Einstein, Nietzsche e Tumelero: sobre as leituras e citações de José Ivo Sartori

José Ivo Sartori gosta de fazer citações, como a demonstrar que não é apenas um “homem simples que sabe fazer”, mas que também tem lá suas leituras. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

José Ivo Sartori gosta de fazer citações, como a demonstrar que não é apenas um “homem simples que sabe fazer”, mas que também tem lá suas leituras. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

José Ivo Sartori é um homem simples, mas competente. Durante a campanha eleitoral de 2014, essa foi uma das mensagens principais veiculadas pela propaganda do candidato do PMDB. O par “simples-competente” era uma oposição explícita ao “intelectual-incompetente” que traduziria a figura do então governador Tarso Genro. Em inúmeras ocasiões, com inclinações e contextos diferentes, essa oposição era trabalhada. Tarso é habilidoso com as palavras, sabe falar, mas não sabe fazer. Já Sartori, é o homem simples do interior, meio tosco até, mas que sabe fazer. No entanto, apesar da mistura de ironia e desprezo com que encara os “intelectualismos” da vida, José Ivo Sartori gosta de fazer citações, como a demonstrar que não é apenas um “homem simples que sabe fazer”, mas que também tem lá suas leituras.

Em sua última incursão teórica, o atual governador lembrou um episódio que envolveu anos atrás o jornalista Paulo Santana e o psiquiatra Paulo Rebelato. Em um programa na extinta TVCOM, os dois pretendiam debater problemas gerais da vida cotidiana e da existência humana. Certo dia, Santana sacou um papelzinho do bolso e advertiu seu interlocutor dizendo que, naquele dia, tinha ido preparado e Rebelato não ficaria dando “carteiraços teóricos” sozinho. E desandou a ler algumas citações de Nietzsche que recolhera para o programa. Na semana que passou, o governador de Sartori repetiu o gesto de Santana e tirou do bolso o seu papelzinho com uma suposta citação de Einstein sobre as crises, escolhida para responder a críticas feitas no dia anterior pelo novo presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Luiz Felipe Silveira Difini.

Einstein é um dos autores que lidera o ranking de falsas atribuições de citações, nas redes sociais. Até hoje, ninguém conseguiu apontar a fonte, nos textos de Einstein, da citação feita pelo governador gaúcho. Após o caso vir a público, alguns apoiadores de Sartori ensaiaram uma tentativa, dizendo que as frases em questão estavam em uma reflexão que Einstein fez sobre a crise econômica mundial da década de 1930, que apareceriam no livro “The world as I see it”, traduzido no Brasil, em 1981, pela Editora Nova Fronteira. De fato, o físico escreveu alguns parágrafos sobre a crise, mas a citação de Sartori não habita os mesmos. Mas não é isso que importa, aqui. O que chama a atenção é como a autoridade política máxima do Estado expõe-se publicamente com um gesto deste. Não se trata de um detalhe insignificante, como alguns se apressaram em dizer, em defesa do governador.

Em primeiro lugar, o mínimo que se espera de alguém que faz uma citação em uma conversa é que a mesma seja verdadeira, ou seja, que as palavras em questão tenham saído mesmo da boca ou da pena do autor citado. Podem acontecer enganos, mas espera-se que a assessoria de um governador de Estado o preserve desse tipo de situação. Em segundo, por que o “homem simples, que não tem grandes elaborações intelectuais, mas que sabe como fazer” recorre a citações para responder a críticas políticas, ainda mais a citações de autoria não comprovada? Ao contrário do que quis fazer crer sua propaganda eleitoral, Sartori parece ter também as suas pretensões intelectuais e que não é apenas um homem simples que gosta de fazer piadas, como mandar os professores buscarem o piso na Tumelero.

A Wikipedia apresenta o atual governador do Rio Grande do Sul como um “professor, filósofo e político” brasileiro. Sartori, de fato, formou-se em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul. Como alguém com formação acadêmica, deveria saber, portanto, que comprovar a autoria das citações é uma regra básica de respeito e bons modos intelectuais. Uma visita rápida ao Google não garante o cumprimento dessa regra básica.

No dia 25 de setembro de 2015, o governador fez outra incursão teórica durante uma cerimônia no Palácio Piratini. Desta vez citou Nietzsche, lendo um trecho do livro “Nietzsche para estressados”, de Allan Percy. O livro em questão é uma espécie de manual de autoajuda intelectual que reúne 99 máximas de Nietzsche e “sua aplicação a várias situações do dia a dia”.

A mistura desse tipo de citações com piadas improvisadas de gosto duvidoso parecem indicar vestígios de um complexo de inferioridade que, em algum recanto da alma, revela uma aspiração sufocada: “não sou apenas um homem simples; também posso dar meus carteiraços teóricos”. Se é assim, a assessoria do governador deveria ajudá-lo. Na campanha eleitoral, Sartori tinha o apoio permanente de seu marqueteiro de campanha que o orientava com cartazes durante debates. Agora, no governo, ele não tem mais esses cartazes à sua disposição para orientá-lo sobre o que dizer, a cada situação. Leituras de orelha, citações via Google e manuais de autoajuda intelectual não fazem de “um homem simples que sabe fazer” um “homem sofisticado que também sabe como fazer”. Fica o conselho. De grátis, como diria o filósofo.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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