Entre a Redenção e o Parcão, a tal da luta de classes

parcao900
O dia 13 de março começou em Porto Alegre com amigos fazendo recomendações de cautela pelas redes sociais. “Olha, falando sério, vê se não ficar aí pelos arredores do Parcão com camisetas do PT. Não vale a pena bater boca com malucos, além do que pode rolar agressão. Vão pra Redenção”. A capital gaúcha, neste domingo que amanheceu cinzento, está dividida em dois territórios bem demarcados: Parcão, o enclave da direita porto-alegrense, e a Redenção, para onde foi programada a manifestação em defesa da democracia e contra o movimento golpista. Os atos “Fora Dilma” em Porto Alegre têm uma peculiaridade. O Rio Grande do Sul é o Estado que lidera o ranking de políticos investigados na Operação Lava-Jato: seis ao todo, todos da bancada federal do Partido Progressista (PP), que ajuda a organizar o protesto “contra a corrupção” no Parcão.

Mas o território do Parcão só tem olhos para denúncias envolvendo o PT. Essa obsessão foi retroalimentada por um anticomunismo raivoso que muita gente julgava extinto. O “vai pra Cuba” voltou com força, carregando junto tudo o que tenha “cara de esquerda”; do Bolsa Família ao Mais Médicos, de Cuba a Venezuela, do MST aos sindicatos. A velha luta de classes ressurgiu com todo seu esplendor para surpresa daqueles que já tinham decretado a sua extinção. Mas o DNA do dinossauro estava latente, esperando para dar as caras. E fez isso num contexto bem conhecido na história do Brasil. A associação entre discurso contra corrupção e anticomunismo foi usada contra Getúlio, contra Jango e Brizola e, agora, contra Lula e Dilma. Nas vezes em que esses discursos foram vitoriosos, curiosamente, a corrupção deixou de ser combatida e voltou a tudo como era dantes no quartel de Abrantes.

O fato é que a estrutura de classes no Brasil se moveu de seu leito habitual, mexendo junto com valores, imaginários e práticas sociais. A aglutinação de pautas conservadoras de direita, e mesmo de extrema-direita, como defesa da pena de morte, da ditadura militar, da prisão e morte de comunistas e gente de esquerda em geral, contra os “defensores de direitos humanos” e outras bizarrices do tipo, não é um fruto do acaso. As ideias e valores da direita que saiu do armário foram sintetizadas pelo deputado federal Luiz Carlos Heinze, um dos parlamentares do PP gaúcho investigados na Lava Jato, quando reuniu sob o guarda-chuva do “tudo que não presta” gays, lésbicas, índios e quilombolas. Esse conceito ajuda a demarcar a geografia política em Porto Alegre neste domingo: o pessoal do “tudo que não presta” reunido na Redenção, enquanto “tudo o que presta” está salivando no Parcão. Há quem não goste dessa polarização, mas ela tem uma característica peculiar: teima em existir. Talvez seja por alguma razão.

Em meio a tudo isso, alguns vendedores ambulantes tratam de ganhar alguns trocos, vendendo a bandeira do Brasil ao lado de pequenos pixulecos de Lula, vestido de presidiário, o presidente que não fez nenhuma revolução no país, mas decidiu iniciar um processo de redistribuição de renda que fez milhões de brasileiros e brasileiras saírem da miséria.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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Uma resposta para Entre a Redenção e o Parcão, a tal da luta de classes

  1. Ana Luiza fitz disse:

    Vou para Redenção.

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