Por que Lula?

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Por Marcelo Danéris

Lula é a expressão de um Brasil de contrastes, originário do país profundo que distancia o interior pobre nordestino dos opulentos centros do sudeste. Lula é um brasileiro de hábito simples, com alguns pecados da língua e conhecidas paixões populares, trabalhador, intuitivo, ou seja, a média generosa do que conseguimos ser depois de séculos governados por colonizadores, oligarcas, coronéis, ditadores, e os “modernos garotos de Wall Street” e seu maravilhoso mundo dirigido pelo mercado. “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”, cantava Humberto Ghessinger.

Desde que foi preso pela ditadura militar, em 80, acusado de incitar a desordem pública (qualquer semelhança com as atuais acusações do Ministério Público de São Paulo não é mera coincidência), Lula sofreu todo tipo de acusação que pretendia impedir sua chegada, e também permanência, no cargo maior da República. Entre elas, de sequestro, aborto, e até racismo.

Todas as supostas denúncias ganharam da grande mídia enormes destaques, com direito a capas de revistas e longos editorias em jornais. Nada, no entanto, chegou ao ponto do que estamos presenciando hoje, com a espetacularização do processo investigatório da Lava a Jato, a manipulação da notícia, os vazamentos seletivos de informações, as investigações direcionadas, os métodos de exceção na prisão e condução de investigados. Transformaram a justa e necessária luta contra a corrupção em uma arma da disputa política, e justificativa para um golpe institucional contra a democracia a partir de um impeachment sem crime. E o que conseguiram até agora foi incendiar e dividir o país. A única coisa que cresceu até agora foi o ódio de classe e a intolerância política, e na sua esteira o preconceito, o racismo, a homofobia.

A dura realidade da maioria da gente brasileira, e a incessante e pesada artilharia de ataques e acusações, não impediram Lula de chegar a Presidência da República. Havia uma história a mudar, e distâncias a aproximar diante do abismo social da realidade brasileira. Algo inaceitável para uma elite adepta aos paradigmas dos mercados financeiros, e inconsolável com a substituição do “príncipe dos sociólogos” pelo metalúrgico nordestino. Afinal, quem seríamos nós para contrapor os princípios do Consenso de Washington que salvariam nações a partir da redução do Estado, da abertura da economia, da venda do patrimônio público, da flexibilização dos direitos trabalhistas, do fim do Welfare State. Era o remédio certo na medida exata, e o “pensamento único” neoliberal, que embalou os setores conservadores brasileiros nos anos 90, requeria a adesão incondicional e subordinada, confiantes no sucesso da gestão do Estado pelo mercado. Prometeram o paraíso, entregaram o inferno. Lula mudou o rumo dessa prosa. A velha e batida tese justificadora do alto déficit econômico e social, de Sarney a Era Fernando Henrique, “fazer o bolo crescer para depois dividir”, esfarelou.

Pois hoje são estes mesmos condutores de então que comemoram a possibilidade de prender ou ferir de morte Lula. Dizem-se até entediados em ouvir os mesmos argumentos em favor de Lula, que segundo um jornalista gaúcho são “clichês de petistas menos requintados”. O “monólogo enfadonho” que se repete, e não os comove, fala sobre como Lula fez o Brasil crescer distribuindo renda, sobre os mais de 40 milhões de brasileiros que saíram da miséria absoluta, o Prouni, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, etc.. Essas “coisas monótonas” sobre “privilégios” para gente que, em outros governos, seriam largadas à própria sorte, ou melhor, as virtudes da competitividade e da livre iniciativa.

Pois bem, entre um e outro bocejo entediado da elite, alheia ou alienada do Brasil real, milhões de brasileiros passaram a comer, e sonhar no que poderiam ser. Lula deixou de ser Lula, passou a ser a representação de um projeto político, de uma visão de mundo, de uma experiência real, e o mais perigoso: uma ameaça permanente de poder, ou “um exemplo de vitória para milhões de fracassados”, nas reveladoras palavras de Arnaldo Jabor. O crescente ódio de classe e a intolerância política que se revelam a cada dia movem aqueles que desejam derrubar, prender, humilhar Lula. Cabe perguntar por quê? Por que só Lula? Talvez porque seja parte deste povo “bovino”, referido por Diogo Mainardi, no programa Manhattan Connection, sobre o voto dos nordestinos na vitória da presidenta Dilma em 2014.

Lula tem defeitos e também erra, nunca pensamos diferente, nem dele, nem de nós mesmos. Mas o que justifica a verdadeira caçada a que está submetido? Por que suspeitas igualmente graves contra Fernando Henrique, Aécio, Alckmin, por exemplo, sequer são investigadas? A injustiça nos indigna tanto quanto a corrupção. O Brasil que pode emergir da injustiça, das exceções, da perseguição política, da mídia partidarizada, e de investigações parciais da corrupção não será um país melhor. Hoje não está mais em questão nem Lula nem Dilma, mas a própria defesa da democracia e do futuro do Brasil.

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