Natal: suas muitas versões e corruptelas mercantis

natal

Jacques Távora Alfonsin

A apropriação abusiva da história do nascimento de Jesus Cristo, feita pelas conveniências de mercado, praticamente impede seja lembrado o extraordinário significado deste dia festivo.

Ele tem sido interpretado completamente fora do seu contexto histórico, cercado de afetação sentimental, fazendo passar o presépio – para não dizer cocheira ou estrebaria – como um lugar confortável e não um refúgio precário de acampamento, onde o burro, o boi e as ovelhas parecem estar fornecendo ar condicionado para o recém nascido. Maria e José colocados como atores de uma peça previamente manipulada para esconder o medíocre disfarce da extrema pobreza do lugar. Até o cocho onde a criança foi deitada após o parto, por ausência de berço (!), mudou de nome para não escandalizar. Passou a se chamar manjedoura.

Se a Bíblia for lida com um mínimo de senso crítico, a história do acontecido é bem diferente, fazendo prova disso o que aconteceu na vizinhança. Alguns pastores, tão pobres quanto José e Maria, vigiando ovelhas nas proximidades, foram chamados por uma espécie de mídia também muito diferente da de hoje, representada por alguém proclamando a seguinte mensagem:

“Estou aqui para trazer uma boa notícia para vocês, e ela será também motivo de muita alegria para todo o povo! Hoje mesmo, na cidade de Davi, nasceu o Salvador de vocês – Messias, o Senhor! Esta será a prova: vocês encontrarão uma criancinha enroladas em panos deitada numa manjedoura {…} Glória a Deus nas maiores alturas do céu e paz na terra às pessoas a quem Ele quer bem.”

Aqui não cabe serem lembradas as muitas e divergentes interpretações que até hoje procuram extrair sentido e referência desta notícia, desde a atribuição de uma pura invencionice criada por um pensamento mágico, crente em anjos e deuses, até a da fé numa intervenção divina bastante para confirmar tudo quanto tinha sido previsto pelos profetas séculos antes. Mesmo adotado um raciocínio descomprometido com qualquer desses modos de ver – coisa difícil, dada a forte influência ideológica inerente a toda interpretação histórica – a fonte da notícia, o seu conteúdo e as/os suas/seus primeiras/os destinatárias/os, se forem comparadas com os seus efeitos futuros, dão muito o que pensar, seja para quem crê, seja para quem não crê.

Se a origem for reconhecida como divina, a lógica determina existirem verdades não científicas, de pura fé e essas com uma força de potência inigualável, provada na história, entre outros sinais, pelos milhares de mártires que preferiram sacrificar a própria vida para não trair a fidelidade do seu pensar, sentir e agir de acordo com o seguimento de Jesus. Se o conteúdo da “boa nova” for reconhecido como modelo de vida, a prevalente nas festas natalinas de agora está muito distante daquele “programa”, a começar pelo sentido e a referência da “salvação”.

Como a alegria e a paz foram indicadas como duas de suas características, a salvação não pode ser um estado etéreo, abstrato, reservado somente para santas/os após a morte. Alegria e paz são efeitos inseparáveis de justiça e essa é incapaz de “salvar” qualquer convivência humana que descarte uma relação interpessoal de respeito e amor à/ao outra/o, como um ser digno do bem viver em comunhão fraterna, valendo isso para todo o grupo humano, até para as relações internacionais entre países ricos e pobres.

Se a alegria natalina de hoje é imposta mais pelo costume e a moda do que pelo autêntico entusiasmo de lembrança do aniversariante, a paz está quase sem vez e sem voz. No lugar de ambas se implantou um sistema que só atribui salvação ao dinheiro, um deus também muito diferente do Filho de Maria. Para esse outro deus toda a boa nova fica dependente da sôfrega conferência, feita diariamente no computador, sobre o movimento financeiro da bolsa de valores, tão surdo à notícia ouvida pelos pastores e tão distante do estábulo, onde chora mal acomodado o Recém Nascido, quanto a terra fica da última galáxia.

Assim, a boa nova só pode mesmo ser considerada boa se forem consideradas/os as/os suas/seus destinatárias/os. Aí ela ganha, talvez, a sua maior significação. Gente muito pobre – como era e ainda hoje é a das/os sem-terra e sem-teto, quilombolas, índias/os e catadoras/es de material – foi a primeira a saber do fato, tudo indicando ter havido uma preferência clara sobre a quem, de fato, ela era endereçada. Se a “salvação” fosse só imaterial, exclusivamente espiritual, reservada apenas para as almas na eternidade, a justiça como condição de alegria e paz, refletida em convivência de bem viver, não teria sido boa notícia para quem justamente sofria, e até hoje sofre dos seus contrários, no seu próprio corpo. Injustiça, opressão, desprezo, discriminação, despiste, engano e indiferença, por exemplo, são tratamentos comuns, considerados preconceituosamente normais, dados a pobres e miseráveis, mas inaceitáveis e intoleráveis para a Criança, posteriormente assassinada na cruz, por força, inclusive, do cumprimento fiel da salvação prometida às/aos pastoras/es. Excluído esse povo do convívio justo, a aplicação da lei, com força bem inferior a das imposições do nosso sistema socioeconômico, ontem como hoje, se encarregam de fornecer legitimidade para a sua segregação.

Bernard Haring mencionando Deus, mas em linguagem capaz, talvez, de ser aceita até por ateus, ensina sobre a lei e o acúmulo de dinheiro: “Um dos pontos fulcrais da teologia cristã é o de que não podemos tornar-nos justos aos olhos de Deus através das obras da lei. {…} O ricaço que não se preocupa com o pobre Lazaro, que não se digna a olhar para ele nem lhe dar uma migalha de pão, exclui-se automaticamente a si mesmo do reino da solidariedade salvífica da justiça permanente.” (Em “Vida em Cristo plenificada”, Aparecida: Editora Santuário, 1998, p. 37).

Quem pensa em atitude solidária e fraterna com as/os pobres, portanto, como esmola ou favor, assistencialismo barato e compensatório, está muitíssimo enganado. A justiça permanente é própria da necessária solidariedade salvífica. Ela não decorre de uma simples prova de gentileza, a ser praticada exclusivamente no natal, para amortecer pruridos de consciência. Reduzida a tanto, até contraria a Vontade e o Desejo da Criança aniversariante. Daí a exigência de partilha do pão aparecer no modelo de oração transmitido por Jesus Cristo às/aos suas/seus seguidoras/es. O “Pai nosso” somente pode nos ouvir se fizermos todo o pão também nosso, comum, e a fome saciada da/o nossa/o próxima/o constituir responsabilidade de todas/os, condição de justiça permanente, assim caracterizada por Ele em mais de uma oportunidade. A primeira, reconhecendo como iguais a fome de pão e a fome de justiça; a segunda, como verdadeiro pressuposto de salvação: “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Evangelho de São Mateus, capítulo 5, versículo 6); “Eu estava com fome e vocês me deram comida; estava com sede e me deram água.” (Idem, capítulo 25, versículo 35).

Entre o consumismo rasteiro e insaciável do nosso sistema socioeconômico capitalista, aguçado no natal, e a Boa Nova trazida pelo Menino Jesus, a diferença maior parece estar nos seus efeitos: o sistema fundamental do primeiro está baseado na liberdade para as mercadorias, a segunda na libertação das pessoas pobres. Se a preocupação do primeiro é produzir e lucrar sempre mais, a da segunda quer produzir o necessário e o suficiente para garantir dignidade pessoal e cidadania, sem discriminação em desfavor de ninguém. Se a concentração do dinheiro e da riqueza impulsiona toda a ação do primeiro, a partilha equitativa e justa de ambos, como forma de satisfazer as necessidades vitais de todas/os, estimula e modela a segunda. Sobre a profunda e injusta desigualdade social gerada pelo primeiro,

Ladislau Dowbor disse-o bem: “Quando uma centena de pessoas são donas de mais riqueza do que a metade da população mundial, enquanto um bilhão de pessoas passa fome, francamente, achar que o sistema está dando certo é prova de cegueira mental avançada. Um sistema que sabe produzir, mas não sabe distribuir, é tão funcional quanto a metade de uma roda.” (disponível no site Café Brasil).

O natal é bem mais do que troca de presentes, como se vê. Que a alegria e a paz partilhadas nesta feliz recordação sejam revividas, por todas/os as/os nossas/os leitoras/es, durante todo o ano de 2016!

Sobre maweissheimer

Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalho com Comunicação Digital desde 2001, quando foi criada a Agência Carta Maior, durante a primeira edição do Fórum Social Mundial. Atualmente, repórter no site Sul21 e colunista do jornal Extra Classe.
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