesse: o pote cheio até aqui de mágoa – e parco em votos — de Lacerda e da UDN soa notavelmente familiar, não?

Para desconsolo da UDN, Getúlio vencerá as eleições de 1950 a bordo da sigla que forjou para enfrentar os novos tempos, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Aclamado pelos trabalhadores, fará 48,7% dos votos válidos contra 26,6% do udenista Eduardo Gomes, e os 21,5% de Cristiano Machado, do PSD. Na memória popular, é seu benfeitor que retorna.
Imediatamente, a UDN contesta a vitória no TSE. O Lacerdismo tenta barrar a posse do vencedor – e nós vimos isso não faz muito, não é mesmo? Alega que Getúlio deveria ter a maioria absoluta e não a relativa. Quer dizer, reclama que aquele que tivera votos de mais tem votos de menos…

Mas o TSE rejeita a ação e Getúlio é empossado em janeiro de 1951 em meio a uma grande festa popular.

Em 1954, com o trabalhismo fragilizado, o partido de Lacerda, forte nos quartéis, está prestes a aplicar o xeque mate no presidente. Mas, no xadrez violento da disputa, o último lance é de Getúlio e é ele quem destrói, novamente, as ilusões da UDN. Mesmo à custa da própria vida.

Durante os seis anos que se seguirão, o colossal trauma do udenismo seguirá inabalável: não dispor de suficientes sufrágios para alcançar o poder pelo caminho do direito e da lei.

Americanófilo, elitista e privatista, desfralda a bandeira eleitoral do combate à corrupção e à subversão. Uma plataforma que fascina a classe média, enraivecida com a primeira e assustada com a segunda. Frustrada no esforço para alcançar os de cima e atemorizada com o avanço dos de baixo. Antecipa o programa mínimo que seu simulacro, o PSDB, reproduzirá no século 21. Outro déjà vu.

Aliás, poderíamos apelidar de Movimento dos Sem Voto este rio de bílis que não trafega pela Geografia mas que fende o tempo. Dos anos 1950 do século passado até o presente. Há quem pressuponha que o MST representa um risco à ordem democrática e dele tenha medo. Erro. É, antes, uma demanda de direitos no campo da democracia. Já o MSV opera no sentido contrário: é um contínuo produtor de crises institucionais. E uma ameaça real e provada.

Pois o MSV atacará novamente em 1955. Quando a chapa Juscelino Kubitschek (PSD) e João Goulart (PTB), próxima ao getulismo, vence as eleições presidenciais com 35,6% dos votos, impondo nova derrota à UDN – desta vez Juarez Távora, que obteve 30,2% — o golpe ressurge no horizonte. De novo, a alegação é de que JK não conseguira maioria absoluta. De novo, tenta-se anular o pleito. Parte dos quartéis – que já canhoneava o mandato de Getúlio – agrada-se da ideia.

Entre os civis, Lacerda, para quem JK é “o condensador da canalhice nacional”, pilota a conspirata. Defende a adoção do parlamentarismo – com um militar de primeiro-ministro – o adiamento do pleito e, na antevéspera das eleições, divulga uma carta dirigida a João Goulart supostamente escrita pelo deputado argentino Antonio Brandi. É um método que, convenhamos, muito ilustrará o modus operandi da revista Veja nos dias que correm.

No documento, relatam-se entendimentos de Jango com o presidente Juan Perón para instituir no Brasil “uma república sindicalista”, além do contrabando de armas da Argentina. Foi um choque na opinião pública. Mesmo assim, a chapa PSD-PTB venceu. Somente depois das eleições, através de sindicância, o Brasil saberia que a carta era uma completa fraude.

Com JK e JG eleitos, a pressão do complô não arrefece. Então, o marechal Henrique Lott, da corrente legalista das Forças Armadas, se insurge contra a direita fardada. Que conseguira a adesão do presidente da Câmara, Carlos Luz, e do presidente Café Filho (vice que assumira a presidência após o suicídio de Getúlio) ambos fechados com a UDN. Lott bota suas tropas na rua, manda os conspiradores para casa e assegura a posse dos vitoriosos.

Finalmente em 1960, apoiando um candidato farsesco, demagogo e conservador porém fora de suas fileiras, a UDN consegue os votos imprescindíveis para subir a rampa do Palácio do Planalto. Vinculado ao minúsculo PTN, Jânio Quadros irrompera na política como um clown que encenava dramalhões nos palanques: tomava injeções, simulava desmaios, os ombros nevados de caspa. Na sua oratória incendiária, vinha “varrer a corrupção”. Chegaram a defini-lo como um híbrido de Lenin com Carlitos. “Jânio é a UDN de porre”, retratou-o com precisão o udenista Afonso Arinos.

Mas Jânio renunciaria, apunhalando os udenistas pelas costas. Apesar do veto dos três ministros militares, seu vice, João Goulart, do PTB, assumiria a vaga em 1961. Com o apoio do governador gaúcho Leonel Brizola que mobilizou o país em defesa da legalidade. O que foi crucial para o enfrentamento da quartelada que se desenhava. O acaso pregava outra peça na UDN: estava novamente alijada do poder. Pior: o mando e o comando regressavam ao execrável trabalhismo. De pronto recomeçaria a conjuração. Que teve sucesso em 1964.

Acalentando a fantasia de que os generais removeriam Jango do Planalto e lhes devolveriam o governo, as facções civis do golpe – oposição, empresários, latifundiários e donos de jornais – açularam a conspiração na caserna. Era o MSV em pleno devaneio. Nesta quimera, haveria eleições em 1965 e com o espectro que vai da esquerda à centro-esquerda banido enfim da vida política nacional – via prisões, cassações e exílios – o embate seria travado entre conservadores. Parecia perfeito. Com Lacerda, a UDN desembarcaria em Brasília.

Mas os militares tinham outros planos. O de acabar com a UDN e todas as demais siglas. E o de escolher, sem voto algum, os cinco generais que comandariam o país nos 21 anos seguintes. Na redemocratização, as forças que reverberam o ideário udenista foram melhor sucedidas.

Tiveram muitos votos e poucas mágoas. Com o respaldo da mídia, da banca e do empresariado, estiveram fielmente representadas nos oito anos de FHC. Ao final dos dois mandatos, o PSDB, que nascera social-democrata, tornara-se indistinguível de seu parceiro neoliberal, o PFL, filho da Arena e neto da UDN. Inclusive quanto ao moralismo de fachada. De 1995 a 2003, enquanto a dupla esteve alojada no Planalto, tudo parecia fluir no melhor dos mundos, embora o país tivesse quebrado três vezes.

Seu problema ressurgirá em 2002 com o primeiro triunfo de Lula. Volta o drama da penúria de votos. Mas há um consolo. Pensam no fiasco da gestão de outro operário, Lech Walesa, na Polônia, e apostam que o torneiro-mecânico também fracassará. Como fecho dessa projeção, o PSDB retomará a presidência em 2006. Mas a História, essa ingrata, tem outros desígnios.
Embasbacado, o MSV percebe que Lula supera os obstáculos e começa a se viabilizar. Mais surpreso ainda fica quando, após a tempestade do Mensalão, emplaca um segundo mandato.

Contudo, 2010 é uma esperança. Afinal, com José Dirceu e Antonio Palocci fora da briga, o governo não possui candidatos viáveis. A tolerância despenca quando constata o tamanho de sua miséria eleitoral: seus votos não bastam sequer para bater alguém que jamais disputara uma eleição. É o que acontece em 2010 quando Lula elege sua ex-chefe da Casa Civil. Inadmissível, porém, é o que se dá em 2014 quando, apesar do implacável bombardeio midiático, a presidente se reelege.

Um ano e meio após derrotar nas urnas a UDN rediviva, Dilma não tem um minuto de sossego. Os Sem Voto querem surrupiar-lhe no tapetão a vitória que obteve em campo. Nas legiões do MSV, marcham Torquemadas de arrabalde, xerifes de bibocas, a velha, venal e venenosa mídia, sonegadores patriotas, ladrões honrados, respeitáveis corruptos, jovens arcaicos, odiadores sem buçal, os espertalhões de sempre e abobados sortidos e surtados.

Todos os recursos são válidos para o MSV: acusações vagas ou falsas, grampos telefônicos ilegais, justiça caolha, investigações, prisões, vazamentos e publicações seletivas, ignomínia vendida como se fosse notícia, ameaças à vida.

“No Brasil não basta vencer a eleição, é preciso ganhar a posse!” dizia Getúlio. É possível que o acossado Getúlio, antes de desfechar o tiro no coração, pensasse em outra e mais abrangente frase. Algo como “não bastam a eleição e a posse, é preciso ganhar cada dia”. É uma tragédia que perpassa a biografia do Brasil.

O problema de Getúlio, Juscelino, Jango, Lula e Dilma é o mesmo: excesso de votos. O problema do PSDB é idêntico ao da UDN: carência de votos. Chato, mas eleições implicam nessa equação desagradável: quem faz mais votos ganha, quem faz menos, perde. Este é o jogo. Antes, todos devem aprendê-lo. E quem não quer respeitá-lo não pode jogar. Seu nome é Democracia.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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