A cidade apagada

Temporal em Porto Alegre derrubou árvores e sistema de abastecimento de água e energia em praticamente toda a cidade. (Foto: Ivo Gonçalves/PMPA)

Temporal em Porto Alegre derrubou árvores e sistema de abastecimento de água e energia em praticamente toda a cidade. (Foto: Ivo Gonçalves/PMPA)

Por Lena Annes (*)

Ando quase triste pela cidade, com cautela e afastamento, ao ver a Porto Alegre que adotei se transformando em algo que não sei definir.

Foi esta sensação que consegui extrair do meu estado de espírito depois de não reconhecer a Porto Alegre assolada por um fenômeno semelhante a um furacão com ventos superiores a 120 quilômetros na noite de sexta-feira (28/01/16).

Em um primeiro momento, após a ventania cessar e verificar que não ocorreram danos físicos e materiais (apenas alagamentos pontuais na cozinha e na área de serviço e um vidro quebrado no corredor do prédio em que moro) senti uma uma sensação de alívio, logo substituída pela apreensão com o que ainda viria, pois era evidente que a cidade fora duramente castigada. Temi pelo pior e pelas pessoas que se encontravam desabrigadas nas ruas escuras. A sensação de vácuo permanece e agora tentam passar alguma organização no rescaldo do fenômeno.

Olhando a cidade escura, com luzes em pontos isolados fiquei pensando na nossa falta de preparo para lidar com estes fenômenos, que ocorreram nos últimos verões, cada vez mais intensos. Em outubro de 2015 um outro vendaval, acompanhado de trovoadas e raios inundou a cidade causando estragos, menores, mas significativos.

E pior, a falta de preparo de quem administra a cidade e os serviços públicos.

Afinal moramos em uma capital. Temos mais recursos. Não deveria ser diferente?

E todo mundo sofre. Em todos os bairros. Sem luz e sem dinheiro, não adianta cartão nenhum pois os terminais bancários não funcionam. E quem tem problemas de locomoção ou vive sozinho, como fica? Sem luz, sem internet, sem elevador?

E por fim, sem um comando centralizado para planejar os reparos e ajuda necessários, só contamos (de imediato) com os funcionários públicos de salários parcelados, para nos socorrer, cortar árvores caídas e restabelecer um pouco de ordem no caos.

Pobre Porto Alegre.

Dizem que é impossível prever este tipo de fenômenos, mas agora que,sabemos que acontecem não é hora de pensar no assunto. Percebe-se que o poder público estava despreparado e desmobilizado. Faltou comando e agilidade para mapear a cidade e atender às prioridades, como hospitais e outros estabelecimentos essenciais.

A circulação no dia seguinte, sábado, foi restrita e as ruas permanecem vazias, sujas e cobertas de árvores e galhos caídos.

Durante todo o final de semana as principais informações só foram repassadas pelas rádios, que deram algum destaque para os apelos e reclamações da população mas mantiveram sua programação habitual.

Aos poucos, nas redes sociais surgiram notas oficiais mas com boa parte da cidade sem luz e internet, quantos estão conectados?

Acredite, não foi criado um número 0800 de emergência para tranquilizar, orientar e receber ligações da população. Parece incrível que o Banrisul, o banco estadual não disponibilizou um gerador para saques em dinheiro em alguma agência já que com o comércio e supermercados fechados, só era possível comprar em algumas lojas de conveniência e com dinheiro. Sem falar que as casas máquinas das estações de tratamento de água da cidade são antigas e não funcionam quando não tem luz e aí vira um círculo : sem luz, sem água.

Quem teve condições viajou para fora da cidade ou foi para hotéis, mas e os outros? E nos bairros onde a infraestrutura é mais precária sempre?

São muitas perguntas e tento, alguma compreensão, mas faltou gestão, planejamento e transparência já que não é o primeiro (e provavelmente) não será o último fenômeno que enfrentaremos, fruto de um planeta que estamos modificando violentamente.

Quando nossos governantes aprenderão a ser mais solidários e ágeis nas catástrofes e dar mais atenção ao meio ambiente?

(*) Jornalista

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