Debate reúne três visões para Porto Alegre voltar a ser um espaço de transformação política

07/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Seminário POAMAIS, realizado pelo PT e PCdoB, no Hotel Everest. Foto: Guilherme Santos/Sul21

07/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Seminário POAMAIS, realizado pelo PT e PCdoB, no Hotel Everest. Foto: Guilherme Santos/Sul21

A primeira edição do seminário POA Mais Debate, realizada na noite desta segunda-feira (7), no Hotel Everest, reuniu dois economistas brasileiros e um deputado alemão em torno do desafio e pensar um novo projeto de desenvolvimento para Porto Alegre. A economia criativa, com viés voltado para um desenvolvimento ambientalmente sustentável e para a inclusão social, foi o tema central do encontro que reuniu o economista Márcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o economista e professor titular no departamento de pós-graduação da PUC-SP, Ladislau Dowbor, e Klaus Mindrup, deputado federal pelo Partido Social Democrata da Alemanha (SPD) e especialista nos processos de regeneração de espaços urbanos.

Promovido pelas Fundações Perseu Abramo (PT) e Maurício Grabóis (PCdoB), com o apoio da Fundação Friedrich Ebert (SPD), o ciclo de debates POA Mais pretende abrir um novo espaço de diálogo para a população discutir e pensar um projeto de futuro para Porto Alegre. As discussões, de caráter construtivo, devem envolver a população da cidade, ativistas e movimentos sociais, com o objetivo também de fornecer subsídios para um programa de uma frente de esquerda que PT e PCdoB querem construir para as eleições municipais do ano que vem. A próxima edição do seminário ocorrerá no dia 22 de janeiro, durante o Fórum Social Temático e já tem confirmadas as presenças do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad e do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos.

O exemplo de Berlim

O deputado Klaus Mindrup fez um relato das mudanças urbanas, econômicas e sociais ocorridas em Berlim nas últimas décadas, que transformaram a cidade em um centro de atração de jovens do mundo inteiro e de várias modalidades da chamada economia criativa. Antes da Segunda Guerra Mundial, lembrou, a cidade era um grande polo industrial. Com a derrota do nazismo e o fim da guerra, Berlim foi dividida e grandes empresas mudaram de sede para outras cidades. A capital alemã viveu então um intenso processo de desindustrialização. Nos anos 80, observou ainda Mindrup, a prefeitura de Berlim decidiu demolir prédios e casas antigas para construir novas edificações. Ocorreu então um vigoroso movimento de jovens que protestaram contra as demolições e ocuparam vários destes prédios antigos. A mobilização conseguiu evitar a destruição de vários bairros.

Em 1989, com a queda do Muro de Berlim, houve uma enorme euforia na cidade que, posteriormente, materializou-se politicamente com uma guinada à direita. “Os conservadores voltaram a administrar a cidade, com um discurso para atrair de volta as grandes empresas que tinham ido embora. O projeto não funcionou. Os investidores não vieram e aumentou o desemprego”, relatou o deputado alemão. Mas houve um efeito colateral inesperado. O baixo preço dos alugueis acabou atraindo muitos jovens para morar na cidade. Isso deu origem, na década de 90, a uma efervescência cultural, pois havia muito espaço disponível e o aluguel era muito barato.

Muitos desses jovens se organizaram em cooperativas que obtiveram crédito para adquirir prédios, processo que persiste até hoje. Klaus Mindrup integra uma dessas cooperativas. Ele destacou o êxito desse tipo de empreendimento. “Já temos 20 prédios residenciais, onde há moradia social com espaços para jovens, para artistas, para vários tipos de atividades culturais e esportivas. Tivemos apoio da cidade de Berlim para comprar essas casas e prédios. Acabamos de adquirir agora o prédio mais antigo da cidade”. O financiamento desse sistema cooperativado foi uma das ideias destacadas por Mindrup como uma possível política pública em cidades como Porto Alegre.

“Temos bancos alternativos, na forma de cooperativas que ajudam a financiar nossos projetos. Hoje, há centenas de projetos alternativos em curso, com apoio desse modelo de financiamento, que atraiu e segue atraindo jovens do mundo inteiro”, relatou o deputado alemão.

É esse modelo que está na base do desenvolvimento de um rico e diverso sistema de economia criativa em Berlim, abrangendo vários tipos de atividade: cinema, desenvolvimento de softwares e games, música, arquitetura, rádio, televisão, mídia impressa, entre outras. A cidade de Berlim, segundo Mindrup, destina anualmente cerca e 400 milhões de euros para a arte e a cultura de modo geral. “Temos muitos programas de fomento, como a locação subsidiada de ateliers para artistas, por exemplo. Hoje, há mais de 800 artistas beneficiados por esse programa. No mercado normal, eles não teriam condição alguma de trabalhar”.

As cidades como vetor de uma transformação política

Ladislau Dowbor destacou a primeira edição dos debates POA Mais como uma oportunidade, não para propor soluções técnicas, mas para fazer uma apropriação política de ideias e de um programa para a cidade. Para Dowbor, o principal obstáculo para isso não é propriamente a falta de recursos ou de tecnologia, mas sim um déficit de governança. “Nós temos uma fantástica capacidade tecnológica, mas temos uma grande dificuldade de colocar essa capacidade a serviço da melhoria de nossas vidas. Somos capazes de mandar o homem à Lua, mas não conseguimos controlar um mosquito transmissor de uma doença. Em 40 anos, nós conseguimos destruir 52% da vida dos vertebrados do planeta”.

Para o economista, o déficit de governança se manifesta em todos os níveis, do local ao global. “Temos decisões planetárias a tomar, sem que existam instituições capazes de tomar tais decisões. O Banco Mundial, para citar um exemplo, tem menos dinheiro que o BNDES. Eu colocaria no centro dos nossos dilemas não a falta de recursos, mas sim a deficiência dos nossos processos de governança. Neste contexto, o desafio das cidades é resgatar as rédeas do seu próprio desenvolvimento que hoje está totalmente submetido à hegemonia do sistema financeiro, assim como ocorre com as demais unidades da Federação. A financeirização da economia brasileira aprofunda a desigualdade e trava o desenvolvimento”, assinalou.

Dowbor que, enquanto cidades como Berlim tem um banco de fomento próprio, no Brasil, somente este ano, deveremos repassar cerca de 400 bilhões de reais do setor público para o sistema financeiro. “E há quem diga que o nosso déficit público é culpa do Bolsa Família. Como disse um economista francês, é mais fácil tirar o necessário do pobre do que o supérfluo do rico”. Na Alemanha, assinalou ainda, cerca de 60% da poupança é administrada por caixas de poupança locais que destinam recursos para projetos e investimentos nas cidades. “Nós precisamos resgatar nossas cidades deste modelo de aprisionamento financeiro. As cidades têm uma imensa oportunidade de se transformar em um vetor de transformação política. É muito mais que o OP, precisamos trabalhar com conselhos não formais que acolha os diversos movimentos e iniciativas que estão se organizando nos últimos anos, e criar um sistema de informação sobre a cidade que seja de fácil acesso para toda a população. Não está escrito em nenhuma lei que as empreiteiras devem seguir definindo como serão as nossas cidades”, concluiu.

“Esquerda precisa retomar capacidade de planejamento e de pensar o futuro”

Para Márcio Pochmann, o debate sobre a problemática das cidades no início do século XXI está sofrendo uma certa pasteurização. “Estamos muito reféns do curto-prazismo, das soluções imediatas para o cotidiano. Estamos perdendo a perspectiva e a capacidade de planejamento. Esse fenômeno afeta também a produção de conhecimento pelas universidades que está cada vez mais voltada para estudos fragmentados e setorizados”. Na avaliação do economista, não estamos pensando de modo adequado as mudanças decorrentes do segundo ciclo de transformação das cidades.

“O primeiro ciclo foi aquele que marcou a passagem das antigas cidades agrárias para as cidades industriais, que tinham uma baixíssima qualidade de vida, com altos índices de poluição e quase nenhum saneamento. No segundo ciclo, começamos a dar adeus às cidades industriais. A indústria passou a ter um peso pequeno na geração de valor agregado nas nossas cidades. Grandes centros industriais viraram praticamente cidades fantasma, como ocorreu com Detroit, nos Estados Unidos”, assinalou Pochmann. Essa perspectiva, acrescentou, abre a possibilidade para o desenvolvimento das chamadas economias criativas, mas também para atividades serviçais e trabalhos domésticos para as famílias ricas, como ocorre hoje exemplarmente nos Estados Unidos.

Ainda no campo do trabalho, as cidades assistiram nos últimos anos ao surgimento de uma nova classe trabalhadora submetida a um trabalho intensivo que dilui as fronteiras entre o ambiente doméstico e o ambiente de trabalho propriamente dito. “Esse processo vem acompanhando por um decréscimo das taxas de sindicalização e de crescimento da alienação. O trabalho imaterial nos leva a trabalhar fora do local de trabalho. Estamos conectados praticamente o tempo todo. As jornadas de trabalho são muito mais intensas, com o crescimento das taxas de depressão e outras doenças, além do aumento do uso de vários tipos de drogas e medicações”.

Pochmann destacou ainda elevação da expectativa de vida como outra mudança profunda que está ocorrendo em nossa sociedade. As pessoas estão vivendo mais e, em breve, deverão estar vivendo até cem anos, observou. Para ele, de um modo geral, a esquerda não está pensando o impacto e as consequências de todas essas mudanças. “Vemos hoje o crescimento do descrédito dos partidos políticos e o fortalecimento da direita no mundo inteiro. As esquerdas perderam a capacidade de pensar uma ideia de futuro. O que cresce é o conservadorismo, seja pela via religiosa, seja pelo crescimento dos partidos de direita”. Este contexto também é marcado por um processo de desconstituição do conceito de cidade tal como conhecemos, acrescentou.

A reorganização do capitalismo em torno de um modelo dominado por grandes corporações colocou em xeque a nossa capacidade de administração local. “Há um exemplo disso no caso do rompimento da barragem em Mariana. Duas das maiores corporações de mineração do mundo não instalaram sequer uma sirene para avisar a população em caso de algum problema. Não que isso fosse resolver, mas nem esse procedimento básico eles fizeram. A reorganização capitalista tornou a política irrelevante. Todos os partidos passaram a governar da mesma forma, inclusive nós da esquerda. Se não repensarmos isso não iremos a lugar algum. Qual é mesmo a nossa capacidade de pensar uma reorganização da sociedade e das nossas cidades neste contexto atual?” – questionou.

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Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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