Para MST, arroz sem agrotóxicos e sem transgênicos indica o caminho para novo modo de produção

Abertura oficial da 13ª Colheita do Arroz Agroecológico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocorreu no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

Abertura oficial da 13ª Colheita do Arroz Agroecológico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocorreu no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

É possível produzir alimento de qualidade, em grande escala, sem uso e agrotóxicos e transgênicos. Essa realidade vem sendo reafirmada a cada ano que passa no Rio Grande do Sul, nas cerimônias de abertura oficial da colheita de arroz agroecológico promovidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A 13ª abertura da colheita, ocorrida na última sexta-feira (18), no Assentamento Filhos de Sepé, não foi diferente, mostrando a evolução deste modelo de produção que vem sendo implementado nos assentamentos do MST. “A produção de arroz agroecológico faz parte de uma estratégia mais ampla do MST que envolve um debate sobre a necessidade de construir outro modelo de produção no campo. Neste ato que estamos realizando aqui hoje estamos mostrando, mais uma vez, que é possível outro modelo de produção, sem agrotóxicos e transgênicos e sem destruir o meio ambiente”, diz Cedenir de Oliveira, da coordenação estadual do MST no Rio Grande do Sul.

Os números da safra 2015-2016 de arroz orgânico são expressivos. A meta é colher mais de 478 mil sacas de arroz, entre grãos e sementes (434,9 mil sacas de grão e 44 mil sacas de semente) em todo o Rio Grande do Sul. A produção de grãos ocorre em 17 assentamentos, distribuídos por 13 municípios do Estado e envolvendo o trabalho de 421 famílias de assentados. Já a produção de sementes ocorre em nove assentamentos, com 135 famílias envolvidas. A produção de arroz agroecológico das famílias do MST começou em 1999 e é coordenada pela Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap). Hoje, o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

A certificação orgânica do arroz é realizada em todas as etapas da produção, com base em normas nacionais e internacionais, desde o ano de 2004. Ela ocorre por meio de dois procedimentos: certificação participativa (OPAC – Coceargs) e auditoria (IMO – Ceres).

Agroindústrias e preservação ambiental

Criado em 1998, no distrito de Águas Claras, em Viamão, o assentamento Filhos de Sepé, com 6.935 hectares, é um dos principais polos dessa produção. Ao todo, 376 famílias foram assentadas nesta área, vindas de vários municípios do Estado, especialmente das regiões das Missões e Alto Uruguai. Além do arroz, as famílias produzem hortaliças, frutas, panifícios, leite e cultivam abelhas, entre outras atividades econômicas. O assentamento conta ainda com duas agroindústrias de processamento de alimentos: uma para o beneficiamento de vegetais e outra de panifícios, além de outras pequenas agroindústrias caseiras. E esse parque agroindustrial será ampliado em breve. Na cerimônia de abertura da colheita, o prefeito de Viamão, Valdir Bonatto, entregou a licença para a construção de uma unidade de beneficiamento de arroz no assentamento.

Somente no assentamento Filhos de Sepé serão colhidas cerca de 125 mil sacas de arroz na safra 2015-2016, o que faz da área o maior produtor de arroz orgânico do Brasil. Os assentados definem a sua terra como um território livre de transgênicos e agrotóxicos. Na cerimônia de abertura da colheita, o superintendente regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Roberto Ramos, destacou o trabalho realizado pelo MST, tanto por comprovar que é possível produzir alimentos sem agrotóxicos e transgênicos, como por preservar o meio ambiente. O assentamento Filhos de Sepé está inserido na Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande e está ligado à Unidade de Conservação Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos. Com uma área total de mais de 2543 hectares, este ecossistema uma ampla diversidade de fauna, incluindo algumas espécies em extinção, como é o caso do cervo do pantanal.

“O assentamento está fazendo sua parte nesta área de preservação ambiental e serve de exemplo para outros produtores de arroz da mesma região”, assinalou Ramos. O Superintendente Regional do Incra no Estado lembrou que a empresa Incobras Agrícola vendeu a área para União, para fins de reforma agrária, porque não considerava viável a produção de arroz agroecológico naquela terra. Os assentados aceitaram o desafio e, quase dezoito anos depois, mostram com orgulho o que construíram. Roberto Ramos também destacou o sistema de gestão participativa da água, pioneiro nos assentamentos no Rio Grande do Sul. O perímetro irrigado no assentamento é de 3.400 hectares, mas a área máxima permitida para plantio é de 1.600 hectares. O sistema de gestão dos recursos hídricos do assentamento é administrado pelos assentados em parceria com o Incra.

Autonomia e domínio do processo produtivo

Emerson Giacomelli, coordenador do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico, destacou que o sistema de produção sem uso de agrotóxicos e transgênicos busca construir alterativas concretas ao modelo de agricultura do agronegócio, promovendo, além de aumentos saudáveis e de qualidade, uma relação de integração entre os seres humanos e os recursos naturais. Além disso, esse modelo estimula a organização das famílias assentadas em cooperativas e outras formas de associação.

A 13ª abertura da colheita do arroz agroecológico foi, ao mesmo tempo, um momento de celebração dos avanços conquistados no período de 17 anos de cultivo orgânico e também de reafirmação dos objetivos mais amplos e estratégicos do MST. Um dos principais é construir um sistema de produção agroecológico com o controle de todo processo produtivo pelos agricultores, incluindo a produção de sementes, o plantio, colheita, secagem, armazenagem, beneficiamento e comercialização. A ideia geral é de obter autonomia e domínio de todo o processo produtivo.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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