Mãos ao alto! Isto é uma manchete!

faroeste para artigo600

Ayrton Centeno

Contemplando a temporada de caça às bruxas, Luis Fernando Veríssimo andou sugerindo a adoção de duas legislações penais no Brasil. Para acabar com aquele constrangimento quando, por exemplo, helicópteros com 450 quilos de pasta de cocaína sobrevoam incólumes as cabeças de policiais federais, promotores e juízes. Não causam aborrecimento algum para os proprietários da aeronave e suas amizades mais próximas e intensas. Olho branco, lerdeza e uma prescrição amiga. Para tais casos e tal clientela, vigorariam a norma, os prazos e o rosário de recursos camaradas que aí estão. A segunda seria exclusiva para enquadrar petistas. Nela, indícios valeriam como provas irrefutáveis, suspeitos ganhariam status de acusados e réus de condenados. Olho rútilo, rito sumário e jaula.

Era uma interpretação galhofeira do realismo fantástico e inquisitorial que nos devasta. Mas com raízes históricas. Talvez Veríssimo não saiba mas o que preconizou é novidade antiga. Em 1894, o médico e antropólogo Nina Rodrigues, autor de As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil, propôs a instituição de dois códigos penais, um para os brancos e outro para os pretos. A sério.

Na sua visão, o Brasil se debatia com o “Problema Negro”, causa, para ele, da inferioridade do homem brasileiro. Entregar o país aos negros e mestiços significaria privar a pátria “da direção suprema da Raça Branca”. Mais tarde, outro luminar, Afonso Arinos de Mello Franco, criticaria “as características primitivas” do povo, pregando que “a massa popular precisa ser contida pela elite branca”. Cá entre nós, você também farejou algo familiar aí, não?

Um upgrade da solução Nina Rodrigues não enjaularia hoje somente petistas mas todos os seus assemelhados reais ou fictícios a saber: esquerdistas, feministas, homossexuais, índios, negros, transgêneros, ecopolíticos, anarquistas, sem terra, sem teto, desempregados, black blocs, vileiros, imigrantes, maconheiros, mendigos e sabe-se lá o que mais. Porque o macartismo em voga — neste revival dos anos 1950 descongelamos a Guerra Fria, ressuscitamos o udenismo e agora, pelo jeito, só nos falta adotar a estante de pé palito e o bambolê – não deixará por menos.

Haveria um regramento para os bons e outro para os maus. E reinaria a paz entre os juristas. Encurtaria o espaço para as cavilações das raças danadas sem sacrificar o direito dos virtuosos.

E os justos não pagariam mais pelos pecadores.

Se o destino burlescamente nos levar rumo à dicotomia legal e explícita cumpre fazer a coisa bem feita. Para que não venham as reclamações de iniqüidade que sempre atravancam a meta da justiça rápida e eficaz. Basta procurar quem possui o traquejo da técnica e o conhecimento da arte. Ninguém melhor entende de abordagem dúplice do que as corporações de imprensa. Que, desde sempre, adequaram seu produto à máxima de Maquiavel “Aos amigos os favores, aos inimigos a lei”. Aqui, convertida em “Aos amigos tudo, aos inimigos a infâmia”.

Enquanto promotores, procuradores, federais e juízes, manietados pelas regras, penam para debulhar suas espigas e alimentar o consumidor com aqueles grãos que julgam mais convenientes aos seus próprios apetites, os senhores feudais da mídia e seus acólitos obtém o mesmo resultado com muito menor esforço. Porque não há lei, não há código, e não havia – até a semana retrasada – nem mesmo direito ao direito de resposta. É o crime quase perfeito.
Vendem pluralidade e entregam pensamento único. Defendem a livre expressão e circulação das ideias e se portam como o oligopólio que as tolhe. Proclamam a liberdade mas mamam nos úberes da ditadura durante 21 anos, somente dela se afastando quando a vaca já rumava ao brejo. Apresentam-se como cruzados da democracia e imploram pelo golpe. Como fizeram em 1954 com Getúlio e em 1964 com Jango. E como querem fazer em 2015 com Dilma.

No faroeste midiático sem lei e sem alma manda quem pode e obedece quem precisa. Renegados merecem fuzilamento sumário. De manchetes. É a lição que deixam as capas das revistas semanais logo após o acuado Eduardo Cunha apertar o botão do apocalipse. Época mostra o rosto tensionado de Dilma e indaga “Ela resiste?” Veja dedica 24 páginas ao assunto “Impeachment” e em oito chamadas o nome do presidente da Câmara aparece uma só vez, desvelando o desejo de borrá-lo da página e do processo, como uma bosteada de mosca. IstoÉ e Época fazem igual. IstoÉ vem com uma capa vermelha e a manchete “O que falta para ela sair?” Dilma é uma silhueta deixando a moldura e sua faixa já aparece pendurada num cabide. Diz que o PT também quer que ela saia…No mundo de profunda escrotidão em que chafurdam as semanais, é a capa mais escrota. Não é de graça que a irreverência das redações – no tempo em que as redações eram irreverentes — a apelidou de QuantoÉ. Por razões autoexplicativas.

Nas três, as diferenças são de intensidade não de qualidade. Sua natureza é a mesma. Todas saltaram na boleia do golpe. Quem percorrer as capas dos jornalões verá igual panorama. Sem acanhamento. Sem timidez. Sem restrição. E com seu código não escrito debaixo do braço.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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