Ruptura e simpatia na luta pela legalidade

“Quando você está numa batalha, contra um inimigo muito mais poderoso e forte que você, e descobre que tem um amigo, que nem sabia que você existia, este é o melhor sentimento do mundo”. (Do filme Pride (2014), uma comédia histórica sobre o encontro entre gays solidários aos mineiros ameaçados por Thatcher e os mineiros com gays e lésbicas militantes. Um filme sobre solidariedade, generosidade e as rupturas que a luta política pura é capaz de produzir.)

Por Katarina Peixoto

Estamos vivendo dias imensos, de aprendizado, rupturas e descobertas que a luta política pura faz emergir. O Brasil não vive um combate à corrupção do PT, isso já está mais do que claro. Vivemos uma tentativa de extermínio de uma força política, a esquerda brasileira, cujo enraizamento social e legitimidade procedimental passaram a ameaçar as condições de disputa política dentro das regras do jogo, para as forças escravocratas, racistas e parasitadas de traços residuais de nossa histórica e contagiosa desigualdade. Graças a uma campanha tão sórdida como covarde, o ódio político ganhou ares de seriedade e futuro.

Mas a reação veio, animada por legalistas, neste país tão católico e impregnado da tralha do jusnaturalismo, por jovens de classe media e por intelectuais sérios. Trabalhadores organizados e os desorganizados, profissionais que, weberianamente, observam o interesse profissional sobre as exigências estamentais, foram às ruas, estão nas redes, escrevem, não aderem ao golpismo, denunciam, expressam sua consciência: não vai ter golpe. Não vai se repetir esse expediente que nos destruiu a todos.

Nenhum dos males de nosso país, hoje, deixou de ser contemplado, constituído e fortalecido, durante a ditadura que depôs governo eleito legitimamente, há 50 anos. Nenhum.

Vivemos algo novo, hoje. Ao contrário do niilismo autoritário do “não me representa”, que marcou o junho de 2013, quando o governo atual passou a ser ameaçado, as ruas e os dias que se seguiram à tentativa de enjaulamento espetacular de Lula foram dias de reivindicação da representação e da democracia. Tirando um ou dois quadros da se dizente extrema esquerda, tão ignorantes como refratários à regra do jogo democrático, a esquerda, muito além do PT, reagiu. Sem uma demanda partidária para explicar o que está em jogo, ficou claro que o extermínio de uma sigla e da atual experiência do governo precisam de expedientes autoritários, para vingar o ódio de classe e a indignação escravocrata que nos assolam, ainda. E ficou claro, também, que essa sigla, a esquerda não partidária e os que reconhecem o avanço do país nos últimos anos sabem disso.

Muitos aprendizados em curso. Para muita gente, que nunca viveu sob a ditadura, que já nasceu sem inflação, que cresceu achando que não ter famílias com fome pelas ruas é normal, que ter escravos em casa, recebendo salários mínimos de miséria e fome, é um escândalo e uma indignidade, este é um momento divisor de águas. E as ruas ensinam, e a luta forma, e novos elos são constituídos. A direita, sempre escorada no ódio, não pode agregar coisa alguma, quando o que exige é somente destruição e aniquilação.

Tentaram isso em junho de 2013 e fracassaram. A luta pelo extermínio não forma, se não há a representação de algo, a mirada no dia seguinte, algo que explique ou deixe, como possibilidade de explicação, a experiência da luta política. A promessa do fascismo é a morte. A promessa da Política é a vida em comunidade. Porque faz sentido estarmos juntos. Não por um programa máximo, nem de transição. Pela lei, que seja. A nossa simpatia, a nossa generosidade e o nosso espírito público são suficientes, já dizia Adam Smith, para termos uma sociedade livre. É em uma sociedade na qual esses vínculos existem que são dadas as condições para a demanda por liberdade. Por isso, é preciso limitar o autointeresse, eventualmente romper com as demandas estamentais, e abrir-se à experiência que a simpatia oferece.

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