Estado de Sítio nunca mais

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Renato Dalto

No cárcere, sequestrado, Dan Mitrione, que veio ensinar a torturar nos porões das ditaduras do Cone Sul, olha o interlocutor e pergunta:

– Por que causa vocês lutam.

E recebe a resposta:

– Nós lutamos por um mundo onde não serão necessárias pessoas como você.

O diálogo acontece em “Estado de Sitio”, filme de Costa Gavras, que relata o sequestro do agente norte americano pelos tupamaros, no Uruguai. Sempre lembro dessa frase: “Um mundo onde não serão necessárias pessoas como você”.

Os partidários da força, da paulada, da tortura são muito parecidos com a torcida talibã pelo justiceiro, pela justiça fanática a qualquer preço, pelo linchamento de todo o contrário. “Um mundo onde não serão necessárias pessoas como você”.

Foi nesse país, onde Dan Mitrione foi sequestrado e morto pelos tupamaros, que se instalou a mais violenta ditadura da América Latina. No centro de Montevidéu, as pessoas eram abordadas na rua e obrigadas a deitar com o rosto no chão com um fuzil apontado pra nuca.

Os prisioneiros eram levados em caminhões do exército para serem interrogados nos tribunais militares acolherados por correntes nos pés. O país vivia em verdadeiro estado de sítio em um regime de justiça implacável – ser contra é estar morto, senão fisicamente, simbolicamente dentro da sociedade.

Não há mais espaço pra isso, mas me vem de novo a imagem de um estado de sitio. Os fuzis na nuca foram substituídos pela coerção civilizada, onde se prende para depois perguntar. A acusação prescinde de provas – basta por si só. Um juiz escolhe quem prender e quem soltar, quem investigar e quem livrar. Tentou sequestrar um ex-presidente, mas a Aeronáutica impediu. Hoje vazou o interrogatório. Nas entrelinhas, um delegado constrangido e educado interroga um homem que, sabe, significa sobretudo um país dos que lutam pra não morrer de fome. O interrogado poderia dizer que tentou erguer um país onde pessoas como ele não tivessem mais que lutar contra a fome. Mas não era isso que estava em jogo.

Hoje, no fim do dia, o estado de sitio a Lula rompeu o cerco. Como um exilado numa embaixada, Lula assumirá um ministério. Para ter garantias de defesa sem o risco eminente de prisão escorada num aberração jurídica – a prisão de um acusado sem provas. O rito do justiçamento. O estado de sitio decretado na caça a um homem.

Se errou ou não, se é corrupto ou não, só se saberá dentro da justiça, do amplo direito de defesa e da consistência de provas. Mas Lula já está julgado. O pré-julgamento é a decretação de um estado de sitio individual. Talvez um dia tenhamos que sair as ruas de novo, brigar de novo, construir um novo país que prescinda de justiceiros e perseguidores implacáveis. Senhor juiz implacável: um país precisa prescindir de pessoas como você.

O rosto de Dan Mitrione, o torturador, foi esquecido. Até hoje, em qualquer confim arrebalero do Uruguai, surge o rosto de Raul Sendic, líder tupamaro preso e torturado. Sendic tem o olhar triste, mas o brilho envolve a pupila com uma certa gravidade. Tem um ar meio índio, talvez traga o sangue dos charruas chacinados.

A história guarda esse rosto para sempre. Ninguém sabe a cara dos justiceiros que o capturaram.

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2 ideias sobre “Estado de Sítio nunca mais

  1. Analia Sanches Dorneles

    Li o texto rapidamente, mas achei extremamente importante,minhas lágrimas teimosas de uma senhora de mais de 60 anos surgiram e me ajudaram a recarregar minhas vontades de luta e reverenciar as minhas origens, Charrua e Guarani. Tomei a liberdade de compartilhar. Abraço

    Resposta

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